terça-feira, 20 de julho de 2010

FILHOS, FILHOS...

Era muito comum ver nas casas das cidades do interior um quadro inusitado na parece. Um pensamento poético em molduras de diferentes tipos. Eu, menino de pouca idade, mas já alfabetizado me encantava com as palavras e me assustava um pouco com o apelo que elas traziam (imaginava) para os pais.. Começava assim: “ vossos filhos não são vossos filhos. São filhos da ânsia da vida por si mesma...” Mal sabia eu que as proles daquele tempo tinham que, em algum momento, desgrudar-se das asas protetoras de seus ninhos e irem buscar um sonho ou , no mínimo uma forma de ajudarem a construir o que os pais iniciaram. Era, ao mesmo tempo um desapego consolado que os pais encontravam naquelas palavras e uma espécie de aviso aos filhos:



“Olhem, meus filhos, leiam tanto quanto puderem esses ensinamentos e, chegada a idade certa, busquem seus caminhos que nós daqui continuaremos velando por vocês; amor não lhes faltará, mas a continuidade de criação se dará por conta própria.”



Não sei se tinha esta lógica racionalizada. Sei é que me alterou para sempre.



Gibran Khalil Gibran escreveu um texto/poema que para a minha infância e depois adolescência, foi uma coisa que deixou uma marca, a princípio incompreendida. Só viria a entender o motivo muito mais tarde. Agora, nesses tempos quem que a filharada anda cada vez mais grudada nos pais ou sem muita perspectiva de buscar uma independência, com medo da rua, do trabalho e da vida, eu reforço ainda mais o que sinto com relação ao significado que os pais têm na vida dos filhos e vice-versa.
Da minha infância para cá, no entanto, muita coisa mudou.



As famílias já não são tão numerosas;



Os pais não são mais tão repressores;



Os sonhos mudaram de rota: de idealismo abstrato, vontade de mudar o mundo, passamos para uma espécie de idealismo material, vontade de, literalmente, comprar o mundo. Para isso, basta apenas trabalhar e juntar dinheiro. Não sair da casa dos pais nesse aspecto é um motivo a mais de economizar;



A violência urbana ganhou contornos assustadores, o que aumentou o temor dos pais de soltarem seu filhos tão cedo na vida;



A desconfiança e a intolerância estão fazendo com que os filhos, mesmo depois de casados não se distanciem muito dos pais, afinal, em muitos casos, são eles que vão cuidar dos netos enquanto os pais garantem o sustento no trabalho. Quando a gente vê babás espancado crianças na TV, acho que isso assusta um pouco.



“Filhos, filhos,melhor não tê-los, mas se não os temos, como sabê-los?” já questionava o Vinícius de Moraes em outro poema que ela chamou com deliberado deboche metafórico de Poema Enjoadinho. No entanto, o mesmo Vinícius (se redimiria depois?) compôs O Filho que eu Quero ter, numa afirmação em que escancarou o desejo paternal.



O resumo dessa ópera toda é o permanente estado de inquietação que acomete a gente quando se para pra pensar o que é mesmo que estamos fazendo aqui no mundo além de viver o momento presente, esquecer o passado e não divagar sobre o futuro. Pelo menos comigo é assim, com todo o respeito com o que pensa cada um e suas particularidades.
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GIBRAN KHALIL GIBRAN

“Vossos filhos não são vossos filhos.

São os filhos e as filhas da ânsia da Vida por si mesma.

Vêm através de vós, mas não são de vós.

E embora convivam convosco, não vos pertencem.

Podeis outorgar-lhes o vosso amor, mas não vossos pensamentos,

Porque eles têm seus próprios pensamentos.

Podeis abrigar seus corpos, mas não suas almas;

Pois suas almas moram na mansão do amanhã, que vós não podeis visitar nem mesmo em sonho.

Podeis esforçar-vos por ser como eles, mas não procureis fazê-los como vós;

Porque a vida não anda para trás e não se demora com os dias passados.

Vós sois os arcos dos quais vossos filhos são arremessados como flechas vivas.

O Arqueiro mira o alvo na senda do infinito e vos estica com toda Sua força para que Suas flechas se projetem, rápidas para longe.

Que vosso encurvamento na mão do Arqueiro seja vossa alegria:

Pois assim como Ele ama a flecha que voa, também ama o arco que permanece estável.”

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POEMA ENJOADINHO
(Vinícius de Moraes)


Filhos... Filhos?

Melhor não tê-los!

Mas se não os temos

Como sabê-lo?

Se não os temos

Que de consulta

Quanto silêncio

Como os queremos!

Banho de mar

Diz que é um porrete...

Cônjuge voa

Transpõe o espaço

Engole água

Fica salgada

Se iodifica

Depois, que boa

Que morenaço

Que a esposa fica!

Resultado: filho.

E então começa

A aporrinhação:

Cocô está branco

Cocô está preto

Bebe amoníaco

Comeu botão.

Filhos? Filhos

Melhor não tê-los

Noites de insônia

Cãs prematuras

Prantos convulsos

Meu Deus, salvai-o!

Filhos são o demo

Melhor não tê-los...

Mas se não os temos

Como sabê-los?

Como saber

Que macieza

Nos seus cabelos

Que cheiro morno

Na sua carne
Que gosto doce
na sua boca!
Chupam gilete

Bebem shampoo

Ateiam fogo

No quarteirão

Porém, que coisa

Que coisa louca

Que coisa linda

Que os filhos são!

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O FILHO QUE EU QUERO TER
(Vinícius de Moraes)


