domingo, 9 de março de 2008

CONVERSA PRÁ BOI DORMIR

Já reparou o leitor nas feições dos animais? Botei meu reparo na cadela daqui de casa (a Flor) para descrever com precisão humana essas expressões que a gente nota, mas não fala por vergonha da tolice ou por acreditar na impossibilidade de manifestações sentimentais nesses seres vivos que chamamos de irracionais. Eu acho que os bichos podem até não pensar mesmo, mas que eles manifestam sentimentos, ah, isso lá é verdade. Está na cara! Os cães têm um olhar que é o símbolo natural da humildade. De vira lata a pit bull, sem exceção, basta observá-los quando estão sozinhos ou na calmaria e trocar com eles um olhar. Parece que estão querendo chamar a atenção para a sua presença e que precisam de correspondência, seja do dono ou de quem estiver olhando-o e que lhe seja simpático ou agradavelmente não agressivo. Uma olhadinha que seja, se não for possível um afago e se o interlocutor não tiver medo. E nem precisa ter, porque, se existe sinceridade em um olhar, ela foi dada às crianças e aos cachorros. A gente vai perdendo com o tempo, os cães não.

Por outro lado, os gatos possuem um tom ameaçador à primeira vista. Nem que seja por instinto de defesa e sobrevivência. Já cruzou com algum à noite, estático, lhe observando com aqueles olhos vidrados e difundindo luz, como se fossem o facho de uma lanterna colorida? É bonito, mas dá um medo danado. Talvez a associação que fazemos desse animal com coisas de bruxaria tenha partido desse comportamento deles. De outras coisas malévolas que o gato faria para gerar essas crenças, nunca ouvi dizer. É tão manso que empresta sua apatia aos indolentes. Quem nunca ouviu ou mesmo chamou alguém de “mais manso que gato de hotel?”, ou, “manso que nem gato em beira de fogão a lenha.”?

Agora, os pássaros e as aves em geral, que vivem no fio da navalha, quer dizer, são presas fáceis para tudo quanto é bicho, tem o mais arisco semblante que já se viu. Os olhos dos pássaros, pombos e outros seres voantes, giram que nem uma bola. Não sei não, mas devem enxergar em todas as direções ao mesmo tempo. Só amansam quando têm a certeza de que o dono não lhes quer como alimento ou mesmo quando é fácil decolar diante da iminência de um ataque. Mas há também as chamadas aves de rapina. Ocorre que essas são exceção. Até porque vivem em alturas tão grandes, que só vêm aqui em baixo para buscar uma comida e voltam de imediato para seu lar, seja nas montanhas elevadas ou simplesmente disputando no céu espaço com aviões e outros maquinismos voadores.

Dos bichos que já me proporcionaram a oportunidade da observação, o que mais me comove é o boi. E o termo exato que consegui encontrar para definir o seu olhar e resignação até para andar é: comovente. A sensação que seu olhar transmite é a de que sabe que tem de cumprir sua triste sina rumo ao matadouro, mais dia, menos dia. E vive por isso, com aquele olhar de profunda tristeza. Se nos imbuirmos de sentimentalismos num curral cheio e ficar alguns momentos cruzando olhares com bois, vacas e bezerros, creio que, por piedade ou solidariedade, deixaremos de gostar da carne desse animal tão indispensável à nossa saúde. Desculpe-me, leitor se por acaso fizer essa leitura antes do almoço, jantar e estiver diante de um prato com um suculento e cheiroso bife.

sábado, 8 de março de 2008

O ANO COMEÇA EM JANEIRO, A VIDA EM MARÇO

Entrego esse poema a todas as mulheres

Que não simbolizam nada. Simplesmente são

As lutadoras do mercado desigual do trabalho

As guerreiras das casas, cozinheiras, lavadeiras, companheiras

Mães, acima de tudo, das gentes. Mães.

As que romperam barreiras no passado opressivo

As que buscam quebrá-las no presente

que faz de gente, coisa.

As donas, moças, donzelas, meninas

As carentes, simples, alegres, sofridas

As que se iludem, que transgridem, se penitenciam

As que não se calam, que vão às lutas a despeito de tudo

As que não se rendem e nem se vendem

Que olham além dos muros, às que não sucumbem

Que não fazem da sedução trilha para estrelismo ou vida fácil ou vida fútil

As que resistem ser mercadoria, vitrine de marca, ponte para produto

As fortes, combatentes, companheiras

As amadas, bem amadas, dignificadas

As plenas, esposas, maridas, mães, pais, filhas e espírito santo amém

As escondidas, temerosas

As merecidas, corajosas.

Ofereço esse poema a todas estas e àquelas

Que ainda encontram chão e o pisam com a firmeza decente

Para amar sem explicação, suster a prole com honra

Dividindo o parco

Transmitindo vidas

Espalhando humanidade, doçura, fibra.

sexta-feira, 7 de março de 2008

FALAR É FÁCIL

FIQUEI NA DÚVIDA DE COMO UTILIZAR CORRETAMENTE O VERBO VER, NO CASO DE TELEVISÃO. EU DIZIA AO LEITOR QUE, QUANDO FOSSE VER NA TV... AÍ VEIO A DÚVIDA: QUANDO VER NA TV OU QUANDO VIR NA TV? ENTRE PESQUISA EM GRAMÁTICA E CONSULTA A UMA DE MINHAS IRMÃS DAS LETRAS, OPTEI PELA SEGUNDA, ALI, MAIS À MÃO E ÀS FALAS, QUE É MELHOR. DEPOIS FIQUEI PENSANDO E CONSTATEI LOGO O QUÃO EXIGENTE É A NOSSA LÍNGUA (DA QUAL ME ORGULHO MUITO, QUE FIQUE BEM CLARO). MAS, POR QUE FALAMOS TANTO E SOMOS ENTENDIDOS E O MESMO NÃO PODE OCORRER COM A ESCRITA? (ESSE PRONOME TAMBÉM É TRABALHOSO, TEM UMAS QUATRO OU CINCO FORMAS).

