terça-feira, 28 de abril de 2009

AEDO CIBERNÉTICO*- MARIA, MARIA

Maria, minha mãe, possuía todas essas marcas. Quando aprendi a arranhar uns acordes no violão, era a música que mais ela gostava de me ouvir tocando. E cantava com uma profundeza, que parecia engolir os suspiros que lhe provocavam a letra, a melodia enredada em sua sina de Maria forte. Maria filha, mãe, mulher com toda a graça, manha, gana, beleza, pureza, orgulho de Maria, orgulho de mulher. Tinha a sensação que Milton Nascimento havia conversado com muitas Marias como ela, antes de compor essa canção. Vai ver teve uma Maria assim em sua vida, como eu tive na minha.
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MÃE, ESCUTA DAÍ.

AMOR ETERNO.

Maria, Maria, é um dom, uma certa magia
Uma força que nos alerta
Uma mulher que merece viver e amar
Como outra qualquer do planeta
Maria, Maria, é o som, é a cor, é o suor
É a dose mais forte e lenta
De uma gente que ri quando deve chorar
E não vive, apenas aguenta
 
Mas é preciso ter força, é preciso ter raça
É preciso ter gana sempre
Quem traz no corpo a marca
Maria, Maria, mistura a dor e a alegria
Mas é preciso ter manha, é preciso ter graça
É preciso ter sonho sempre
Quem traz na pele essa marca
Possui a estranha mania de ter fé na vida.
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* Na antiguidade, como a escrita era pouco desenvolvida, o AEDO cantava as histórias que iam passando de geração para geração, através da música. Depois, veio o seu assemelhado na idade média que era o trovador. Hoje, juntado tudo isso com a tecnologia, criei o AEDO CIBERNÉTICO.
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domingo, 26 de abril de 2009

SOCORRO! HELP! TUTURIAL!

ANGLICISMO: S.m. 1 - Palavra ou locução inglesa introduzida noutra língua e empregada como se fora desta. 2 - idiotismo dessa língua. (Aurélio)

GALICISMO: S.m. Palavra, expressão ou construção afrancesada; francesismo (Aurélio)

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Madame é uma galicismo.Pegou. Self service é um anglicismo. Pegou. Milhares de frases, palavras, termos, expressões que não eram de nossa língua, pegaram. Engolimos e ruminamos numa antropofagia cultural saborosa. A mistura de cores nas nossas peles é uma integração entre os povos. Legal, ótimo!


Eu possuo um blog (esse pegou, muita gente já sabe o que é). Estava indo muito bem e assim, de uma hora para outra, aparecem feeds, bookmarks, rss, twiiter, widgets, gadgets,como se fossem arroz com feijão.


Agora, a velocidade do tempo acelerou tanto que nem engolindo inteiro, sem mastigar estamos conseguindo. Acho que a nossa capacidade de utilizar o potencial da tecnologia e da internet é muito pequena por causa das coisas que não pegam. Não dá tempo. E se a gente não correr atrás, daqui a pouco vem mais uma enxurrada de recursos e novidades e ainda estaremos no download.


Estamos aprendendo português!! Veja a reforma ortográfica!!

Como é baixa a nossa performance!

quinta-feira, 23 de abril de 2009

ESCOTEIROS

Ouvi agora no rádio que hoje é o dia mundial do Escotismo. Tem dia para tudo, em vez de ter tudo todos os dias. Mas sem neuras nem delongas, vou matar saudades de um tempo.


Quando era criança havia grupos de escoteiros por todos os lados. Eu gostava porque gostava de aventurar pelos matos como também gostava de ler o Pato Donald, cujos sobrinhos eram escoteiros mirins e estavam “sempre alertas”, ajudando velhinhos a atravessar ruas, a carregar sacolas, a salvar bichinhos em apuros, fazer nós difíceis, nadar, pescar e uma infinidade de coisas que ajudavam a formar sujeitos de bom caráter. Nada de moralismo nem puritanismo, apenas uma saudosa lembrança.