É comum a gente sonhar, eu sei

Quando vem o entardecer

Pois eu também dei de sonhar

Um sonho lindo de morrer

Vejo um berço e nele eu me debruçar

Com o pranto a me correr

E assim, chorando, acalentar

O filho que eu quero ter

Dorme, meu pequenininho

Dorme que a noite já vem

Teu pai está muito sozinho

De tanto amor que ele tem

De repente o vejo se transformar

Num menino igual a mim

Que vem correndo me beijar

Quando eu chegar lá de onde vim

Um menino sempre a me perguntar

Um porquê que não tem fim

Um filho a quem só queira bem

E a quem só diga que sim

Dorme, menino levado

Dorme que a vida já vem

Teu pai está muito cansado

De tanta dor que ele tem

Quando a vida enfim me quiser levar

Pelo tanto que me deu

Sentir-lhe a barba me roçar

No derradeiro beijo seu

E ao sentir também sua mão vedar

Meu olhar dos olhos seus

Ouvir-lhe a voz a me embalar
Num acalanto de adeus

Dorme, meu pai, sem cuidado

Dorme que ao entardecer

Teu filho sonha acordado

Com o filho que ele quer ter

segunda-feira, 19 de julho de 2010

O SONO ROM

Os especialistas depois de seu último congresso internacional vêm nos acordar para nos deixar ligados nas novas descobertas que têm feito acerca do sono. A quantidade, a qualidade, as causas e os efeitos das boas e péssimas noites de nossa pausa para o corpo descansar. Descansar na nossa idéia, pois, segundo eles, a gente está, na verdade é com uma parte relaxando e outra continuando o seu trabalho de revitalização, realimentando as células e renovando o corpo e a mente para o dia seguinte. Entendi popularmente que é como dormir com um olho fechado e outro aberto, próprio das pessoas desconfiadas ou de rabo preso com algum mal feito. Xi! O mundo só deve dormir pela metade e olhe lá! Descobri que existem basicamente na ciência sonológica, os sonos REM e não-REM. O primeiro, profundo, relaxante, com a guarda totalmente aberta e o outro, o tal de não-REM, é o vigilante.
Entre eles, incluo o ROM, que é o ruído meu e de muita gente boa que costuma não deixar ninguém ter o seu REM e às vezes acordar-se com o próprio barulho do ROM, de tão alto. Tenho guardada até hoje comigo (nem sei para quê), uma fita cassete com a gravação de um ronco de um colega de quarto nos meus tempos de estagiário. Ele não acreditava que fosse possível emitir um urro tão leonino e eu não acreditava que iria ter que passar os próximos seis meses sem conseguir dormir. A casa só tinha um quarto e o chão da cozinha era gelado demais para colocar o meu colchão. O banheiro só me cabia em pé. Posição que não é lá muito agradável de se dormir. A gravação foi uma prova contra a sua descrença e uma vingança ao mesmo tempo, já que o esperava adormecer e ligava o toca-fitas. Ele acordava para me xingar que o barulho o estava incomodando. Não ficamos inimigos por isso. Passei a beber algo forte antes de deitar e aí um ronco passou a combater o outro. Assim dormíamos. Se bem ou mal, não sei até hoje, mas continuo roncando. Tive uma tia a quem admirava muito e, quando criança mais ainda, na hora em que ela dormia. A diversão em casa era ir ao quarto quando ela pegava no sono para curtirmos a sinfonia. Ela dava um assobio antes do gutural groaarrrrrr (vou ver se descubro uma onomatopéia melhor), essas dos quadrinhos (ronc, ronc, ronc,), não estão com nada em termos de representação de ruído de sono.
Consegui com os especialistas (ah! os especialistas, sempre eles) um alento para minha autopunição por gostar de dormir durante o dia. Sempre achei uma justificativa de que o hábito veio de anos trabalhando em regime de revezamento de turnos, não querendo nunca admitir que fosse preguiça mesmo e eles, de novo, dizem que há certa hereditariedade nos sucessos e transtornos do sono. Há dorminhocos e insones por culpa exclusiva de seus ancestrais. Quer ver meu pai dormindo? Coloque-o sentado em frente a uma televisão. Antes achava que dormia por enfado da programação. Mas não, dorme até em jogo do Flamengo, seu único time do coração. Se estiver em uma mesa ou numa roda qualquer e a conversa parar, não resiste a cinco minutos do silêncio. Não chega a roncar sentado, mas dorme com a boca aberta até os cantos das orelhas. Eu também já dormi até em cadeira de dentista, em túnel de tomografia e em mesa de bar. Nesse último caso houve ajuda externa ao metabolismo basal.
E, por último – palavra dos especialistas – a morte é igualmente inevitável para quem dorme mais ou menos. Não vive mais quem dorme muito e vice-versa. O que importa é a qualidade que o sono tem. Só ofereço o meu lamento a quem vive com um(a) companheiro(a) com sono ROM. Esses não dormem nem bem nem mal.

 

domingo, 18 de julho de 2010

T.O.C - T.O.C. - T.O.C.

Ultimamente tenho lavado muito as mãos. Se for habito higiênico por causa da cozinha que freqüento muito, ótimo; mas desconfio que seja mania mesmo. E tomara que sim, para não ter que admitir algum transtorno obsessivo compulsivo. Ansiedade, nem pensar, que eu não sou ansioso, eu não sou ansioso, eu não sou ansioso, óóó! É só passar próximo de alguma torneira, que tô eu ali, esfregando, enxaguando e enxugando. Na maioria das vezes elas mesmas me comandam. Nem adianta resistir; vão logo abrindo a torneira, ensaboando, e quando tento retomar o controle, fingem obedecer, pegam a toalha ou pano de prato, se enxugam e vão para os bolsos ou pegam algum objeto para ver se esqueço ou deixo pra lá T.O.C..
 Tem casos mais graves que o meu. Mania de limpeza, muita gente boa tem, como o seu contrário também, mas a pecha de mania só fica com a pessoa da limpeza. A sujeira é inclassificável nos tratados da psicologia. É simplesmente considerada caso de porcaria. Morei um período na cidade de Araxá, onde conheci a mãe de um colega de trabalho, uma dona de casa, que fazia três faxinas por dia e não era diarista, não. Era em sua própria casa. Às vezes julgava que havia terminado, mas não largava o pano. Ficava andando pelos cômodos verificando se alguma poeira havia chegado repentinamente para xingar e limpar, xingar e limpar, xingar e limpar. Tinha uma outra mãe, a de uma colega de escola de segundo grau, por quem eu era caído e que me levava sempre para almoçar em sua casa, condoída pela minha alimentação republicana – éramos vizinhos de prédio no centro de Belo Horizonte. Aquela se superava. Um dia a vi lavando as couves para serem preparadas, o que ela fazia três vezes com detergente e esponja, folha por folha. E ao meu espanto respondeu que a primeira era para retirar a sujeira de muitas mãos que as apalpavam na feira (as couves, viu?), a segunda era para eliminar agrotóxicos e a terceira era a normal, todo mundo tinha que lavar os alimentos antes de comer. TOC, TOC.
Para o meu caso das mãos achei um culpado, ou melhor, uma culpada: Tia Rosário. Presente em muitos momentos da vida familiar em nossa casa ou nós na dela, para saborear suas deliciosas comidas ou ela ajudar minha mãe nas grandes reuniões gastronômicas, tem duas peculiaridades e uma não é mania: os seus olhos de Midas para a feiúra humana. Todos os que ela vê, conhece ou revê após anos, especialmente se tiver algum parentesco, ficam lindos ou uma belezura como costuma expressar com a respiração aspirada. A outra sim, a que ela faz às louças, deve ser a que me ficou como herança nas mãos. Na hora do almoço, comia bem rápido, levantava-se da mesa e ficava andando em volta, vigiando se alguém havia terminado ou, impaciente, perguntava: “já acabou?”; para recolher o prato e os talheres e lavar imediatamente. T.O.C., T.O.C., T.O.C.

