sábado, 15 de maio de 2010

UM SELINHO

Obrigado, Menina., pela gentil indicação. Me sinto honrado
http://bymenina.blospot.com

Esse selo tem algumas regras a seguir:
- pegue o selinho
- responda a pergunta (O que é mágico para você?)
- repasse para 10 blogs

- indique de onde pegou o selinho
- ilustre com uma imagem


 Mágico para mim é um sonho ralizado, no entanto, inacabado, que gera outro, que gera outro...e que faz a gente nunca deixar de sonhar.




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sexta-feira, 14 de maio de 2010

CHIFRE EM CABEÇA DE CAVALO




Já reparou que os cavalos não dão coices com as patas da frente? Deve ser por isso que eu me aproximo observando e fico procurando chifres na suas cabeças. Se não achar nada, pelo menos não corro riscos maiores do que umas mordidas. Pois é, disso eu fui pensar naquilo que move a inquietação juvenil atual além dos hormônios sexuais. O desejo de afronta, a necessidade de transformação, os impulsos à aventura estão adormecidos ou estão entorpecidos pelo poder da máquina de fazer de nós todos, marionetes de uma roda do consumo que não leva a muitas satisfações além daquela sensação de superioridade em uma disputa ferrenha de quem vai ter mais e melhor? Se não está sendo possível deixar um mundo melhor para as próximas gerações, por que então não deixar as próximas gerações em condições de construírem este mesmo mundo de uma forma que não seja esse caminho por onde vamos indo e onde já estamos enxergando o início do beco que não terá saída? A que lugar pode ir o mundo senão ao fim, de fato com um apelo em nível global que só interessa produzir e consumir mercadorias como sendo a finalidade única e assaz satisfatória para a humanidade? E quanto mais se produz mais se quer produzir e quanto mais se esgotam os recursos naturais, mais se arranjam formas de substituí-las por artificiais, num processo predatório e destruidor. E o que tem sobrado de contradição mais evidente no seio dos pensamentos dos quais querem amalgamar em um novo senso comum?  É tudo tão previsível em termos de perspectivas... Imprevisibilidade se acha apenas nos medos e paranóias individuais e coletivas sobre assaltos, sequestros e violências de todo o tipo. Mais não há que se pensar para um debate de acirrar ânimos de gente que está numa fase de desconstruções e reordenamentos interiores e exteriorizantes: a nossa outrora linda juventude.

A contradição, único alimento de agitação que existe hoje e que vem sendo considerada a coisa mais profunda em termos de validação de existências com bagagem intelectual e militante é em última análise: de um lado, os que acham o desenvolvimento da economia sendo barrado pela necessidade de se preservar o meio ambiente. De outro lado, os que querem preservar um ambiente salubre para a vida achando que a economia tem que respeitar alguns limites. E só.  E quem vai vencer nessa economia de argumentos? O dinheiro, certamente vai falar mais alto, pois não há mais como sequer se pensar uma organização social onde ele não seja a mola propulsora de tudo. Quer dizer, pensar até se pensa muito, mas soa absurda qualquer teoria que venha se opor ao culto que se faz aos bens materiais. Tudo se traduz em necessidade e todos acreditam que no fundo seja mesmo. O propalado “preço do progresso” que falamos até sem pensar às vezes no que isso significa, é o quanto custa para se criar a miséria humana em seu sentido mais pervertido. Tem sido assim na história humana. De consenso em consenso, vamos tornando o planeta quase insuportável de se viver com o uso dessa inteligência fenomenal que Deus deu aos homens. O mundo é grande e muito ainda desconhecido. Precisa de utopias para não se desnortear tanto seguindo verdades de uns poucos que julgam a bel prazer que são ou podem ser seus donos. Utopias precisam de idealismos para lhes dar forma. Quanta falta faz uma juventude inquieta com a ordem estabelecida...

quinta-feira, 13 de maio de 2010

HAVERÁ UM TEMPO

Haverá um tempo

Haverá um tempo que nossos acúmulos de arrogância, de intolerância e de disamor nos mostrarão a verdadeira face do que um dia fomos e do que somos, e não haverá mais volta ao mesmo palco um dia ora ensaiado;