A NOSSA TENDÊNCIA PARA A TRANSGRESSÃO ACHO QUE VEM DAÍ. QUANDO CRIANÇAS APRENDENDO A FALAR E NÃO DOMINANDO AINDA A PALAVRA ESCRITA, NÃO HÁ QUE CONJUGAR, CONCORDAR NEM FLEXIONAR NADA. DEPOIS, NA ESCOLA, TOMAMOS UM CHOQUE. ENSINARAM-NOS A FALAR DE UM MODO E DAÍ POR DIANTE (DA ALFABETIZAÇÃO), O BURACO PASSA A SER MAIS EMBAIXO. SURGEM AS REGRAS. ACHO QUE O SUJEITO QUE INVENTOU AS REGRAS GRAMATICAIS, NÃO TINHA LÁ MUITOS PREDICADOS.

SE O VERBO É VER E VIRA VIR NO FUTURO DO SUBJUNTIVO (AVE, MARIA!), QUANDO USAMOS VIR DE ALGUM LUGAR, PASSA A SER VIER. ALIÁS, PARA APRENDERMOS SUBJUNTIVO, PRETÉRITO, DEFECTIVO (CREDO, PARECE OUTRA COISA), ANÔMALO, E TANTOS DISPARATES MAIS, TEMOS PRIMEIRO QUE IR AO DICIONÁRIO PARA SABER O QUE SÃO ESSES PALAVRÕES. PARECE XINGAMENTO.

ISSO É O QUE DÁ BRECHA PARA OS MODISMOS LINGÜÍSTICOS. O MODISMO NA LÍNGUA É UMA FORMA DE UNIVERSALIZAR O NÃO SEI. É UM CONSENSO GERAL E QUASE TOTAL EM TORNO DE EXPRESSÕES E FALAS CRIADAS. PRODUZEM COMUNICAÇÃO, COM TODOS OS RUÍDOS E CHIADOS POSSÍVEIS, MAS ESTABELECEM UMA TRANSMISSÃO E RECEBIMENTO DE UMA MENSAGEM (CAPTOU A MINHA?). ESTAMOS AGORA VIVENDO O EXEMPLO DOS GERÚNDIOS (DÁ PARA ESTAR ME ENTENDENDO?). TEMOS TAMBÉM A GÍRIA E O APORTUGUESAMENTO, QUE TANTA DINÂMICA EMPRESTAM À NOSSA “FLOR DO LÁCIO, INCULTA E BELA”*, DIZIA O NOSSO GRANDE OLAVO BILAC.

COM O ADVENTO DAS IMAGENS E DA INTERNET, A ESCRITA VEM PERDENDO CADA VEZ MAIS TERRENO PARA ESSAS FORMAS DE COMUNICAÇÃO. NÃO QUERO JULGAR SE EMPOBRECEM A LÍNGUA, NEM TENHO TAL CAPACIDADE, MAS, NESSE RITMO, ACREDITO QUE VAMOS NOS COMUNICAR EXCLUSIVAMENTE POR MÍMICA DAQUI A ALGUM TEMPO.

DARIA PARA FAZER UM LIVRO COM TODAS AS POSSIBILIDADES, DÚVIDAS, APREENSÕES E DISCORRER POR MILHARES DE PÁGINAS SOBRE O ASSUNTO. MAS COMO A LEITURA JÁ ESTÁ QUASE SE TORNANDO UMA ATIVIDADE DE ESPECIALISTAS, VAMOS FALANDO E ANDANDO.

* Lácio (em latim, Latium; em italiano, Lazio) é uma região da Itália. A última flor refere-se à língua portuguesa, que é originada do latim.

quinta-feira, 6 de março de 2008

NO CONSULTÓRIO

Eu retornei com minha mulher ao médico que me operou de duas hérnias para fazer uma revisão programada nas partes que ele consertou, mas, dessa vez, não no bloco cirúrgico. Foi no seu consultório, no 12º piso do prédio e explico depois por que citei o andar . A clínica ocupa todo o pavimento e as especialidades são todas relacionadas à cirurgia, especialmente das vísceras. A mais concorrida delas é a recente novidade da medicina de fazer a redução de estômago. Há um grande corredor com cadeiras, anexo a uma sala de espera um pouco maior e estava completamente lotada. Os médicos atrasados, essas coisas corriqueiras dos consultórios, que revelam o ser humano nas suas mais íntimas idiossincrasias, fragilidades e curiosidade impagável.

Já na subida, conhecemos um casal que também retornava de um pós-operatório, cuja mulher havia retirado a vesícula. A conversa foi se espichando para a sala de espera, estendida mais ainda com a intervenção de outras pacientes recém operadas, a maioria delas, do estômago. Depois de todas relatarem brevemente o seu caso, o assunto me prendeu a atenção pela forma como as pessoas estão tratando dos seus corpos, vendo a intervenção cirúrgica como única forma de se livrar dos incômodos quilinhos a mais. Foi unanimidade o argumento de que é impossível deixar de comer e imprescindível manter a silhueta. Até mesmo para quem não necessitava, como foi o caso de uma senhora, ao afirmar (absurdamente, avaliei eu) ter engordado vinte quilos a fim de fazer a cirurgia. Puxando-lhe a língua, já que não agüentei de curiosidade, descobri, que, ela, na verdade, queria era fazer uma plástica na barriga e nos seios e tinha receio de engordar depois de tanto gasto com a estética. A senhora que citei ter conhecido na chegada, falando sobre o tormento de uma cirurgia, ponderou que todo o sofrimento e as dores são menores que o desespero de não encontrar em nenhuma loja uma roupa para se usar. Ela estava aguardando sarar o corte da vesícula para depois abrir outro no estômago. Uma terceira, senhora, disse que estava fazendo a preparação para se operar apenas para ser solidária ao filho de 20 anos, que já havia sido submetido à incisão na esperança de perder um pouco de seus 146 quilos. Coisas de mãe, imagino. Duas delas reclamaram não suportar tomar água no período de recuperação, mas que refrigerante, doce e outras perigosas delícias não lhes causavam incômodo algum, demonstrando como a vaidade está acima de qualquer preocupação com o bem estar físico e emocional.