sábado, 17 de julho de 2010

POR UM AMOR DE VERDADE

Já dei tanta queixa,

Já fiz ocorrência;

De nada adianta, e assim se deixa

Não respeitam a minha urgência

Subverti as regras da trova

Para ser, sendo ou não poesia

Meu apelo uma onda nova

Da mais literária heresia

Até pedi à santa de Guadalupe

E andei por todos os lados

Pena que a polícia não se ocupe

Das dores de corações roubados.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

POR PARTE DE PAI

Vinha lá dos tempos de escola primária o ensinamento meio sociológico, meio religioso: “O núcleo básico da sociedade é a família.” O conceito de família vem mudando muito. A família de hoje é um laço de fitas multicoloridas. Não é tão mais pai e mãe juntos ou só um dos dois. Ou ainda um terceiro grupo. Afinidade tem contado tanto quanto o RH sanguíneo igual, seja positivo ou negativo. Antigamente era o pai o mantenedor, a mãe, os filhos e um ou outro agregado, este podendo ser um parente, órfão, um empregado de longos anos, um filho adotivo.

Desde que o divórcio ganhou o lado de fora das casas através de uma legislação penosa depois de correr junto com a dificuldade religiosa para a aceitação da pílula anticoncepcional, a famíla vem ganhando contornos diferentes e adesões fora do grupo consangüíneo. Pais e mães que constituem um novo lar e uma nova família vem se tornando tão comuns como o fato de casarem-se pela primeira vez. A primeira vez a gente nunca esquece, mas não é mais o para sempre ou até que a morte separe, desejado pelos religiosos, com toda a impostura de que foi Deus quem determinou. O que não se alterou ainda para a maioria das pessoas são os preconceitos. Eles vão acompanhando as mudanças sociais e se adaptando com novas denominações.

“Meio irmão”, por exemplo, é uma coisa que eu não entendia muito bem até me tornar pai de duas filhas em dois casamentos e ouvir dizer que minhas filhas são meio irmãs. Suas mães se casaram novamente e também tiveram novos filhos. E eles são considerados meio irmãos de minhas filhas também por parte dos outros pais. No entanto pela parte das mães são considerados irmãos inteiros. O que o senso comum chama de evolução ainda não entrou naquela fenda do meu cérebro que é o lugar da ficha cair. Quer dizer que sendo irmãos da mesma mãe lhe conferem um status melhor?

Ó, meu gameta sortudo e esperto que encontrou o caminho vitorioso da fecundação, o que vale você senão um lugar menor ao mundo? Terá o óvulo sozinho esse poder de atribuir uma igualdade acima da natureza perfeita que transforma em irmãos todos os que foram gerados pelo amor entre os vários casais que se formaram ao longo de dois ou mais laços de família? Eu protesto!

Enquanto a minha indignação não encontra resignação em explicação de algum especialista que vai querer me convencer a aderir ao termo, eu faço piada. Ouvi no programa de rádio da Rosely Sayão, psicóloga infantil:

Uma mãe conversa com seu filhinho de quatro anos:
- Mãe, o Julinho é seu filho?
- Não, ele é filho do primeiro casamento do seu pai.
- E o Marcelo é seu filho?
- Ele é filho do segundo casamento do papai.
- A Belinha é filha do papai também?
- Não, ela é filha da mamãe, do primeiro casamento.
- (???) Mãe, eu sou seu filho?

quinta-feira, 15 de julho de 2010

BAHIA DE OUTRORA - UMA RESENHA

“Queres escrever para o mundo? Então canta a tua aldeia!” (Tolstoi)

Miriam de Sales levou esse ensinamento aos quatro pontos cardeais. Afinal, estamos num mundo cheio de confusão, aventura e magia e é a partir de Bahia, sua terá Natal que ela nos encanta com o relato vida de ontem que ainda é um tanto a de hoje. Será a de amanhã? São tradições que se perdem, são tradições que se criam, são tradições que se transformam.

O autor do prefácio disse diz que as pessoas são estranhas, boas ou más em qualquer lugar. E as tradições de um povo que encontram na oralidade a sua manutenção estão perdendo força significativamente com a velocidade do mundo. Então é um trabalho que garante seu lugar na história. Mais tarde vamos poder saber se o que fizemos agora ao dispensá-las em nome do novo foi uma grande bobagem ou não.

Pelo aspecto narrativo, mais do que contar a Bahia, o atrativo maior é como a Miram canta a Bahia e nos faz encantar com ela. Seu refinado humor junto com o criterioso trabalho de pesquisa compõem o prato gostoso que a Bahia fez pelas mãos dedicadas da autora. Uma delícia de se ler, de se lembrar e para quem não viu nada disso ainda, de conhecer. Vale a pena ler o Bahia de Outrora. Fica ao final o gostinho de atender ao convite :
“Você já foi à Bahia, nega? Não: Então vá.” (Caymmi)


Livro: BAHIA DE OUTRORA


Autor(a): Miriam de Sales Oliveira


Ed. Via Literatum, 2010



Miriam é autora no Recanto das Letras e dos sites


http://wwwfiatluxblogspotcom.blogspot.com/


http://contosecausos24x7.blogspot.com/

quarta-feira, 14 de julho de 2010

FALTAM LEITORES

Houve um tempo em que os escritores datilografavam aqueles seus textos que almejavam transformar-se em livros. Colocavam-nos debaixo de braço e partiam para um périplo rumo às editoras tentando conseguir que sua obra fosse analisada quanto à viabilidade da publicação. Os donos das editoras eram, não raro, pessoas ligadas à literatura, jornalismo, história e afins. Além deles, havia o mais temido profissional que um pretendente podia encarar: o “agente literário”. Ele podia ser o próprio dono da editora ou um ilustre letrado, um crítico literário ou ainda um iniciado no ramo com uma visão abrangente do que fosse literatura. Com toda a objetividade e também toda a subjetividade que esse nome podia carregar junto com o seu portador. O agente lia e recomendava ou não a edição do livro. Uma vez que caísse no gosto dos leitores, então o escritor fazia contratos exclusivos com determinada editora (sempre ganhando muito pouco, na maioria dos casos) e tinha “encomendas” do editor para a próxima obra. Nos casos de sucesso retumbante, recebia um gordo adiantamento e podia dedicar-se algum tempo por conta de escrever, se quisesse. No entanto, é sabido que são pouquíssimos escritores no mundo inteiro que sobreviveram ricamente à custa somente de suas obras literárias. São os escritores dos best sellers e outros menos votados, mas donos de obras de alcance literário universal.