Haverá um tempo que não teremos mais o véu do pedantismo e os tantos ares de certeza, que diuturnamente embacharam nossa visão hipócrita e tão curta, que tanto nos impediram de enxergar o próximo como nós enxergavámos a nós mesmos;

Haverá um tempo que nosso fardo do arrependimento do que deixamos de ser e de fazer será tão pesado que rogaremos pragas à nossa mais que certa interior putrefação, muito mais a interna que a da cansada carcaça;

Haverá um tempo que não teremos mais o poderio do metal, e suas mais impregnantes ilusões a comandar os outros, fazendo-nos esquecer de comandarmos nós mesmos;

Haverá um tempo que não teremos mais a tão confortável persona para esconder nossas mais fétidas intenções, teremos a mais depravada constatação do que somos para quem quer que nos veja, muito mais ,e sobretudo para nossos próprios espantados e dilacerados olhos triturados pelo remorso em vão;

Haverá um tempo que nossos pés tão calejados pelos asqueirosos e tão largos caminhos de tantas andanças mal pensadas, ostentarão as chagas mais ardidas do arrependimento e a angústia reincidente dos caminhos mais nobres e estreitos que desprezamos sãos;

Haverá um tempo que nossos mais ecoantes rangeres de dentes não nos amenizarão o amargor de tanto tempo perdido e empurrado ao léo de nossas descrenças em sermos bons;

Haverá um tempo que procuraremos o alento, entre os mais variados desencantos sem alucinação, enxugaremos o nosso próprio pranto,pranto já sem lágrimas da decepção;

Haverá um tempo que não teremos mais o tempo, tempo desperdiçado, mal tratado como nosso próprio coração, não teremos mais os ponteiros certos, coesos do tempo que escapou das nossas pouco zelosas mãos;

Haverá um tempo que mesmo nessa escassez de tempo, legião de companheiros incansáveis rodeados de luzes apaziguadoras de cores inimagináveis e indevassáveis nos arrebatarão por dentro, filhos sem moradas e só com o tormento, serão resgatados pelos seus próprios intentos, a luz mantenedora da serenidade que já não era crível há tempos, preencherão nossa luz opaca, nos devolvendo um tempo, agora mais valorado pelo sofrimento,seremos só luz recriadoras de nossos templos, onde a caridade fará morada e o amor será o sagrado sustento.


Dedico estas singelas linhas a inspiração que por ventura tenha sido carinhosamente e quase que despercebidamente a mim compartilhada, como também a toda legião de benfeitores da luz que labutam no amparo e incansalmente na manutenção do verdadeiro amor em nossos corações em quaisquer planos que nós estejamos.
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AUTOR: Felipe Padilha di Freita, grande poeta recifense. Escritor também do site recanto das letras, onde pode ser acessado através do link:  http://recantodasletras.uol.com.br/poesiasespiritualistas/2249767

quarta-feira, 12 de maio de 2010

ZÉ MIJÃO

A NOTÍCIA

XIXI NA CAMA PODE TER CAUSAS GENÉTICAS, DESTACA MEDICINA.

Dra. Jennifer Abidari



Algumas semanas atrás, atendi uma garotinha de cinco anos que ainda fazia xixi na cama toda noite. É uma reclamação comum: pelo menos 15% de crianças saudáveis de cinco anos de idade não passam uma noite completamente secas. Fazer xixi na cama é bastante comum até em crianças mais velhas. ..

... não se trata de problemas emocionais, ou erros que os pais fizeram durante o treinamento para o uso do banheiro, ou preguiça, que algumas pessoas ainda atribuem ao fato de fazer xixi na cama (e o problema é cerca de três vezes mais comum em meninos do que em meninas)...

De fato, uma das piores coisas de fazer xixi na cama é o estigma...