Pelo que sei, a intenção do médico que criou esse procedimento, era aliviar o sofrimento das pessoas portadoras de obesidade mórbida, aquela, com origens e desenvolvimento fora do controle humano. O que não era o caso de nenhuma das pessoas lá presentes. Todas gordinhas sim, mas não a ponto de trocarem um sacrificiozinho alimentar e ginástico por uma agressão tamanha ao o corpo.

Agora explico o andar que citei. Ao sairmos da consulta, o elevador parou no 9º andar e entrou uma moça. Estávamos eu e minha mulher fazendo comentários sobre o ocorrido e creio que despertamos a curiosidade dela. Ao chegarmos ao térreo, a mesma não se conteve e nos disse: - Olha, eu trabalho aqui no prédio e, quando a gente vê no elevador alguma pessoa mais gorda e indecisa quanto ao andar, já vamos logo apertando o botão do 12º para ela.

PS: Ao Dr. Ney Franco Júnior, obrigado pelo auxílio luxuoso do bisturi.

quarta-feira, 5 de março de 2008

CENAS DE UM SONHO

O povo está nas ruas, a partir de hoje

Todo o mal à humanidade finda aqui e agora

Toda a corrupção está extinta

Saúde é bem inato, não se adquire

Educação é direito inegociável, não sujeita a engodo e lucro

Todos os pães são para todos

Todas as florestas têm vida própria, altiva e respirável

E todo o público tem dono. Todo o público é de todos, não de ninguém ou de poucos

O povo está nas ruas, a partir de hoje.


Igualdade não é possibilidade ou esperança, é fato

As águas cumprirão seu ciclo. Rolar, sublimar e recair na terra e no mar

Todo cão, todo gato são tão somente animais de estimação,

Com devido amor e respeito, mas não são gente

Marginal será toda a sociedade se gerar algum

Por fome, descaso ou descuido

Armado no dicionário significará tão somente “montado”

E que a munição serão as peças do objeto armado

A partir de hoje, o povo está nas ruas.


O ir e vir estão garantidos sem medo. Dia, tarde, noite, madrugada adentro

O pecado não está perdoado, mas abolido, pela intenção do bom gesto

Foi criado o controle remoto inteligente para tevê

O nascido terá berço em toda a sua plenitude

Pobreza é ficção, a não ser a de espírito

Os monóxidos, dióxidos e outras pestes pulmonares

Darão lugar às azaléias, bromélias, ipês e jasmins e seus olores

A música terá significado e as letras, sonoridade

O povo está nas ruas, a partir de hoje.


Todos os bancos respeitam os clientes

Nos quesitos, juros, horários e funcionários

Mas, o dinheiro acabou da forma como é

Fica decretado o direito de tê-lo plantado

Não em latifúndio (que é isso?)

Mas no quintal ou jardim sem muros

Os muros e cercas caíram de vergonha

A tevê, o radio, o jornal e toda a comunicação

Não tem mais dono único, e a imprensa agora é livre

A partir de hoje, povo está nas ruas


A felicidade está disponível a todos e incondicionalmente

O perdão passará de hora em hora em frente a todos os lugares

O território principal das crianças é a rua.

Carros e outras maquinarias estão em segundo plano

Todas as conspirações serão a favor

A morte não se dará em vida

Só se morrerá mesmo de morte morrida

O povo é o presidente

E está nas ruas, a partir de hoje.

terça-feira, 4 de março de 2008

A TIRACOLO

O Brasil está crescendo, a economia vai de vento em popa, mas o povo continua pobre, desvalido, humilhado e ofendido por tantos e tantos séculos de sempre o mesmo. Aos amigos do poder e do dinheiro, tudo, aos e inimigos e ao povo em geral e lei e as bolsas com o que estiver sobrando. Ou com alguns anéis para garantir os dedos dos donos. E já que a moda governativa é impressionar com números, cifras e pouco planejamento e visão abrangente e futura, vou aproveitar a onda e sugerir ao governo o lançamento de mais algumas bolsas que possam mitigar tantas mazelas sociais e psicológicas. Isso porque acabo de ler na imprensa que foi lançado no Rio de Janeiro uma nova modalidade: a bolsa-formação-policial em que a polícia militar, bombeiros, policia civil, carcereiros e afins vão receber uma verba para se para qualificarem melhor e diminuir a criminalidade.

Junto à bolsa família, bolsa educação, bolsa gás, bolsa remédio, bolsa isso, bolsa aquilo, acrescentemos, a tira-colo,

- A primeira tem de ser a bolsa apaga incêndio. Que não será de uso exclusivo do corpo de bombeiros, mas dos corpos de bombeiros, ou seja, naquilo em que todos nós nos transformaremos para ajudar a administrar essas políticas do tipo “tapa-buraco”,” cala-a-boca”,” pensemos no aqui e agora” ou,” o futuro a Deus pertence”.

- A bolsa anti-especulação financeira a ser paga pelos “mercados”. Deverá vir acompanhada de lupas e câmeras para os bolsistas procurarem esses agentes invisíveis, mas muito ricos. E conterá uma advertência. Proibido fazer retirada de seus recursos para pagamentos de juros de dívidas públicas e não poderá se contingenciar recursos para manter esse tal de superávit fiscal, que é o mesmo que um adulto malvado tirar o doce de uma criança prestes a ficar feliz por comer.

- A bolsa geradora, estabilizadora de empregos e diminuidora de jornada de trabalho, acompanhada de cartilha de argumentos de defesa anti-mídia (defensora dos privilégios dos donos do dinheiro). Quando ouvir ou vir na televisão ou outro meio de comunicação dizendo que isso inviabiliza o país, é só abrir na página tal e ler o artigo tal que diz o seguinte; “o que inviabiliza o país é a ganância e a sede do lucro como únicas metas possíveis para o desenvolvimento.”