Em pouco mais de meio século a população mundial mais do que duplicou. Estamos próximos de atingir os sete bilhões de pessoas na Terra. As novas tecnologias da informação rápida, acessível a rincões do planeta nunca antes imaginados, possibilitaram que se tornassem públicos os milhares, milhões de escritores, diletantes e profissionais, principalmente através da internet. Escritores que já existiam e nunca sonharam que um dia pudessem dar vida às suas obras. Escritores potenciais que nunca se animavam a escrever, já prevendo com pessimismo que não iam encontrar quem se dispusesse a lê-los. Escritores que descobriram que tinham uma capacidade inata mas que nunca antes haviam se arriscado e só o fizeram diante da visibilidade imediata que a internet possibilita e por conta disso se desenvolveram com uma rapidez semelhante à da transmissão de dados. Se for elencar todos e todas as suas motivações, certamente daria um artigo à parte. A máquina de escrever foi aposentada definitivamente e num clique a gente pode colocar a obra no mundo em tempo real. O recurso do livro em volume de papel, porém, ainda continua sendo o sonho de 9 entre 10 escritores. Está aí o livro eletrônico, mas não se popularizou tanto ainda a ponto do nosso gostoso e inseparável livro de mão, de abraço e de cabeceira ser abandonado. Vai acontecer, mais cedo ou mais tarde, mas ainda permanecem o prazer, desejo e o sonho daquele cheirinho de gráfica.

E o agente literário com esse fenômeno desapareceu antecipadamente do mapa editorial. Ele agora é o caçador de oportunidades de ganhos para as editoras que também proliferaram como coelhos. Não mais são pessoas ligadas necessariamente à literatura que estão no seu comando. São empreendedores comuns que farejam boas perspectivas de vendas e cobram dos iniciantes que queiram publicar. Na maioria dos casos, o autor além de bancar todo o custo de sua publicação ainda fica com o ônus da distribuição, a parte mais difícil, é bom que se diga.

Nessas inversões de situação, o que ficou faltando, no meu entendimento foi o crescimento no número de leitores na mesma proporção que cresceu o numero disponível de obras para a publicação, daí a supremacia das editoras mais agora do que já era antes.

Há inúmeros outros fatores que considero que contribuíram para emperrar algumas portas que poderiam ampliar o número de leitores, bem como facilitar a publicação de novos autores. O mundo tecnológico veloz vem cada vez mais cristalizando uma sociedade ligada a imagens e valores individuais. As leituras de imagens falam muito mais do que a leitura de um livro. A imagem da pessoa tem muito mais valor intrínseco do que o conjunto de sua obra. O que a pessoa representa enquanto alegoria mental de sucesso é mais importante na sociedade moderna do que as idéias que ela possa disseminar. São conjecturas o que aqui faço. É um sinal dos tempos que ainda não apontam em nenhuma direção específica. Eu prefiro chamar de crise geral do sistema de pensamento mundial. Estamos diante de uma tendência a um pensamento homogêneo, com ligeiros disfarces de resistências e farpas fragmentadas. Todos parecendo ter muito a dizer e ninguém arredando muito do lugar comum de uma organização social que elegeu o sistema de produção e aquisição de mercadorias e serviços como guia, como pilar do mundo. As contradições internas ao modelo de pensamento se limitam a melhorar o que já possuímos e de conservar aquilo que ainda não destruímos.

terça-feira, 13 de julho de 2010

QUEM VIVER VERÁ

Não sei se vou estar aqui para presenciar, mas vaticino: ainda serão vistos os professores ganhando altíssimos salários. Não por causa de políticas públicas de valorização do magistério. É que os jovens estão cada vez mais indispostos a seguir essa carreira, não só pelos baixos salários, mas por causa de negócio para poucos que virou a educação. Principalmente os jovens com uma formação mais integral, tão necessária a educandos.

Eu havia publicado a frase acima em 20/07/08 aqui no meu blog, e naquela época achava que o fenômeno iria demorar ainda muito para acontecer, uma vez que não sou premonitor nem vidente, mas possuo uma certa capacidade de análise da realidade educacional que vivencio em nosso país. Pois bem, acaba de sair um levantamento nacional da Fundação Carlos Chagas sobre a perspectiva de formação de novos docentes e o quadro é desanimador. Apenas 2% dos alunos do último ano do Ensino médio manifestaram desejo de seguir a carreira de magistério.* Primeiro por não acreditarem nas políticas públicas voltadas para a educação e depois por causa dos baixos salários e péssimas condições de trabalho oferecidas. É impressionante se a gente for acompanhar nas propagandas dos governos municipais, estaduais e federal o montante astronômico das cifras que eles dizem destinar à educação. São números deveras de impressionar. E por que será que não há avanços significativos em termos de qualidade do ensino? Será que o dinheiro está sendo desviado? Será que está sendo mal aplicado? Será que há investimento apenas nos aspectos físicos das escolas? Esse monte de perguntas já tem respostas na ponta da língua de qualquer um que estiver lendo e tenha noção do que seja o trato da educação pública no Brasil, não preciso espinafrar aqui com as respostas. Acho que isto será o limite: a procura por professores a peso de ouro. Ou então a retirada definitiva do estado da área da educação entregando de vez à iniciativa privada, transformando o que já é um negócio altamente lucrativo e de acesso a poucos, num negócio ainda mais lucrativo e de acesso a menos pessoas ainda, nos fazendo voltar a tempos inimagináveis em termos de analfabetismo e subdesenvolvimento. Acho que vou ver sim, se eu não morrer nos próximos dez anos.

*Fonte: Jornal Hoje em Dia, caderno Minas, pag 1 , 05/07/10

segunda-feira, 12 de julho de 2010

NA CIDADE

Quem vale mais o carro ou eu?

Eu não! Sou de pouca serventia

Mas você ai, você vale

Mais que popular, de luxo, estelar.

Eu digo é do lado de fora

Lá dentro é um rei (nem que seja) de barriga

Ou um súdito do automóvel,

mas com poder delegado

O homem faz cidade para o carro

Ruas, estradas, até passeios

São tapetes para a majestade.

Eu não xingo buzina não, viu lacaio?