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Fonte : http://www1.folha.uol.com.br/folha/equilibrio/noticias/ult263u681399.shtml - 19/01/10
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A CRÔNICA



Eu já havia confessado publicamente que fiz xixi na cama até os doze anos. Foi uma forma de lavar a alma. Isso por que o resto foi a minha mãe quem lavou. Colchões e mais colchões; lençóis e mais lençóis Uma maneira também de criar um mecanismo psicológico de negação de culpas que carregava. Funcionou que foi uma beleza! Agora vem essa notícia para me lembrar tudo de novo! Que coisa! Então o jeito é ir contado mais detalhes de como as coisas se davam, quem sabe não saio com uma cura definitiva sem divã, já que, pelo visto, o assunto volta e meia vem nos noticiários. Ou melhor, meu analista ficam sendo os leitores, mesmo que não me falem nada, apenas ouçam a angustia de um ex-mijão.



Era quase todos os dias. Minha mãe não me castigava fisicamente por causa disso, mas o castigo psicológico, creio, doía mais. Então, quanto mais era ridicularizado perto de meus irmãos, mais colchões novos eu ganhava. Dos nove irmãos eu era o único que trocava de colchão pelo menos a cada três meses. Naquelas madrugadas, quando o calor da urina me vinha fazer companhia sob o cobertor, eu me levantava num pulo e virava rapidamente o colchão para baixo, na ingênua esperança que não fosse notado no dia seguinte. O pior era que escorria mais rapidamente e formava aquela poça debaixo da cama, me denunciando antes mesmo que o cheiro característico o fizesse ou antes de serem trocados os lençóis. E também tinha o problema de ter que tomar banho no meio da madrugada. Não dava para ir à escola daquele jeito. Os irmãos quando queriam me provocar chamavam-me de Zé Mijão. Minha mãe fez até um verso pedindo à Nossa Senhora da Conceição para compadecer de mim. Não sei o que a Santa tem a ver com isso, nunca soube que ela era a padroeira dos mijões na cama. Mas enquanto ela cantava, eu chorava. Muito tempo depois eu ficava tentando me lembrar quando foi exatamente o dia em que não fiz mais. Deveria ter merecido uma comemoração. Não teve. Acho que ninguém, nem mesmo eu acreditava que o último dia teria sido o último dia.



terça-feira, 11 de maio de 2010

RATOS, TORTURA E PENA DE MORTE

O rato apareceu em minha casa fazia uma semana. Pelo menos foi o período de convivência aterrorizante com ele no mesmo espaço, desde que o vi pela primeira vez. De cara, já dei a sentença: está condenado à morte. Eu tenho uma sensação de asco que dizem ser instintivo. Não é nada. Imagine aonde iríamos arranjar os bravos trabalhadores que vivem do seu combate nas firmas de dedetização? Mas enfrento-os desde que não tenha que tocá-los com a mão. Vassoura, chinelo, pedra, até da minha cachorra eu solicitei auxílio na sua captura. Em vão. Eles são sorrateiros e possuem uma dose de inteligência para o embuste e uma agilidade que poucos animais têm. Acho que a palavra sorrateiro vem dos ratos, sei não.

 

Bom, desfeitas todas as possibilidades do enfrentamento armado, eu resolvi combatê-lo pela fórmula infalível que me disseram dos tais venenos que os desidratam até a morte. As ratoeiras tradicionais já não são mais sequer ameaças para esses seres urbanizados e que aprenderam os dribles nas armadilhas que lhes são impostas pelos humanos. Deve ser por isso que tem essa quantidade nojenta (eu acho) de filmes onde os ratos são heróis. Uma rendição humana momentânea à sua sagacidade e perspicácia, transformada em lição de vida. Não gosto, definitivamente do exemplo cinematográfico. Exceção para Tom e Jerry, uma gracinha de desenho animado!