- A bolsa peroba, que vem com milhares de mudinhas daquela árvore que faz brilhar qualquer cara de pau, que todo mundo sabe muito bem onde encontrar. Tem que se fazer um ato solene, porém público para entregar ao agraciado, ensinando como se obter o óleo e passar na cara para sair bonito na fita ou na foto. Ideal para ser usada nas Câmaras, assembléias, prefeituras, governos estaduais, senado, justiça, imprensa, partidos, clubes e congêneres e afins e outros tantos lugares e situações mais.

- E, finalmente, a grande e, redentora estrela: a bolsa corporativa – crédito aberto e saques à vontade para todas as necessidades de todos os cidadãos. Essa ia derrubar de vez a oposição e acabar com qualquer possibilidade de CPI. Detalhe: deverá ser de plástico transparente para ninguém precisar suspeitar de ninguém.

segunda-feira, 3 de março de 2008

AVÔ

NÃO QUE EU JÁ QUEIRA ME TORNAR AVÔ AGORA, APESAR DE JÁ ESTAR APTO PARA TAL. APTO NÃO NO SENTIDO DE QUALIFICADO - ISSO A GENTE SÓ FICA DEPOIS DE FAZER MUITAS TRAPALHADAS COM OS NETOS -, MAS POR CAUSA DA IDADE DE MINHA FILHA MAIS VELHA, QUE, INCLUSIVE VAI SE CASAR EM BREVE. MAS É BOM JÁ IR ADIANTANDO AS FUNÇÕES DOS AVÓS PARA NÃO TER PROBLEMAS FUTUROS COM GENROS E NORAS. É QUE AOS OLHOS DOS NETOS E PELOS COMPORTAMENTOS DE CERTOS PROGENITORES, O AVÔ (NO MASCULINO, AQUI NO MEU CASO) É UMA ESPÉCIE DE BRINQUEDO COM VIDA PRÓPRIA. DAÍ O ENCANTO MAIOR DA PROLE COM ELE. DIZ UM VELHO E SURRADO DITADO QUE OS PAIS SÃO PARA EDUCAR E OS AVÓS PARA AVACALHAR (NÃO NESSA MESMA ORDEM, NECESSARIAMENTE) MAS FUNCIONA MAIS OU MENOS ASSIM.

É UM RETORNO À INFÂNCIA JÁ TÃO DISTANTE E TÃO PRÓXIMA. E AO MESMO TEMPO UMA TROCA DE APRENDIZADOS. ALÉM DA POSSIBILIDADE DE DAR UMA ESPETADINHA NO FILHO OU FILHA (NO CASO, OS PAIS DO REBENTO). QUANDO ELES RECLAMAREM DO DESENCAMINHAMENTO QUE O AVÔ FAZ, A RESPOSTA JÁ ESTÁ PRONTA:

- ISSO É PARA VER O QUE EU PASSEI QUANDO VOCÊ ERA CRIANÇA.

É UM TAL DE DAR COMIDA QUE OS PAIS PROÍBEM, DE SAIR PARA PASSEAR COM O VÔ E VOLTAR LAMBUZADO ATÉ OS CABELOS DE TERRA, BARRO OU MELADO. DE SER ESTIMULADO A FAZER AS MAIS DESAFIADORAS ARTES, ATÉ OS PAIS TORCEREM O NARIZ COM AQUELA VONTADE DE CENSURAR, MAS O NETO SEMPRE ACABA VIRANDO O PROTETOR E COMPARSA DO AVÔ.

DIA DESSES OUVI NUMA RÁDIO ATÉ UMA PROPAGANDA DE UMA FUNERÁRIA EM QUE O NETO ENSINA O AVÔ A ANDAR DE BICICLETA, QUE TERMINA ASSIM: “OLHA A VIDA TE ENSINADO DE NOVO.” NÃO SEI SE É CRIATIVIDADE OU INTENCIONAL. MAS, SE O APRENDIZADO NÃO DER CERTO, É SÓ A FAMÍLIA LIGAR PARA SE TER UM ENTERRO DE PRIMEIRA.

Para alguns que não se dão com a nora ou o genro, o ATAVISMO funciona como uma espécie de VINGANÇA. DAÍ NÃO É RARO OUVIRMOS DE MÃEs ou pais esbravejarem COM OS FILHOS quando esteS aprontam alguma ESTRIPULIA: “este aí saiu igual ao avô.” MEU PAI MESMO CARREGA ESSA FAMA. AVÔ DE DUAS DA MINHA PROLE MAIS DEZOITO DOS OUTROS IRMÃOS, ALÉM DE BISA DE MAIS QUATRO SOBRINHOS (É..., JÁ ESTOU NO TREINAMENTO, SOU TIO-AVÔ!). E TEM AINDA MAIS UM PUNHADO QUE O ELEGERAM AVÔ PELO SEU CARINHO E CARISMA.

domingo, 2 de março de 2008

CARTÃO

QUANDO OUVIMOS FALAR DE DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO, CRESCIMENTO E OUTRAS NOTÍCIAS QUE TODOS GOSTAM DE VER E OUVIR , IMAGINAMOS LOGO TODA UMA REDE PARALELA E ACESSÓRIA QUE OS ACOMPANHAM NA SOCIEDADE. NA ÁREA DA SAÚDE, DA EDUCAÇÃO, DOS SERVIÇOS BÁSICOS ESSENCIAIS À POPULAÇÃO E POR AÍ AFORA. MAS NÃO É BEM ASSIM. A PRESSA EM NÃO PERDER OPORTUNIDADE DE LUCRAR AQUI E AGORA COSTUMA FAZER OS AFLITOS PELO DINHEIRO DESPENCAREM DE SUA GANÂNCIA COM A MESMA VELOCIDADE QUE SUBIRAM NO TOPO DA PIRÂMIDE FINANCEIRA. O DESPREPARO É UMA DAS PRINCIPAIS CAUSAS DA PÉSSIMA QUALIDADE DOS SERVIÇOS PARTICULARES PRESTADOS DO MESMO MODO QUE A FALTA DE INVESTIMENTOS PÚBLICOS REFLETE NA MÁ FORMAÇÃO, EDUCAÇÃO E VIDA SAUDÁVEL DO POVO EM GERAL.