Lembro também que foi uma das primeiras manifestações pela inclusão das mulheres no chamado mundo masculino. Já havia os grupos femininos de escoteiros muito antes dos movimentos feministas. Eram as bandeirantes. Não tinham reivindicações específicas das mulheres, mas tinham os mesmos princípios dos grupos masculinos. Só que a sociedade ainda era muito separada em mundos de gênero, então escoteiros para um lado, bandeirantes para outro. Se encontrassem, rolava no máximo um piquenique bem comportado. E lembro principalmente porque foi o meu pai quem ajudou a fundar o primeiro grupo de escoteiros em minha cidade (apesar dele nunca ter nos levado (os três filhos homens) para sermos, nem que fosse Lobinhos, os escoteiros mirins. Tinham um uniforme esquisito, parecendo guarda florestal de calça curta, mas eram de uma disciplina e solidariedade sem par.


E lembrando das coisas aproveito sempre para pensar. Por que será que a modernidade tem que inexoravelmente acabar com boas tradições? Tudo bem, se em seu lugar ficasse algo ainda mais positivo para o desenvolvimento humano! Mas não tem sido assim ao longo da história. Até que de vez em quando a gente vê um velhinho sendo conduzido por um jovem. Para um caixa eletrônico ou para um asilo. Talvez o mundo esteja produzindo muito mais coisas de que precisamos para viver. E assim não sobra tempo para perdermos com outras humanidades impalpáveis.

terça-feira, 21 de abril de 2009

SOBRE HERÓIS E MÁRTIRES

Não sei quando começou essa história. Imagino que tenha sido com a descoberta do fogo. Um atrito sem querer, uma fricção qualquer gerou faísca, se alastrou e pronto. Estava descoberto o fogo. E com ele, minha nossa... quanta coisa mudou no mundo! Quem teve a felicidade deve ter sido considerado um Deus. Um cara dotado de poderes acima da natureza e da capacidade humana. Certamente passou a ser reverenciado, respeitado, temido.


A fala não foi inventada, apenas se organizou e ajeitou a comunicação entre os homens e, com ela, as histórias passaram a ser passadas de geração em geração até um outro homem-Deus ter inventado a escrita. E as histórias então, começaram a ficar registradas. Daí em diante, haja heróis e mártires!


O fogo, a fala e a escrita, juntamente com a roda, estabeleceram o poder. Quem dominava qualquer dessas coisas começou a acumular poder. Mandar e desmandar; fazer e acontecer. A morte, desde então deixou de ser coisa natural ou questão natural de sobrevivência e passou a fazer parte da manutenção do poder. Se do lado dos poderosos ela é executada a mando, para não perder a pose, a coroa, ou o cargo, há do lado do mais fraco quem não se conforme com essa correlação desigual e invista (muitas vezes sozinho) contra os abusos e desigualdades. Uns chegam mesmo a se tornarem heróis. Mesmo que temporariamente, ganhando uma ou outra batalha. Outros são martirizados, estropiados até o osso, para que sirvam de exemplo ao restante dos dominados. Eis o quanto é frágil o ser humano. Desprotegido, desorientado e apático enquanto coletividade, sempre está a necessitar de alguém que em seu nome ou por sua causa, oferece a cara a tapa, ou o pescoço à corda ou o lombo à chibata ou todo o corpo à cadeira elétrica, ou outro mecanismo de execução e eliminação de ousados. Tudo, penso eu, por causa do poder. Nem precisa falar do dinheiro, ou precisa?

domingo, 19 de abril de 2009

DIA MUNDIAL DO EU SOZINHO

Meu sobrinho Leandro anda indignado. Sozinho? Talvez não. Não se conforma com os rumos que a vida vem tomando. Não agüenta tanto egoísmo humano, não suporta a apatia. Está indignado e se sentindo impotente. Quer porque quer ver a vida de outro jeito, a partir da expectativa que deposita e sua capacidade de pensar e das pessoas. Mas as pessoas não acompanham a sua indignação junto com ele. Há muitas indignações soltas por ai. Sozinhas. Ele é um jovem que inspira. Poucos querem mudar alguma coisa além da condição material.


Ultimamente tenho visto muitas indignações esquisitas, meio exóticas para caber na indiganação dele e ai me agarrei na dele também, porque me lembrei disso. Outro dia mandaram apagar as luzes por uma hora para dar um grito contra o desperdício de energia na terra. Tudo bem. O outro disse que apagou as luzes do quarto e ficou no orkut às escuras. Só com a luz da tela do computador. E contribuiu mais: gritou lá do quarto para a mãe e as irmãs desligarem a televisão da sala e apagarem a luz.