Passo é lá para dentro

E fico humano

Nem que seja de carona.

domingo, 11 de julho de 2010

VAIDADE

Tudo começou pelo excesso. Nos primeiros tempos a humanidade produzia tudo o que era necessário para seu sustento e reprodução até que algumas coisas começaram a sobrar. E em vez de repartir o homem começou a acumular. O que acumulava era guardado em algum lugar. Dinheiro nos sacos, depois em colchões e depois bancos. Mercadorias em silos e depois galpões e depois lojas e supermercados. E veio a usura e o comércio. E a riqueza e fartura não eram mais de todos, mas de quem as acumulava.

Enquanto o homem consumia a gordura e o açúcar para seu sustento e reprodução ia tudo muito bem. São elas que dão sabor aos alimentos e são naturais e necessárias ao corpo. Até aparecerem os gulosos, os mesmo já acostumados à acumulação. E começaram também a acumular gorduras. Só que nos lugares mais indesejados. Barrigas, pernas, braços e em outras partes do corpo por não terem como guardá-las em outro lugar. Com sua inteligência o homem foi disfarçando o seu consumo porque, diferentemente de outras sobras que acumulou, a gordura não lhe dá soberba nem vaidade. E foi inventando coisas como os realçadores de sabor que não são gordura nem açúcar, mas fazem tanto ou mais mal à sua beleza e vaidade que os originais.

A ansiedade, que havia sido criada para a preocupação com a acumulação de bens materiais aumentou com a de acumulação de gordura. E com ela aparecem os médicos especialistas e os psicanalistas. Os primeiros para oferecer as panacéias para a diminuição do corpo adiposo e os segundos para curar os incômodos da alma rechonchuda.

Então, o envelhecimento passou a fazer parte das preocupações juntamente com tudo isso através dos radicais livres. Como foi em uma época de ditadura que eles foram descobertos, tinha-se que eliminar os radicais. Ainda mais os livres. Como não havia como eliminá-los com tortura ou à bala, foram criados medicamentos e descobertos alimentos que os combatem sem muito sofrimento, mantendo uma pele linda e saudável (mesmo que envelhecida por dentro).
Assim caminha a vaidade.

sábado, 10 de julho de 2010

VERSOS DO DESMERECIMENTO HUMANO

Eu não justifico a desigualdade

Achando que é do nascer humano

Antes procuro os momentos

em que foi ela acontecer,

esmiuçando a origem da maldade

Comigo, com você e com o fulano.


Não cultuo o desmerecimento

Que tão em voga está

cada um se achando o mais perfeito

que é seu o maior sofrimento

que é seu o melhor que há


trafego entre o ávido e o precário

entre o anseio e a desdita

distribuindo, ora flores, feito um perdulário

engolindo, ora sapos, como destronado sibarita

sexta-feira, 9 de julho de 2010

AEDO CIBERNÉTICO * - O MESTRE SALA DOS MARES

Dentre as muitas formas de resistência às condições de vida e de trabalho da maioria da população brasileira, seja sob a monarquia, seja sob a república, uma revolta marcante foi a da vacina, em 1904, quando Oswaldo Cruz tentou imunizar a população do Rio contra a varíola e febre amarela. Sem aviso prévio, invasivamente e sem nenhuma campanha esclarecedora. Uma tentativa de erradicação e uma revolta contra a profilaxia.

A outra (1910) foi a dos marinheiros que ficou conhecida como a Revolta da Chibata, contra maus tratos aos tripulantes dos navios da marinha brasileira. O líder era o marinheiro João Cândido, também conhecido como Almirante Negro. Ameaçavam bombardear a cidade, se não fossem atendidos. ( a maioria era de negros). Houve uma relativa vitória dos insurgentes, pois os castigos físicos foram abolidos um dia após a Proclamação da República mas foram restabelecidos no ano seguinte (1890):

"Para as faltas leves, prisão a ferro na solitária, por um a cinco dias, a pão e água; faltas leves repetidas, idem, por seis dias, no mínimo; faltas graves, vinte e cinco chibatadas, no mínimo."

(J. M. Carvalho – Os Bestializados).

Foram violentamente reprimidos e o governo não cumpriu a promessa de acabar com a situação, prendendo os líderes e enviando outros para a floresta amazônica. O Almirante Negro foi expulso da Marinha e internado como louco.

Vejam essa pérola de música para ilustrar esse momento histórico que o compositor João Bosco produziu.
O MESTRE SALA DOS MARES


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* Na antiguidade, como a escrita era pouco desenvolvida, o AEDO cantava as histórias que iam passando de geração para geração, através da música. Depois, veio o seu assemelhado na idade média que era o trovador. Hoje, juntado tudo isso com a tecnologia, criei o AEDO CIBERNÉTICO.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

NA CABEÇA!

O que vem por aí em termos cerebrais é fascinante e ao mesmo tempo um assombroso novo modo de viver a vida. Não se trata do desvendamento dos mistérios da mente ainda, apenas da massa encefálica, aquele monte de miolos-moles cinza e branco. Eu que já estou acostumado a pensar com a minha própria cabeça (e não estou falando de influências de outras) não me assusto com muitas coisas. Afinal, a gente se acostuma a tudo, não é mesmo? Basta vir uma novidade, maciçamente propagandeada e, uma resitenciazinha aqui, outra ali, e logo, logo, todo mundo adere dizendo que é evolução. Há pouco tempo tinha um cara que ficou famoso na televisão e cujo bordão que lhe garantiu uma fama era “faz parte”, quem não se lembra? Esse irritante conformismo sem explicar nada e se contentar resignadamente com tudo é o maior símbolo do senso comum traduzido em expressões de domínio popular. Condensar todo o pensamento manipulado no “faz parte”.
Bom, eu assisti a um programa no canal Discovey Science que tratava do cérebro humano. O que os cientistas estão fazendo para escarafunchar os escaninhos da massa encefálica não é brincadeira, não! Depois de descobrirem cada setor e dar-lhes nomes tipo córtex, lobo, cerebelo e outras partes que esqueci, já sabem a função de muitas coisas, como agem de forma independente o lado direito e esquerdo, mas solidários e integrados. Agora estão conseguindo isolar alguns mecanismos responsáveis por certas coisas que acontecem na vida da gente.
No programa, por exemplo, mostraram uma cirurgia onde foi extirpada uma pelezinha, um pedacinho estragado que era responsável por ataques epiléticos. A pessoa se curou e nunca mais precisou de medicamentos. Descobriram áreas onde aconteceram traumas, seja psicológicos ou fiscos e eliminaram com uma eficiência de dar gosto. Quanto mais vão escaneando e digitalizando os procedimentos, mais avanços vão conseguindo. Chegaram ao ponto de acompanhar uma mulher em pleno orgasmo através de uma ressonância magnética. Muito legal o processo. O cérebro dela estava doidão no momento clímax. Tem razão, pois os cientistas afirmam que, ao contrário do que muita gente pensa, o maior órgão sexual que possuímos não está do pescoço para baixo. É mesmo o fantástico cérebro. Disseram ainda que esse é um problema que não vai mais acontecer daqui a pouco tempo. Isso combinado com o fim das broxadas masculinas graças aos comprimidinhos azuis vai aposentar de vez a frustração sexual de quem se interessar. Desse modo, o “comandante” vai, daqui a pouco, poder ser programado. É o homem imitando a máquina, quem diria!