POIS BEM, O QUE ME ACONTECEU, SE NÃO FOSSE RELATADO PODERIA IR PARA A GALERIA DAS PIADAS OU “CAUSOS” QUE ACABAM ENTRANDO PARA O ANEDOTÁRIO.

ESTAVA NUM SUPERMERCADO AQUI DE BELO HORIZONTE E FUI ABORDADO POR UM CARTAZ EM QUE SE OFERECIA CARTÃO DE CRÉDITO (DO PRÓPRIO SUPERMERCADO) PARA FACILITAR AS COMPRAS, GANHAR PRAZO DE PAGAMENTO SEM ACRÉSCIMOS E, O QUE MAIS ME ATRAIU: PODER FAZÊ-LO SEM QUALQUER TAXA, ANUIDADE OU DESPESAS ADICIONAIS. NÃO PERDI TEMPO E FUI LOGO PREENCHENDO O CADASTRO EM CUJOS TERMOS PROMETIAM ENTREGAR EM DOMICÍLIO O CARTÃO DAÍ A ALGUNS DIAS. ASSIM FOI FEITO, ASSIM FOI CUMPRIDO. CHEGOU ATÉ MESMO ANTES DO PRAZO FINAL ESTABELECIDO. NO ENVELOPE DO CARTÃO VEIO JUNTO UM CONTRATO E EU, COM ESSA MINHA TERRÍVEL MANIA DE LER AS COISAS, DESCOBRI QUE, SE USASSE O TAL CARTÃO, TERIA DE ME SUJEITAR À ANUIDADE, TAXAS DE SERVIÇO, TAXA DE BOLETO, TAXA DE NÃO UTILIZAÇÃO POR MAIS DE SEIS MESES, ETC, TAXA, ETC, TAXA...

VOLTEI LÁ E, ATENDIDO PELA MESMA FUNCIONÁRIA QUE ME VENDERA O “PRESENTE DE GREGO”, COMENTEI DA PROPAGANDA ENGANOSA QUE ME HAVIAM FEITO E QUE NÃO IRIA DESBLOQUEAR O CARTÃO PARA O USO, ESSAS COISAS DITAS NO MOMENTO DA INDIGNAÇÃO. DIÁLOGO, COM GERÚNDIO, TRAVADO A SEGUIR (SENÃO, NÃO VALE):

- POIS NÃO, SENHOR, EM QUE EU PODERIA ESTAR AJUDANDO? EXPLIQUEI O FATO E ELA DESCONCERTADA, ME DISSE - O SENHOR VAI TER QUE ESTAR LIGANDO PARA O 4004-1011, QUE É DA ADMINISTRADORA DO CARTÃO PARA ESTAR RESOLVENDO ESSE PROBLEMA. EU DISSE QUE TUDO BEM E REPETI PARA ELA O NÚMERO COMO SEMPRE FAZEMOS NESSAS OCASIÕES, NEM QUE SEJA SÓ PARA ESTENDER O PAPO. – É 4004, MIL E ONZE, NÉ?

- NÃO, SENHOR, É 4004, DEZ ONZE.

- POIS, ENTÃO, MIL E ONZE.

TODA DIDÁTICA, ELA ENSINAVA:

- SENHOR, É COMO MIL, ESCRITO AO CONTRARIO. RETRUQUEI LOGO:

-AÍ É MIL E UM. ELA ME OLHOU MAIS DETIDAMENTE, COM AQUELE JEITÃO DO TIPO: “AI, MEU DEUS, COMO TEM GENTE IGNORANTE...!” E REPETIU ENFÁTICA: - O SENHOR TEM QUE DISCAR QUATRO MIL E QUATRO DEZ ONZE. INCONFORMADO COM TAL CONFUSÃO E NÃO ACREDITANDO NA FALTA DE INTIMIDADE DELA COM OS NÚMEROS, DESAFIEI:

- POR FAVOR, ESCREVA AÍ PARA EU VER, O NÚMERO MIL E ONZE. MAIS ATRAPALHADA AINDA, TRATOU LOGO DE DAR POR ENCERRADA A CONVERSA, NUM GERÚNDIO DE DOER AINDA MAIS OS OUVIDOS:

- OLHE, SE O SENHOR NÃO ESTAR DISCANDO DEZ ONZE, NÃO VAI DAR CERTO.

DESISTI E SAÍ AGRADECIDO E RAPIDAMENTE PARA NÃO GARGALHAR ALI EM MEIO À FILA QUE JÁ SE FORMAVA ATRÁS DE MIM, ATÉ MESMO PARA QUE A MENINA NÃO SE SENTISSE OFENDIDA. SERÁ QUE IRIA ESTAR SENTINDO?

E O CARTÃO CONTINUA GUARDADO.

sábado, 1 de março de 2008

O FUTURO DO CAFEZINHO


Acordei várias vezes durante a noite passada com uma enorme vontade de tomar um café. Creio que é psicológico, somático, sei lá, por estar com restrição em função da fase de recuperação de duas cirurgias que fiz esta semana. Dizem que provoca muitos gases e pode fazer doer os pontos. Mas tomei assim mesmo. Logo que levantei. Enquanto saboreava fiquei pensando sobre a importância dele em nossas vidas. Se não é importância, pelo menos a presença. Presença física, cheirosa, doce, amarga, quente ou fria. Atualmente, até combinada com outros sabores diversos aos costumes do nosso paladar. Mas firme e intocável. Intocável? Pois é disso que quero falar.