Teve uma pedalada de peladões em São Paulo contra a violência no trânsito. A nudez? Ah, segundo os organizadores era para dais mais visibilidade às pessoas que manifestavam. Ah, bom! Ninguém prestou atenção na violência no trânsito. Havia corpos lindos e feios. Concentraram toda a mídia nesse fato. Aliás, se não tivessem fechado o trânsito para os carros ia dar muito acidente.


Depois falaram de uma guerra de travesseiros em praça pública. Essa tinha o objetivo de mostrar a socialização das pessoas. Precisavam mostrar que vivam em comunidade. E comunidade que se preza tem que estar irmanada em guerras de travesseiros. Essas são as mais visíveis manifestações de indignação que têm ganhado espaço no noticiário. Uma lástima!

Tenho notado que a maior parte dos problemas sociais, econômicos, políticos, psicológicos são problemas coletivos, As soluções, os caminhos, a ações que nos recomendam são individuais.


Aquela história, - eu resolvendo o meu, já ta bom demais!


Atualmente estamos tendo que esperar o Dia Mundial de alguma coisa. Quem pode vai às ruas, quem não pode, faz pela internet a sua mobilização. Quem não quer, aplaude ou critica.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

ODE OU ÓDIO À SENSATEZ?

A lei anti tabagismo (ai, meu Deus, me ajudem! É com hífen?) em São Paulo está dando “panos para manga” Brasil afora. Os donos dos bares e restaurantes querem defender seu lucro vindo dos fumantes e invocam o sagrado direito de ir e vir das pessoas. Os não fumantes alegam o inevitável câncer passivo. Aquele que vem imposto pelo seu colega da mesa ao lado. Os fumantes, acuados, mas uns dragões, apelam para um cantinho separado, com exaustor e tudo para fazerem valer a paz e a fumacinha.

Argumentos semelhantes foram usados também na lei seca. O sujeito pode exigir que tenha uma estrada só para bêbados? Ele pode, baseado no seu direito de ir e vir, querer pistas exclusivas, com bares na beira dessas estradas e se arrebentarem todos? Desde que estejam sozinhos e não matem ninguém!. O argumento do bebedor vale mais que a vida alheia. O lucro reclamado pelo comerciante, não leva em conta as estatísticas tristes das mortes por bebedeiras no trânsito.

Agora, só para complicar, eu posso pedir uma lei para proibir as pessoas de falarem alto em locais fechados? Também tem muita gente que não gosta de gritaria, se irrita. E faz mal à saúde. Tem pessoas que falam acima de 80 decibéis, insuportáveis ao ouvido humano sem deixar sequelas.

O nosso pacto de sociedade prevê, nas entrelinhas do “espírito de porco das leis”, o vale tudo, o manda quem pode e o obedece quem tem juízo.

E já que é assim, proponho uma lei que obrigue as pessoas em todos os recintos fechados, a terem discernimento.

P.S. A metade desse texto tive que escrever num papel do maço de cigarros que acabou. Lá fora, no quintal, para não fumar dentro de casa. Não é lei aqui (ainda)!

quarta-feira, 15 de abril de 2009

AEDO CIBERNÉTICO*- ACALANTO

Meu regime de trabalho era de revezamento em turnos noturnos, diurnos e vespertinos. Enfim, quando nasceu a Maíra, eu tinha dentro das 24 horas do dia, horário para trabalhar à vontade. Costumava chegar de manhã para dormir, e ela, lépida, fagueira e ligeira, chegava ao meu quarto para brincar. Aí, tinha que fazê-la dormir comigo, caso quisesse descansar para uma nova jornada mais tarde ou no outro dia. Fui descobrindo umas musiquinhas que lhe acalmavam momentaneamente o fogo. Meu relativo sucesso era com ACALANTO. Nos primeiros minutos, ficava como uma tocha, os olhinhos acesos prestando uma atenção danada, feito coruja. Depois ia se acalmando até adormecer em meus braços, ou a gente junto deitados no meio das almofadas no chão da sala, cada um dormindo um soninho bom.

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PARA MAÍRA, COM AMOR,

DESDE CRIANCINHA.