Imagine a raiva poder ser controlada por chip no lugar de uma massa revolta, amansada por fortes remédios que causam vários efeitos colaterais? O esquecimento em quem você votou nas últimas eleições, de onde colocou as chaves ou do horário de um compromisso sem necessidade de anotação será coisa do passado. A fome, o medo, a angústia, a tristeza, a saudade (será?). Tudo isso controlado por um simples aperto de botão de um controle remoto (o único inconveniente que vejo ate agora é ter que andar com mais um aparelho no bolso ou na bolsa).

Só com o pensamento ainda não conseguiram mexer com a ajuda da tecnologia.. Mas com o senso comum do jeito que é, vai ser necessário?



quarta-feira, 7 de julho de 2010

A FINAL


"Brigam Espanha e Holanda
Pelos direitos do mar
O mar é das gaivotas
Que nele sabem voar
O mar é das gaivotas
E de quem sabe navegar.

Brigam Espanha e Holanda
Pelos direitos do mar
Brigam Espanha e Holanda
Porque não sabem que o mar
É de quem o sabe amar
. 
Da inesquecível Leila Diniz



Eu não fui traído pelo sonho. Joguei num bolão de família que a Alemanha ia ser campeã. O certo é que depois, muito depois, apareceu  a estrela do mar no meu sonho em forma de poema. Fico com ele que é muito lindo, e que vença o melhor.



OH, MINAS GERAIS, QUEM TE CONHECE...

As cidades históricas de Minas vão arranjando um jeito de agregar ao patrimônio arquitetônico barroco outros atrativos para os turistas virem visitar e voltar mais vezes. Se não voltarem, pelo menos indicar para outras pessoas. É assim que Tiradentes criou o seu festival de cinema e gastronomia. Renome mundial já. Sabará tem o seu festival de ora pro nobis que é uma delícia e bastante conhecido. Congonhas com seus doze profetas de Aleijadinho, um santuário que quase dispensa mais atrativos, também corre atrás de outras iscas turísticas. Ouro Preto é hours concours. Já está na agenda do mundo faz tempo. Nem precisava mais tanto evento e mesmo assim os tem com fartura. Fale de literatura? Tem. Música e cinema? Tem. Artes plásticas? Tem demais. A Universidade Federal também dá a sua contribuição não só pela tradição da centenária escola de Minas e suas repúblicas como participa ativamente da atmosfera cultural da cidade, principalmente através da festa do doze de outubro, que de tão tradicional o dia doze virou uma semana de festa todos os anos. Do carnaval de rua acho que nem é preciso falar. E ainda tem muito mais para se escrever, daria para encher a página. Diamantina, São João Del Rey, Nova Lima, Caeté...

Já a cidade de Mariana, logo ali, vizinha e uma espécie de mãe de Minas (é a primeira cidade, 1696) ainda patina nas tentativas de construir esse menu de opções que vá além de seu casario colonial e suas igrejas imponentes e lindas, muito lindas. Foi lá que passei uma grande parte da minha vida. Num período em que me tornei um comerciante “meia boca” eu bem que tentei contribuir com a realização de eventos. O mais grandioso que consegui realizar e que pretendia transformar em permanente foi um encontro de colecionadores de carros antigos. Lá estavam os primeiros carros que circularam pelo Brasil e que estão em mãos de pessoas que cuidam deles melhor do que é cuidado o nosso patrimônio histórico. Eles possuem associações e estatutos próprios. Conseguiram até uma legislação de trânsito específica. Quando um colecionador consegue uma placa preta para a sua relíquia, é porque o carro é original, em perfeitas condições de funcionamento e dispensado de impostos. Uma belezura.

Eu me lembrei dos festivais de música que fizeram tanto sucesso no Brasil nos fins dos anos 60, meados de 70. Tentei realizar mas não consegui apoio. Há ainda alguns pipocando por ai. Eles davam uma aura romântica e emocionante para os novos talentos da música. Com o mundo grande do jeito que está e as comunicações tão mais acessíveis, ficou mais fácil gravar mas ficou mais difícil mostrar qualidade em meio a tanta coisa que atende mais ao apelo das massas ensandecidas por modismos quase descartáveis. Era um sonho, mas acho que era só meu.

“Sonho que se sonha só é só um sonho...” já dizia o maluco beleza do Raul Seixas.

terça-feira, 6 de julho de 2010

ESQUISITICES

“Mundo, mundo, vasto mundo

Se eu me chamasse Raimundo seria uma rima

Não seria uma solução”

(Drummond)

As pessoas do interior influíam mais no modo de ser das cidades grandes. Parece que as coisas estão se invertendo. A cidade com seus medos, poucos amigos e impessoalidade é que está mudando as pessoas. Dizia-se que Belo Horizonte era um interior grande. As pessoas vinham para buscar uma vida melhor, seja no mercado de trabalho ou por causa de maiores opções de escolas. Por conta do convívio um tanto pacato e caloroso acabavam reproduzindo aqui a própria vida interiorana. Vizinhos se conheciam e se tornavam solidários na alegria e na tristeza. Bares eram ponto certo de amigos de verdade, comércio de bairro ainda tinha o contrato do fio do bigode. Para quem não chegou a experimentar uma relação dessas, é o mais sincero e bem acabado pacto de confiança na integridade tanto de quem fornecia como de quem comprava em honrar a sua palavra ou a anotação na velha caderneta do fiado.
 