É muito difícil imaginar o dia-a-dia sem que o cafezinho tenha seu momento de companhia. Seja ao acordar, como fiz hoje, seja ao passar em frente a uma lanchonete ou padaria, seja em um encontro - formal ou não, para curar ressaca de quem preferiu o álcool ao café no tal encontro - formal ou não, em eventos de qualquer natureza.

É tão marcante sua presença nas mesas e xícaras dos brasileiros, que mesmo modismos americanizados até conseguiram mudar seu nome, mas não suas funções: Integrar pessoas e ao mesmo tempo, marcar um paladar típicamente brasileiro. Sobre o modismo, lembro de um caso engraçado em que fazia um curso de qualificação na empresa onde trabalhava e o instrutor, na abertura, distribuiu um folheto com a programação dos dias do curso. Entre atividades, almoço e encerramento havia um coffee-break pela manhã e outro à tarde, durante todos os dias do treinamento. Depois de todos lerem e guardarem junto ao restante do material, um colega levantou-se e soltou a pergunta: “Espera aí, mestre, nesses dias todos não vamos ter nenhum intervalo para um cafezinho?”

O café para mim é o produto mais brasileiro no sentido de identidade nacional. Do Oiapoque ao Chuí, com bombacha ou jerico, chimarrão, cachaça, suco, feijoada, pizza, umbu ou graviola, nada dá mais identidade brasileira que o café. Até para designar encontros, reuniões ou para expressar a hospitalidade, a referência é sempre o indefectível cafezinho.

Porém acredito que essa identidade está correndo sério risco a médio e longo prazo. Por motivos vários, o glorioso, imbatível e insubstituível café está deixando de fazer parte dessas coisas todas de que falei. Mansa e silenciosamente.

Como todos somos de tudo um pouquinho, vai aqui o resultado de meu lado pesquisador e estatístico. Sou de família de nove irmãos, cada qual com média de 2 filhos. Dos nossos filhos e sobrinhos, nem a metade toma café regularmente. Alguns nunca e outros sequer conhecem o sabor. Assim, conversando com outras pessoas, também pude constatar que a tradição não vem sendo mantida e isso é preocupante. Economicamente não é tão problemático, pois sua ausência pode ser compensada por outra produção. O negócio é saber se vai garantir a identidade. Isso sim, me preocupa, num mundo cada vez mais despreocupado com esses elos tão caros aos seres humanos, apesar de parecerem insignificantes. Reúna a qualquer hora amigos, colegas de trabalho ou familiares (em torno de um cafezinho, claro) e pesquise se não é fato.

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

HOJE É UM DIA DE VERDADE?

O DIA 29 DE FEVEREIRO É DE VERDADE OU UMA INVENÇÃO HUMANA? O TAL ANO BISSEXTO, QUE DEVERIA SE CHAMAR BIQUARTO, DADA A SUA EXISTÊNCIA A CADA QUATRO ANOS, PARECE FICÇÃO, MAS ESTÁ AÍ. AMANHECEU 29, LINDO POR SINAL. PELO MENOS AQUI NO SUDESTE DO BRASIL E VAI CUMPRIR SUA SINA INEXORAVELMENTE. Com sol aqui, chuva acolá, frio mais além, COMO FAZ A CADA QUATRO ANOS, DESDE QUE O HOMEM, PARA ADAPTAR O CALENDÁRIO ROMANO AOS MOVIMENTOS DA TERRA PERANTE O MAJESTOSO SOL, INSTITUIU QUE FEVEREIRO, A CADA QUATRO ANOS SERIA ASSIM. TENHAMOS MAIS OU MENOS DÍVIDAS PARA PAGAR. TEMOS SETE mESES COM 31 DIAS E APENAS QUATRO COM 30, O QUE JÁ É UMA COVARDIA DO TEMPO COM A IGUALDADE DOS MESES E COM OS QUE VIVEM ÀS CUSTAS DAS VENDAS DE SUAS HORAS DE TRABALHO.

PODEM CONSULTAR NOS DICIONÁRIOS E COMPÊNDIOS DE CIÊNCIAS AS EXPLICAÇÕES ASTRONÔMICAS PORQUE NÃO VOU FAZÊ-LAS AQUI. APENAS DIREI DO INCÔMODO E AO MESMO TEMPO DO ENCANTO DE TER CONVIVIDO JÁ COM MUITOS ANOS BISSEXTOS. QUANDO CRIANÇA, A CURIOSIDADE MAIOR ERA COM O SEU ABEL, LÁ DE MINHA ITABIRA, DONO DA ÚNICA VENDA DE JORNAL E REVISTAS DA CIDADE, QUE (DIZIAM) FAZIA ANIVERSÁRIO NESSE DIA. OS POUCOS CABELOS QUE LHE RESTAVAM, ERAM BRANCOS E, AO MESMO TEMPO, TINHA A IDADE DE UM JOVEM. PARA MIM ELE SÓ PODIA CONTAR ANOS NESSE DIA, PORTANTO, TINHA 4 A MENOS QUE OS SEUS COMTEMPORÂNEOS. LOGO, COMO PODERIA ENVELHECER IGUAL AOS OUTROS MORTAIS?

MAIS ADIANTE NOS ESTUDOS VINHA A TAL EXPLICAÇÃO CIENTÍFICA ( MAL DADA), DE COMO FUNCIONAVA O ENCAIXE DO DIA, SEM CONVENCER, CLARO, JÁ QUE A UMA CRIANÇA E, ÀS VEZES ATÉ A UM ADULTO MESMO, SE NÃO DER PARA SE APALPAR A EXPLICAÇÃO ELA CAI NO DESCRÉDITO.

AO ASSUMIR CERTAS RESPONSABILIDADES QUE A VIDA IMPÕE, VEM A TRISTEZA DE UM DIA A MAIS NAS CONTAS. ÁGUA, LUZ, TELEFONE... E UM DIA A SE ESPERAR A MAIS PARA O PRÓXIMO SALÁRIO.