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* Na antiguidade, como a escrita era pouco desenvolvida, o AEDO cantava as histórias que iam passando de geração para geração, através da música. Depois, veio o seu assemelhado na idade média que era o trovador. Hoje, juntado tudo isso com a tecnologia, criei o AEDO CIBERNÉTICO.

terça-feira, 14 de abril de 2009

ELIS REGINA

ATENÇÃO, Maria Rita:

Já que nossos ídolos ainda são os mesmos e as aparências não enganam, por que você não regrava COMO NOSSOS PAIS, do mesmo jeitinho da sua mãe? Dá esse presente prá nós, dá?

segunda-feira, 13 de abril de 2009

TRÔPEGO

Troquei de cachaça

Larguei a de cana

E enfiei a cara na de letras.

Bêbado fico do mesmo jeito

Com o fígado sorrindo

E a cabeça desopilada.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

AEDO CIBERNÉTICO - BOLERO DE RAVEL

É DE ARREPIAR ATÉ PEDRA.

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Ravel compôs o seu bolero em 1928, com ele deu a volta ao mundo atuando como regente em concertos nos USA, Londres e em toda a Europa. Suas apresentações sempre lhe premiavam com uma acolhida triunfal.

Como tudo começou?

Em 1927 a dançarina Ida Rubinstein estava preparando um novo espetáculo e pediu a Ravel que orquestrasse algumas páginas do compositor Albeniz. Na verdade ela fizera este mesmo pedido a um outro músico e Ravel decidiu, então, compor uma obra nova e escolheu o bolero, atraído, pelo que tudo indica, pelo seu ritmo repetitivo e sua simplicidade melódica.

O “Bolero” é uma sutil mistura de folclore e de grande e genial inspiração.


Toda a peça consiste em dezoito compassos ao longo de uma folclórica melodia espanhola em rítmico de bolero, ininterruptamente repetida. É somente a instrumentação que numa contínua repetição se torna cada vez mais vigorosa, mais concentrada, aumentando também o volume correspondente.

Dentro desta simples orientação, a obra leva a cabo um incrível, persistente e crescente “suspense” que próximo ao final diligencia descarregar por intermédio de uma repentina, e de forma idêntica, rápida mudança de tonalidade, antes do real clímax ser atingido pelo vivo final.

É na verdade, um teste de habilidade para o regente que com a orquestra tem de manter uma poderosa e uniforme linha sem interrupção em toda a extensão da obra.

Ravel foi bastante ousado.

Tanto é que na primeira apresentação os próprios freqüentadores da Ópera também ficaram surpreendidos. Eram dezessete minutos de um longo e progressivo crescendo, a ponto de alguém da platéia exclamar; “é um louco!”. Segundo Ravel esta era a prova de que, pelo menos esta pessoa, havia compreendido sua obra.

Era noite de 22 de novembro de 1928 e este mesmo público, no entanto, assistira ao nascimento de uma das páginas mais célebres da literatura orquestral do século XX, uma obra que a princípio, nem mesmo Ravel acreditara.

(fonte: administradores.com.br/artigos)

terça-feira, 7 de abril de 2009

PRÁ FRENTE É QUE SE ANDA

Atenção escritores diletantes. Se vocês ainda não se tornaram consagrados pela crítica ou não foram fisgados por alguma oportunidade mercadológica, cuidado com sua missão! Arranje um trabalho “produtivo” paralelo, porque a discriminação atinge também a nós, desconhecidos e, portanto, desocupados. A nossa atividade não costuma ser considerada trabalho para a maioria das pessoas. Se você tenta sobreviver só das suas produções literárias, cuidado: de onde menos esperar é que não vai haver condescendência em nenhuma hipótese. Já ouviu aquela:
– Você não tem algo mais útil a fazer do que só ficar ai escrevendo, não?
Ou, já encontrou com alguém que não via há muito tempo e a pessoa:
- E então, como tem levado a vida?
- Escrevendo.
- Ah, é mesmo? E trabalha em que?
Agora, caso dê uma reviravolta e sua obra caia nas graças de algum caçador de talentos para se empanturrar de dinheiro, os tapetes lhe serão estendidos e os mesmos que lhe desabonam, vão lhe fazer abanos para você descansar entre uma escrita e outra. Com penas de pavão. Pode apostar.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

ENTRE PÃO DURO E PERDULÁRIO

Como você gasta? Alias, gasta?

Pois é essa a diferença

entre perdulário e pão duro

É um, otário, imaturo,

O outro, desconfia, só vê futuro.