Corremos atrás de uma modernidade que não costuma dar carona a todos. Especialmente no que diz respeito a valores que tocam a essência humana. Quanto maior e mais vai crescendo o número de pessoas, mais as cidades vão subtraindo a integração entre elas. Disputamos espaço e destaque a todo momento e ao mesmo tempo queremos dar um contraditório grito de eu existo. A visibilidade que fazia bem ao ego numa relação de comunidade perde lugar para o viva eu, acima de tudo e de todos. Não espanta muito o aumento de casos de crimes passionais, de fervores religiosos beirando a um fundamentalismo míope que ilustram pobremente as tentativas das pessoas se agarrarem a algo mais profundo e que dê apoio a elas para não sucumbirem a tanto vazio. Tanta correria por sobrevivência, que a sociabilidade já está no último dos planos de vida de grande parte ou maioria das gentes.

Pode parecer chavão ou lugar comum, mas quem busca felicidade numa selva deve dar um jeito de fazer amizade com as feras. Ou será esquisitice minha?




segunda-feira, 5 de julho de 2010

A MULHER QUE ESCREVEU A BÍBLIA - RESENHA

Eu tenho um medo danado de ser rejeitado. Quem não tem? A gente já tem que fazer um esforço imenso para ser aceito, afinal vivemos numa sociedade onde a competição dá ares de sua (falta de) graça a todo momento, não é mesmo?. E não há quem não queira se dar bem. Porém há os que usam o esforço pessoal, há os talentosos, há os espertos e há os inescrupulosos nesse nosso confuso tecido social.
Uma sociedade que valoriza muito os aspectos estéticos além da capacidade intelectual, a aparência em lugar do essencial; a astúcia em lugar da inteligência; uma sociedade, enfim cheia de máscaras, hipocrisias e falsetes só pode erigir uma torre de babel travestida de civilização de pessoas evoluídas. Lobos em pele de cordeiro estão se destacando a todo hora, em todos os lugares.
Agora: imagine o que uma pessoa sem predicados daqueles de se colocar na vitrine seria capaz num meio desses, cheio de preconceitos quando você se apresenta e a primeira coisa que todo mundo faz é olhar de cima embaixo, julgando secretamente suas habilidades e aptidões através de sua aparente cara e corpo.

Pois vamos falar de uma feiúra que por obra de um destino arranjado por convenções vai parar num palácio de um rei muito poderoso e de que forma? Como esposa. Pode pasmar, meu amigo (a)! E não será qualquer uma esposa, apesar de feia. Ela vai escrever a bíblia, a história do mundo. Imagine isso sendo feito por uma mulher, ainda por cima, feia! Vá ler A Mulher que Escreveu a Bíblia pra ver o que é se desdobrar contra uma “abominação” que vem de tudo quanto e lado, do rei até o mais desmerecido súdito. E ainda por cima, do pai, da mãe e da irmã, linda por sinal.

Havendo, no entanto, conhecimento e astúcia, algum vento brando pode soprar favoravelmente. Mas agora, faça o favor, vá ler o livro senão vou ficar tentado a dar uma de ardiloso e contar tudo aqui mesmo, de tão envolvente e bom que é de se ler. Livro, aliás, que é crédito exclusivo do grande Moacyr Scliar, o autor que colocou o pergaminho nas mãos da feia e lhe deu a oportunidade de conduzir essa fantástica narrativa.

A MULHER QUE ESCREVEU A BÍBLIA
Moacyr Scliar
Cia das Letras, 1997

sábado, 3 de julho de 2010

LER É FASHION

O título é copiado de um texto muito legal que li no blog da Marli Borges*. Andam dizendo por aí que ler agora é fashion. Fashion, de acordo com a aquela menina que tinha mania de explicação, personagem da Adriana Falcão, é quando converge todo mundo para a mesma coisa, mesmo sendo a mesma coisa algo que não seja bom para todo mundo que converge. Mas como é para o mar que os rios correm e não para as montanhas, todo mundo vai navegando pelas águas do que ditam os modismos. Por outro lado, esse cortejo do senso comum chega a ser extremamente positivo. Tanta coisa fashion na vida da gente que é só fashion, passa, a gente adere e dá em nada, que chega a ser um alento dos mais promissores se a moda durar. Pelo menos acho que dá para ter uma certeza: é uma moda que, se passar, vai deixar simpatizantes para a vida inteira e as vidas deles nunca mais serão as mesmas; mornas ou manipuladas. Enfim, surge um caminho que pode levar a boiada a um destino que não seja o matadouro. Dá-lhes livros e mais livros!

No mesmo texto ela sugere que cada um diga sua experiência na iniciação à leitura e qual o livro que deixou uma marca na sua vida (do leitor). Esse o é o ponto que me levou a escrever esta crônica. Já li centenas, talvez milhares de relatos de pessoas que se transformaram em leitoras mais ou menos assíduas, acerca o que as motivaram à leitura. É inacreditável (é?) que não me lembre com muita freqüência de ter lido que foi a escola que deu esse impulso. Há muitos em que ela tenha contribuído, porém poucos no universo total. Tanto que não chegam a merecer destaque nem são suficientes para me lembrar. Portanto, a escola passa a ser uma exceção quando é um agente que tenha metodologias direcionadas para o incentivo ao gosto pela leitura. Inserir nos currículos creio que todas fazem. O problema talvez, esteja no método, nas condições materiais e no preparo do corpo docente e pedagógico. Não se trata de escolas de pobres ou de ricos. Falo da escola como instituição.

Então, diferente da questão da Marli, deixo outra no ar: você que lê com gosto e freqüência: foi da escola que nasceu o seu hábito?
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* Blog da Marli: http://marliborges.blogspot.com
Leia mais dela também em http://recantodasletras.uol.com.br

sexta-feira, 2 de julho de 2010

OBRIGADO, POETA!


Tributo ao cronista, um tributo ao Zé

       Quarenta e sete anos atrás, nascia em uma cidade de Minas, um grande ser, um homem deveras audaz;      
 Audaz em suas palavras, astuto observador, mente inebriante, escreve o que a vida ensinou;   
     Apaixonado pela vida, eterno estimulador, dos que labutam na arte da escrita, grande analisador, do comportamento humano, um exímio divagador;
       Amante das metáforas de Chico, o Cinema Paradiso um dia o encantou, Lisbela e o prisioneiro, já sei quem um pouco ele puxou, o exagero de Cazuza e o talento arrebatador;  
       Fazer ode ao Zé é difícil, profundo e inigualável escritor, mente efervescente, seu codinome é indagador;
       Diz que faz um bom prato, com certeza deve ter sabor, mas, prefiro ingerir sua mente, e seu jeito questionador, me nutrir com o tempero sarcástico, dos seus textos terá mais sabor;
       Dentro de sua idiossincrasia, enxerga o que não se mostrou, mostrando o que não se enxerga, sensível revelador;
       Se o tal do querubim não viesse, e não entortasse a sua estrada assim, e não decretasse que estarias condenado, a viver sendo errante sem fim, eu iria ao céu atrás dele, comeria ensopado de querubim, a não ser que ele reconsiderasse, e jogasse a praga em ti, não sabendo que fazendo isso, não seria uma pena tão ruim, escrever como você escreve, é dádiva você ser assim, agradeça o decreto do anjo, se não agradeceremos por ti, desfrutar de teus textos sem engano, é prazer e deleite sem fim.