PORTANTO, nenhum PONTO A FAVOR ATÉ AGORA PARA ESSE INTRUSO. ÀS VEZES AS DEFINIÇÕES QUE DAMOS PARA O CORRER DA VIDA VARIAM DE ACORDO COM O LUGAR DE ONDE OLHAMOS AS COISAS ANTES DEFINÍ-LAS. POR EXEMPLO, EU PODERIA DIZER QUE, PELO MENOS A CADA QUATRO ANOS, TENHO UM DIA A MAIS PARA ENVELHECER MENOS. NO OLHAR DE ALGUÉM MAIS JOVEM, JÁ ME DISSERAM AQUI, QUE É UM DIA A MAIS QUE TEM DE SER VENCIDO PARA SE CHEGAR “LÁ”. (AONDE, NÃO ME PERGUNTEM). E PARA TERMINAR, UMA DEFINIÇÃO DO DICIONÁRIO DIZ QUE BISSEXTO É PARA DESIGNAR AQUELES QUE POUCO PRODUZEM. NO CASO DOS POETAS, TEM QUE SE FAZER UMA COLETÂNEA PARA SE CHEGAR A UMA OBRA COMPLETA. DE QUATRO EM QUATRO ANOS.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

MORRER EM UM BLOCO CIRÚRGICO.

SE FOR NUM BLOCO CIRÚRGICO...

Dei uma pausa de uns dias por causa de duas cirurgias simultâneas de hérnia que vinham me incomodando há tempos e aproveitei que meu pai ia ser operado também de uma tendinite no ombro e marquei no mesmo dia e mesmo hospital que ele para um fazer companhia ao outro. Pelo menos em intenção.

Uma cirurgia programada oferece a oportunidade de observar detalhes e experimentar sensações que as emergências só permitem aos aflitos acompanhantes do debilitado pela necessidade da incisão, ocasionada por um acidente ou uma súbita ou ainda agravada doença. Por exemplo: o bloco cirúrgico. A gente já chega à porta com a sensação de ser a última porta que vamos ver em vida. Passando-se lá para dentro, passará desta para melhor. Só pelas fisionomias na ante-sala das cirurgias, tem-se uma noção de que a coisa vai ser feia mesmo. Os olhares de pavor, os ouvidos atentos a cada comentário do paciente do lado para sentir se o problema do outro é pior que o seu, se suas chances são maiores, que você há de voltar lá de dentro e rever os outros já operados e sorrindo de alívio, etc.

Passada a porta dos desesperados, a sensação é outra. Ou outras. A primeira é a de ter descido um andar. Não sei se é pela proximidade com o teto, mas parece que literalmente fomos para o andar de baixo. Depois, para quem gosta da fama, os holofotes. As luzes todas do ambiente são direcionadas para o paciente, que, se consciente estiver, sente-se a verdadeira celebridade hospitalar. Depois, vem o alívio efêmero provocado pelas brincadeiras dos médicos, enfermeiros e auxiliares. Todos querendo criar “um clima” ou não querendo deixar “um clima”, fazem piadinhas, perguntas sobre a vida, comentários superficiais para dar a sensação de que nada diferente está acontecendo ou para acontecer. Esta última, pelo menos em mim, gerou o sentimento de que morrer no bloco cirúrgico – de cirurgia programada, que fique bem claro -, é algo sem dor e deixa o morrido com um largo sorriso, de tão agradável a tentativa de nos elevar o astral baixo pelo medo do corte do bisturi. Assim, dormi antes mesmo de terminar a anestesia e acordei ante um falatório geral no momento em que me costuravam as partes incisadas. Parecia que tinha chegado ao paraíso.

Já cortado, reparado e costurado, aqui estou de volta, esperando secar.

domingo, 24 de fevereiro de 2008

"O CACHORRRO É UM SER HUMANO COMO QUALQUER OUTRO"

Há alguns anos, no governo do Collor, havia um ministro do trabalho de nome Rogério Magri, figura patética (senão cômica) do movimento sindical, que virou ministro para ajudar ao “caçador de marajás”??? a collorir sua gestão com popularidade. Ele, por falta de recursos lingüísticos ou por querer deixar alguma marca na história, era dado a neologismos (criar palavras ou expressões que não constam no vocabulário oficial ou formal). É dele a terrível criação do eu sou “IMEXÍVEL” (disse em uma entrevista quando questionado sobre a sua possível demissão do ministério). Mas deixemos esse episódio para outra ocasião. Aqui vamos tratar de outra peripécia sua para falar sobre título acima. Certa vez, um carro do ministério foi flagrado na porta de uma clínica veterinária com motorista, funcionário do ministério e um cachorro pastor alemão que fora a uma consulta de rotina. Ao escândalo da divulgação, a excelência respondeu: “Qual o espanto? O cachorro é um ser humano como qualquer outro!” (sic).

Na sua sandice, acho hoje que acabou profetizando um fenômeno: dos tempos de isolamento de todas as relações coletivas do ser humano, das disputas por um lugar ao sol, por espaço na competição desenfreada e destrambelhada que o tal “mercado” impõe, onde o outro é um potencial oponente em tudo. Em casa, no trabalho, na escola, enfim, para ser uma pessoa de sucesso, devemos afastar todos os que se postarem em nosso caminho rumo à glória. (???). Esse comportamento anti-social, egocêntrico e individualista tem se materializado na preferência que as pessoas têm dado aos cachorros. Não quero aqui desfazer nem prescindir da companhia deles (eu mesmo tenho uma vira-lata muito "gente boa”). Mas está se tornando absurdamente insuportável a humanização dos cachorros e a cachorrização das gentes (eu também sei fazer neologismos). Só falta curso de línguas. Já temos hotéis, restaurantes, spas, academias e até psicólogos para cães. Bons tempos em que a convivência era inteira (incluindo as gentes e os cachorros). Não devemos nos espantar se, em breve, virmos anúncios de babás para ficarem com eles em nossas ausências do lar, se forem criados parques de diversões nos bares para eles enquanto seus donos tomam umas e outras (já tem até para crianças!), se no cinema e no teatro, criarem salas paralelas com espetáculos exclusivos para cachorros enquanto assistimos aos nossos e ainda, se forem de donos ricos e famosos, passarem a contar não com um guarda costas, mas um guarda cachorros em seus deslocamentos. Quem sobreviver a um pit bull cujo dono deixa à solta aterrorizando os humanos, verá.