O perdulário gasta desbragado, libertino

O pão duro é complicado, não gasta,

Para ele é desatino

Entre os dois tem o terceiro

Não abusa nem recusa

O que é preciso usa

Sem remorso, sem salseiro

Põe na balança o valor do dinheiro

Junta com a necessidade

Pensa sem gastar

Gasta sem vaidade

Esse aí não lambuza

nem é receoso

Sabe de que jeito

Quando e como usa

É parcimonioso

quarta-feira, 1 de abril de 2009

1º de ABRIL - DE FRENTE PRO CRIME

O ônibus seguia naquela desembestada fúria que é habitual e os passageiros naquela indiferença habitual também. Ninguém mais liga a não ser em seu olhar perdido na falta de horizonte; a não ser os ouvidos no seu mp3, mp4, esses sonzinhos de espantar tédio que carregamos por aí em vez de um papo com alguém que encurte a viagem; a não ser também se houver uma batida. Aí lembram do motorista. Pois foi passando exatamente em frente ao corpo de bombeiros que alguém avistou um corpo civil estendido no chão. Mais de uma voz ao mesmo tempo gritou: - Olha lá, tem um homem morto ali! O outro coro, nervoso, já vociferava com o habitual mau humor: - Essas brincadeiras de 1º de abril não pegam mais, não! Mas era de verdade. O corpo estava lá, para a habitual observação indiferente de quem passava. Tem uma ação coletiva e disputada, que não é de mentira. A de chamar o resgate. 192, 193 e está cumprida a nossa cidadania de pedra. Todos querem ser o primeiro. Mas o corpo continua lá, frio, no 1º de abril e nos outros dias da verdade dura. Com pressa, foi cada um pro seu lado.

Tá lá o corpo
Estendido no chão
Em vez de rosto uma foto
De um gol
Em vez de reza
Uma praga de alguém
E um silêncio
Servindo de amém...

O bar mais perto
Depressa lotou
Malandro junto
Com trabalhador
Um homem subiu
Na mesa do bar
E fez discurso
Prá vereador...

Veio o camelô
Vender!
Anel, cordão
Perfume barato
Baiana
Prá fazer
Pastel
E um bom churrasco
De gato
Quatro horas da manhã
Baixou o santo
Na porta bandeira
E a moçada resolveu
Parar, e então...

Tá lá o corpo
Estendido no chão
Em vez de rosto uma foto
De um gol
Em vez de reza
Uma praga de alguém
E um silêncio
Servindo de amém...

Sem pressa foi cada um
Pro seu lado
Pensando numa mulher
Ou no time
Olhei o corpo no chão
E fechei
Minha janela
De frente pro crime...

Veio o camelô
Vender!
Anel, cordão
Perfume barato
Baiana
Prá fazer
Pastel
E um bom churrasco
De gato
Quatro horas da manhã
Baixou o santo
Na porta bandeira
E a moçada resolveu
Parar, e então...

Tá lá o corpo
Estendido no chão...

terça-feira, 31 de março de 2009

"MEMÓRIAS DE UM TEMPO ONDE LUTAR POR SEU DIREITO É UM DEFEITO QUE MATA"

Eu freqüentava o Grupo Escolar, quando o terceiro presidente da golpe de 1964 foi visitar a mineração Vale do Rio Doce na minha cidade. Todas as crianças da escola foram impecavelmente uniformizadas e portando bandeirinhas do Brasil feitas de papel e bambu, perfiladas no Ponto dos Aflitos, caminho da mina, onde funcionava um mercado clandestino de hortifrutigranjeiros e outras, carnes, ervas e outros utensílios em meio à imensa poeira e lama. Aquilo tinha que ser mascarado não podia o presidente ver nem saber da existência. Diziam para a gente que era a revolução. Nesses eventos era obrigatória a participação, com as mãos no peito para mostrar orgulho e sorrisos de crianças nos lábios representando a satisfação da população. A mesma coisa era no sete de setembro. O desfile era obrigatório. Valia até nota no boletim. Mas depois fui crescendo até o dia em que vi uma bomba sendo jogada em minha casa. Passou um fusca, jogaram e nem deu para saber quem foi. Ninguém nos dizia nada. Só sabia que meu pai era do sindicato dos trabalhadores da mineração. Mas ninguém falava nada.