       Homenagem a um grande e sensível esmiuçador dos alhures humanos, José Cláudio agradeço-lhe por me causar com teu diuturno talento tamanha perplexidade, como dizes sempre, paz e bem para você também!

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Texto de Felipe Padilha de Freita (o poeta do deserto).
Acesse a pagina dele:
http://recantodasletras.uol.com.br/autor.php?id=52265



UM PESADELO EM PLENA COPA

Conheci o Ângelo na sarjeta. Não na “vala do agrião” como se diz na gíria do futebol, quando o cara está na posição de impedimento. Na vala comum dos que trocam a vida de glória, ainda que efêmera e que dá para fazer um pé de meia, por uma vida de degradação pura e simples, se entregando ora ao hedonismo, ora ao ilusório fugir da realidade e no final acabando sempre destruído pela dependência orgânica. Era um craque da bola e um tímido ao mais extremo que se puder imaginar de um tímido. Ah, antes que eu me e esqueça, a sarjeta em questão era um boteco copo sujo onde eu tomava o meu conhaque barato todos os dias. Seu pai havia sido um craque também e o queria como seguidor, uma sombra em sua carreira. Acontece que o pai havia tomado o mesmo caminho anteriormente. A única coisa que deixara para o filho, no entanto, e que poderia ser útil em algum momento na vida, era um bilhete de recomendação. Bilhete que acabou sendo um atestado de desrecomendação já que ele havia perdido toda a sua credibilidade por causa da bebida. Ângelo teria ido à copa de 70, se não fosse por aquele episódio da troca de técnicos de João Saldanha por Zagalo. Seu pai era um velho conhecido do João Saldanha e havia conseguido uma indicação para ele entrar rapidamente num time de ponta para ser convocado e ir jogar pelo Brasil naquela copa

Sabem da história da troca de técnicos? Contam que o Médici, o general que estava comandando o país naquela época em que os generais eram os presidentes (o Brasil teve cinco deles se alternando no período entre 1964 e 1982), mandou o João Saldanha escalar o atacante Dario e ele não aceitou a ingerência, no que foi trocado por Zagalo, mais mansinho. A cartolagem naquela época era menos sutil e o uso do futebol com fins políticos era mais evidente. O Brasil ganhou assim mesmo. Dario entrava depois que o time já estava ganhando.

Mas voltemos ao Ângelo, ele perdeu a vaga no time por isso e por sua timidez. Nas últimas tentativas por parte de seu pai, já sem nenhum crédito junto aos cartolas, o menino (17 anos) sumiu no mapa. Por isso que veio parar aqui nesta cidade e se transformou, primeiro num motorista de caminhão. Engraçado que trabalhamos na mesma firma e eu não o conheci lá, vim a conhecê-lo justo no boteco. Depois transformou-se num alcoólatra e depois num louco. Estava afastado pela previdência; como dirigir caminhão desse jeito? Ângelo era o tipo tímido rejeitado em estado de sofrimento que não aceita falar de seu problema porque é tímido e resolve a timidez na cachaça, quando então, fala sem parar. Só que agora já não falava mais coisa com coisa, soltava toda a sua afetividade reprimida numa mania de ficar pegando na gente enquanto dizia coisas cuspindo pra todo lado. Eu vivia lhe dizendo: Ângelo, a gente não precisa falar com as mãos... Ele pronunciava também a sua fúria quando se sentia rejeitado, mas não agredia fisicamente, só com palavrões, muitos palavrões. Acho que isso era uma espécie de terapia para ele, pois depois saia com um risinho meio cínico no canto da boca como se quisesse dizer que estava satisfeito. Ele chegou a jogar peladas com o pessoal do trabalho e disseram que o cara era mesmo um craque, inventava coisas com a bola que ninguém aqui por estas bandas conhecia.
Ângelo atualmente povoa meus sonhos pelos menos uma vez por semana. Não sei se é por causa da copa do mundo que está acontecendo lá na África, só sei que ele sempre aparece para tomar alguma coisa e eu já nem bebo mais. Eu preciso fazer alguma coisa, acho que estou ficando perturbado com esse negócio de um sujeito que não teve nenhuma participação significativa na minha vida ficar aparecendo para mim feito um devaneio de minhas noites. A única certeza que me resta é que a bebida alterou definitivamente a minha vida e a dele.





quinta-feira, 1 de julho de 2010

NOSTALGIA PARA OS OLHOS E OS OUVIDOS

O cinema anda meio cabisbaixo. O mesmo vem acontecendo com a música. A literatura nem tanto, uma vez que sequer chegou a ser de todo descoberta. Ela vivia mais no super mundo das produções nobélicas* e graças à internet há a possibilidade de conhecermos muita gente boa que estava impedida de passar suas idéias e emoções para além dos limites do papel manuscrito. Eu já tinha ouvido também gente da velha guarda da música dizer que há uma falta de assunto na música popular. Não é por causa dos ritmos de moda que proliferam por ai. Eles sempre existiram e não eram páreo para a boa música. Agora são. É verdade também que houve uma queda na qualidade do gosto musical da geração mais nova, mas isso é fruto de uma crise de identidades culturais mais fortes. Acho que é mesmo a falta do que dizer. Falar de amor, de dor de cotovelo, de corpos sarados e rebolação, fala-se em qualquer ritmo. Seja dançante ou não, o que conta é como se embala. E o cinema? Nunca vi tanto remake. Hollywood está anunciando uma enxurrada de novas/velhas apresentações. E não são clássicos que estão sendo revisitados. São antigos sucessos de bilheteria apenas. Isso seria uma prova da crise de criatividade? Ou tudo que se vende e de que se fala muito é bom? Não sei mas me interesso muito, afinal são filmes e música minhas companhias prediletas junto de minha família , meus amigos e meus livros.

No final, eu vou continuar me perguntando até a morte se a nostalgia é um apego ao passado, uma resistência ao presente que se esperava enquanto futuro melhor ou se é mesmo uma crise que está provocando falta de assunto interessante.
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* um neologismo meu para comparar às produções cinematográficas em busca de Oscar. No caso das literárias, em busca de prêmios Nobel.


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