P.S.: Já houve quem radicalizou e, do alto de sua 5ª dose proferiu a célebre frase: “O melhor amigo do homem é o uísque. O uísque é o cachorro engarrafado.” (Vinicius de Moraes).

sábado, 23 de fevereiro de 2008

ENTRE O VOCÊ E O SENHOR

Estou custando a me acostumar com a passagem do VOCÊ para o SENHOR. Em quase todos os lugares em que chego sou tratado agora pelo pronome Senhor. Tudo bem, sinal de que os mais jovens conservam a tradição do respeito aos mais velhos, mas... pera aí, não me acostumei com isso ainda. Sempre que me acontece, chego em casa e olho no espelho procurando essa feição que ainda não me dei. As rugas sequer aparecem, o andar ainda é firme e os cabelos agorinha é que estão ganhando umas mechas brancas. Nem adianta aquelas clássicas respostas “senhor é seu pai” ou “ Senhor está no céu”, já que as minhas próprias filhas (tenho duas) já me tratam assim. Deveria haver um período detransição para a gente ir se acostumando aos poucos. Do tipo rito de passagem, assim como acontece com as meninas aos 15 anos, debutantes para a vida. Poderia ser anunciado na legislação: ART. 40: A partir dos 40 anos, fica estabelecido que todos são senhores e senhoras perante a lei, sem nehuma distinção, de cor, credo e semblante. Revogam-se todos os vocês em contrário.

QUAL É A SUA?

QUAL É A SUA?

Há momentos em que dá uma vontade de expressar alguma opinião ou falar de coisas que nos angustiam e até mesmo que nos alegram ou aborrecem! Às vezes nos faltam palavras ou oportunidade ou ainda vontade. De repente, nos deparamos com algo que alguém fez por nós. Ocorre de fazê-lo com tanta maestria que dá até uma pontada de inveja, do tipo: “puxa vida, por que não escrevi isso antes? É exatamente o que eu sinto”. Foi o que me ocorreu dia desses, com um magnífico poema de Carlos Drumond de Andrade, que encontrei numa página de jornal, falando sobre nós como massa de consumo fácil, imediato e sem significância humana, no sentido mais doído por estar num poema e não numa matéria opinativa ou resenha ou dissertação de alguém desabafando nalguma publicação. Vejam só se não é essa a sensação que sentimos de falta de essência nossa e falta do outro, de relações mais sabidas e menos tidas:

EU ETIQUETA

Em minha calça está grudado um nome

Que não é meu de batismo ou de cartório

Um nome... estranho.

Meu blusão traz lembrete de bebida

Que jamais pus na boca, nessa vida,

Em minha camiseta, a marca de cigarro

Que não fumo, até hoje não fumei.

Minhas meias falam de produtos

Que nunca experimentei

Mas são comunicados a meus pés.

Meu tênis é proclama colorido

De alguma coisa não provada

Por este provador de longa idade.

Meu lenço, meu relógio, meu chaveiro,

Minha gravata e cinto e escova e pente,

Meu copo, minha xícara,

Minha toalha de banho e sabonete,

Meu isso, meu aquilo.

Desde a cabeça ao bico dos sapatos,

São mensagens,

Letras falantes,

Gritos visuais,

Ordens de uso, abuso, reincidências.

Costume, hábito, permência,

Indispensabilidade,

E fazem de mim homem-anúncio itinerante,

Escravo da matéria anunciada.

Estou, estou na moda.

É duro andar na moda, ainda que a moda

Seja negar minha identidade,

Trocá-la por mil, açambarcando

Todas as marcas registradas,

Todos os logotipos do mercado.

Com que inocência demito-me de ser

Eu que antes era e me sabia

Tão diverso de outros, tão mim mesmo,

Ser pensante sentinte e solitário

Com outros seres diversos e conscientes

De sua humana, invencível condição.

Agora sou anúncio

Ora vulgar ora bizarro.

Em língua nacional ou em qualquer língua

(Qualquer principalmente.)

E nisto me comparo, tiro glória

De minha anulação.

Não sou - vê lá - anúncio contratado.

Eu é que mimosamente pago

Para anunciar, para vender

Em bares festas praias pérgulas piscinas,

E bem à vista exibo esta etiqueta

Global no corpo que desiste

De ser veste e sandália de uma essência

Tão viva, independente,

Que moda ou suborno algum a compromete.

Onde terei jogado fora

Meu gosto e capacidade de escolher,

Minhas idiossincrasias tão pessoais,

Tão minhas que no rosto se espelhavam

E cada gesto, cada olhar

Cada vinco da roupa

Sou gravado de forma universal,

Saio da estamparia, não de casa,

Da vitrine me tiram, recolocam,

Objeto pulsante mas objeto

Que se oferece como signo dos outros

Objetos estáticos, tarifados.

Por me ostentar assim, tão orgulhoso

De ser não eu, mas artigo industrial,

Peço que meu nome retifiquem.

Já não me convém o título de homem.

Meu nome novo é Coisa.

Eu sou a Coisa, coisamente.

Carlos Drummond de Andrade.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Estreia

Estou iniciando nesse mundo hoje para compartilhar, sensações, pensamentos, impressões e opiniões a respeito da vida e do mundo e , especialmente conhecer pessoas e trocar ideias. seja bem vindo(A), fale à vontade e... vamo lá, uai!
Web Statistics