Mais adiante, vim para capital estudar. Aí comecei a ver que tinha gente querendo fazer uma revolução. E pensava. Mas já não teve uma revolução? Começaram a me ensinar que a outra revolução era para restaurar a democracia. Comecei a ver com meus próprios olhos e sentir no nariz, quando na rua, a gente tinha que correr assim, do nada, de avanços das tropas em cima de alguma manifestação, tampando a cara dos gases das bombas. Passei a gostar de ler e os rapazes da república onde morava me alertavam que não era qualquer livro que se podia ler. Tinha uma censura, com livros, com discos. Mas na televisão e nos jornais nada se falava sobre o assunto. Lendo às escondidas, comecei a entender o sistema. Me envolvi também vendo colegas todos engajados, estudantes nas ruas todos os dias. Percebi que a outra revolução que se tentava era para derrubar o regime que humilhou, ofendeu, torturou, matou, destruiu vidas carreiras, reputações, famílias. Para andar nas ruas à noite o documento que tinha que se ter em mãos era a carteira de trabalho. Não adiantava RG, CPF. As bancas de jornais que vendiam material ‘proibido’, viviam sendo explodidas, tais como as redações de jornais que ousavam criticar alguma coisa. Não pode ficar esquecido. Passou mas não se esqueceu. Durou vinte e um anos.

Hoje faz 45 anos que tudo começou. Ainda bem que já passou, mas eu estou contando essa historinha é mais para quem nasceu depois disso tudo, maioria de jovens tão desligados da história, que nem sente os pés no chão a não ser para mostrar tênis de marca. Que não têm a democracia como valor social coletivo e universal. Para aqueles que acham que é na economia e no consumo que reside toda a felicidade possível de ser alcançada.

domingo, 29 de março de 2009

ESCOLA - UM GRITO DE PAVOR

Entre tantas ocorrências, há umas que incomodam mais que outras. Ultimamente estão frequentando as escolas. Sim, a polícia está sendo chamada repetidas vezes. Os motivos? Agressão a professores por alunos, a alunos por professores, brigas entre alunos, assassinatos de alunos. Friamente, poderíamos fazer uma análise sociológica da seguinte forma: a escola reproduz a sociedade, portanto, é natural que suas mazelas caminhem em sua direção (da escola). Com tão baixos salários e precárias condições de trabalho, os professores são mais vítimas do que algozes. Se a escola virou um negócio como qualquer outro, faz-se de tudo para obter resultados publicáveis ou atingir determinadas metas (mesmo que não seja louvável eticamente).

Tem como não ser dramáticos se olharmos a escola como segundo santuário depois do lar? E, em alguns casos, até mesmo o primeiro? A formação não está circunscrita às letras, ao aprendizado lógico-matemático ou à iniciação científica. Diz respeito, sobretudo à formação do caráter, da sociabilidade, do respeito às regras coletivas, de valores que vão se entrelaçando com os da casa e vão se manifestar na rua, no trabalho, enfim na vida futura. A casa e a escola historicamente cumpriram uma cumplicidade na educação dos homens de maneira que uma corrigia, dava rumos a desvios ou escorregões da outra. Nos exemplares casos, reforçavam uma o que a outra produzia de bom para educar a nós todos. Agora, a responsabilidade está sendo jogada de uma para outra como “batata quente”.

Nem sei como concluir. Também não acho que haja conclusão. Como é mesmo a educação humana. Não se conclui. Já temos problemas morais, imorais e amorais demais com toda essa gente que se diz formada e está ai corrompendo, violentando, violando, matando, deseducando pelo exemplo. Na época deles, a escola não era assim. A sociedade era menos assim. Imagine daqui para frente!

domingo, 22 de março de 2009

AEDO CIBERNÉTICO - HISTÓRIA COM MÚSICA

Dentre as muitas formas de resistência às condições de vida e de trabalho da maioria da população brasileira, seja sob a monarquia, seja sob a república, uma revolta marcante foi a da vacina, em 1904, quando Oswaldo Cruz tentou imunizar a população do Rio contra a varíola e febre amarela. Sem aviso prévio, invasivamente e sem nenhuma campanha esclarecedora. Uma tentativa de erradicação e uma revolta contra a profilaxia.

A outra (1910) foi a dos marinheiros que ficou conhecida como a Revolta da Chibata, contra maus tratos aos tripulantes dos navios da marinha brasileira. O líder era o marinheiro João Cândido, também conhecido como Almirante Negro. Ameaçavam bombardear a cidade, se não fossem atendidos. ( a maioria era de negros).

Houve uma relativa vitória dos insurgentes, pois os castigos físicos foram abolidos um dia após a Proclamação da República mas foram restabelecidos no ano seguinte (1890):

"Para as faltas leves, prisão a ferro na solitária, por um a cinco dias, a pão e água; faltas leves repetidas, idem, por seis dias, no mínimo; faltas graves, vinte e cinco chibatadas, no mínimo."

(J. M. Carvalho – Os Bestializados).

Foram violentamente reprimidos e o governo não cumpriu a promessa de acabar com a situação, prendendo os líderes e enviando outros para a floresta amazônica. O Almirante Negro foi expulso da Marinha e internado como louco.

Vejam essa pérola de música para ilustrar esse momento histórico que o compositor João Bosco produziu.

Reproduzo a letra no original, pois a que aparece no vídeo contém muitos erros.

O MESTRE SALA DOS MARES

Há muito tempo nas águas da Guanabara
O dragão do mar reapareceu
Na figura de um bravo feiticeiro
A quem a história não esqueceu
Conhecido como o navegante negro
Tinha a dignidade de um mestre-sala
E ao acenar pelo mar na alegria das regatas
Foi saudado no porto pelas mocinhas francesas
Jovens polacas e por batalhões de mulatas

Rubras cascatas
Jorravam das costas dos santos entre cantos e chibatas
Inundando o coração do pessoal do porão
Que, a exemplo do feiticeiro, gritava então

Glória aos piratas
Às mulatas, às sereias

Glória à farofa
à cachaça, às baleias

Glória a todas as lutas inglórias
Que através da nossa história não esquecemos jamais

Salve o navegante negro
Que tem por monumento as pedras pisadas do cais

Mas salve
Salve o navegante negro
Que tem por monumento as pedras pisadas do cais

Mas faz muito tempo

sexta-feira, 20 de março de 2009

OUTONO

Outono me dá uma sensação de neutralidade, de prenúncio. As outras estações têm um apelo coletivo muito forte. Muita coisa a favor da primavera. Inverno e verão numa disputa acirrada de preferências, mas outono... Nada sobra, nada falta, mas também nada se equilibra. Parece uma neutralidade da natureza, desprovida de consciência. Se continua o que passou ou se prepara o que vem adiante, nem sei . Alguma coisa como deixar estar para ver como vai ficar. Não conheço os Deuses do outono, não sei dos reis e rainhas dessa estação. Qual o seu símbolo de encanto? É..., acho que folhas caindo são para a dúvida!

quinta-feira, 19 de março de 2009

ENTRE TANTOS MOTIVOS

Escrever às vezes é o que me incide. O que “dá na telha”, como se diz por ai. Ocorre que às vezes escrevo o que dá na telha e não é o que penso. Ai penso e reescrevo. E nem sempre foi o que deu na telha. Entre pensar e ocorrer fico com o que está escrito. Já escorreu. Meço as palavras? Quase! Se é texto, reconstruo, reescrevo, refaço, repenso. Se é poema, deixo ao vento, ao sol, ao relento. É puro sentimento. Quem gostar que sinta. Quem não gostar que apague da memória.

sábado, 14 de março de 2009

O DIA DA POESIA

Não, não foi o vendedor de cartões que inventou o dia

Tampouco o vendedor de flores, nem de chocolates

Não foram os negociantes

Como fizeram com os outros,

o das mães, dos namorados, dos pais

Foi o poeta que inventou a poesia

E com ela reinventou os dias

Para mais ou menos alegria

Para deleite, sussurros, nostalgia.

domingo, 8 de março de 2009

AEDO CIBERNÉTICO - O MUNDO É UM MOINHO

Há moinhos de vento, de bolas, de barras, de hélices, de atos, de palavras, de ausências, de presenças... Já inventaram até o multiprocessador!

segunda-feira, 2 de março de 2009

UM BLOCO BRASILEIRO

De manhã, as manchetes

No radio, jornal, televisão

“O Brasil agora começa

a funcionar”, eis a previsão


Vamos ver se não tropeça,

O carnaval passou

O ano novo lá atrás ficou.


Condenam o país

Que dizem, não quis

Abrir o ano em janeiro

Foi-se também fevereiro

Mas se engana quem assim pensa.

Quem crê na imprensa

Não vê o Brasil, funcionar inteiro.


Pára banco, shopping, pára loja,

Pára escritório, ar condicionado, oficina,

Pára, da pirâmide social,

Somente o andar de cima

Não atrapalha nem desanima.

No fim, fica tudo normal.


Quem acha que o leiteiro, o padeiro,

Motorista, metroviário, enfermeiro

Médico, mercadista, açougueiro,

Consegue parar prá pular carnaval

Ou é de Paris, onde se é mais feliz

Com muito glamour e dinheiro

Ou então não sabe o que diz

Não come, não bebe, não cura

Ressaca, joelho, ranhura.


Essa gente que não pára, entra noite sai dia

Repõe toda a nossa energia

Perdida em meio ao turbilhão

Depois de tanta folga, tanta folia!


UMA SINGELA HOMENAGEM AOS MILHÕES DE BRASILEIROS QUE SÓ TÊM NOTÍCIAS DO CARNAVAL PELAS CARAS QUE ATENDEM NOS DIAS SEGUINTES DA FOLIA.

sábado, 28 de fevereiro de 2009

SR. FUTURO

Estou tendo que fazer um grande esforço de memória. É que depois da internet a piada está perdendo a graça para quem navega sempre. Em todas as rodas em que estou, vou contar uma e me tiram logo:

- Essa é velha, conta outra.

Ou então ouvem para não ser deselegantes e depois dão aquele sorriso amarelo. O que para mim é pior do que mandar contar outra. Ainda bem que a memória tem dado um auxilio luxuoso (de vez em quando). Por isso, recorro aos causos, que são mais raros na net.

Na minha cidade havia uma grande obra de expansão da empresa de mineração e foram contratados milhares de trabalhadores nas empresas que tocavam o serviço. Uma delas era a responsável pela construção de um imenso galpão que serviria de oficina de manutenção das máquinas e caminhões de minério. A equipe era comandada por um mestre vindo do nordeste, viajado, experiente, um líder carismático no meio da peãozada. Chamava-se Arcanjo Isabelito Salustiano, mas gostava de ser tratado como Seu Futuro. Gostava de ser tratado assim porque dizia resolver tudo aqui, agora e não deixava nada para trás, nem para frente.

Era muito requisitado pela empresa e vivia num corre-corre atendendo a solicitações várias em todos os lugares onde a empresa tinha serviços. Resolvia problemas estruturais, geológicos, hidráulicos, elétricos, mecânicos, gripe, sarampo, cachumba e unha encravada, se bestassem com ele.

Num retorno de uma dessas andanças, vinha num avião pequeno fretado pela firma para resolver outro problema urgente na obra e viu, lá de cima, que algo saía errado na construção. Mandou o piloto fazer um vôo rasante ali perto e disse:

- Nem precisa parar, é só diminuir a velocidade. Feito isso, pulou a já foi logo mandando desmanchar e refazer tudo. Afinal o patrão (a mineradora) havia contratado os serviços por um preço muito alto e não admitia falhas.

Seu feito maior foi com o seu time de futebol. Ele criava essas técnicas de RH para relaxar o pessoal e manter a equipe unida, mesmo se no campo os trabalhadores quase se matassem de pancadas para tirar o estresse dos serviços pesados e das cobranças, baixos salários e outras atrocidades por que passam os peões da construção civil.

Organizou um campeonato na cidade e levou lá o seu time, que, chegou à finalíssima, graças a sua bem elaborada técnica futebolística. Ocorre que no dia do jogo decisivo havia sido requisitado mais uma vez para resolver um daqueles problemas que só ele resolvia.

Conseguiu chegar ao jogo já no segundo tempo e seu time perdia, aos 30 minutos por 11 x 0. Começou a fazer as substituições e dava em nada. Faltando 8 minutos para terminar o jogo, já perdiam de 14 x 0. Pensou rapidamente, olhou para o banco de reservas, fez aquela cara de desprezo e resolveu entrar ele mesmo. Tirou o camisa 10, tomou ali na beira do campo o seu uniforme, vestiu e entrou. Técnico e dono do time e do campeonato tinha que ter o direito de jogar também, segundo suas próprias regras.

Fez doze gols e deu passe para mais três, na estrondosa vitória por 15 a 14.

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