Todos os dias eu colocava sob os móveis e eletrodomésticos uma quantidade de “ração” envenenada e nada de afetar-lhe os modos. Volta e meia eu ouvia ruídos na minha madrugada de escrevinhador e quando ia em direção ao barulho, o intruso já havia se escafedido misteriosamente. Um belo dia, eis que estou chegando à cozinha e o vejo saindo debaixo da geladeira e parando lentamente. A visão foi de um brinquedo à pilha que andava e de repente acabou a carga de energia. Ele parou, me olhou, eu o olhei e ficamos os dois estáticos. Eu, de nojo e pavor e ele de esgotamento das funções vitais. Mesmo assim joguei-lhe um pé do chinelo e errei. Joguei o outro e ele sequer se moveu. Aí me dei conta de que eu havia vencido as suas resistências. Estava à beira de um colapso cardíaco ou o que quer que seja o efeito do veneno. Peguei uma vassoura e dei o golpe final que lhe extraiu um grito estridente e inesquecível. Mais um susto. Ainda havia um restinho de vida. Fui mostrar a todos na casa a minha façanha, afinal todo mundo estava em polvorosa com a sua presença. Coloquei-o numa pá de lixo, abri um fundo buraco e o enterrei, jogando por cima da sepultura, vinagre e amoníaco para que a cachorra não fosse lá depois escavar. Ele estava com um semblante até simpático para quem morreu depois de ingerir tanto veneno (foram mais de oito pacotinhos que eu comprei). Seus olhos permaneceram abertos e isso me deixou depois um incômodo. Não foi nenhuma piedade, apenas um incômodo incompreensível Não dá para comparar um rato a humanos nesse sentido literal, mas dá para se ter uma noção do que seja a tortura e a pena de morte humanas, do ponto de vista do algoz. Que sentimentos será que tem uma pessoa que tortura deliberadamente um semelhante ou lhe mata, seja através da pena legal, consentida, seja através da fúria momentânea ou da premeditação? Acho que encontrei uma finalidade para a existência desse animal, para mim o mais nojento e asqueroso do reino. O rato firmou as minhas convicções já antigas de abominar gestos humanos de crueldade e barbárie.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

O CONTO DO COCÔ DE CACHORRO

A casa inteira já estava acostumada aos hábitos do cão. Assim tem sido desde que o homem resolveu que os animais passam a ter uma certa primazia em sua vida. O padrão ideal que tem feito um tremendo sucesso na atualidade é uma família média, casal com dois filhos e um animal doméstico. De classe também média em modos de consumo e poder aquisitivo, de pensamentos médios acerca das problemáticas solúveis e insolúveis da existência. Desde, claro que morem em condomínio onde o regulamento permita animais ou tenham as suas próprias casas independentes. A casa se adapta aos hábitos dos bichos para não deixá-los estressados, Para isso, quero dizer, estressados já bastam os donos que andam as turras com seus semelhantes e com raiva do mundo. Os bichos precisam sempre estar com aquela abanada alegre de rabo para demonstrar que tem alguém que gosta dos humanos. Os cachorros gostam muito. Ainda mais se forem bem tratados.



O cão da casa, desde que largou as tetas da cachorra sua mãe estava habituado a comer apenas ração por decisão de harmonia da família. Coisas de gente que não gosta daquele cheiro insuportável de cocô de cachorro que come carne e restos de comida dos donos pelo terreiro. Mas a preguiça, sendo mãe do progresso, é também algoz dos próprios preguiçosos de vez em quando. O cão, chegado às mordomias da casa, entrava em todos os cômodos e ficava em volta do fogão ou da pia quando alguém preparava uma comida qualquer. Acabava ganhando um pedaço de qualquer coisa e já não dava mais sossego se não ganhasse um pedacinho de carne, um miolo de pão com manteiga, legumes, talos de verduras; até salgadinhos e refrigerantes lhe davam de vez em quando. Família é isso, não esqueçamos. Essa união indissolúvel que os animais domésticos construíram com o ser humano desde épocas muito remotas e turbinadas agora , na modernidade pela solidão e indiferença dos homens uns com os outros. Então, êta cão para comer comida! Já estava ficando viciado num prosaico prato do dia e a ração durava meses. Tanto que chegava a perder a validade. Ele tinha lá nos terreiros da casa seus cantinhos de fazer as necessidades. Exceto quando era período chuvoso. Cão danado. São Pedro cismava de lavar o seu território e então ele escolhia outro qualquer, desde que estivesse sequinho.

O seu dono, o Jurandir, o mais médio e vistoso exemplar da classe média era muito escovado, cheiroso, alinhado no trajar e outras periquitices que a vaidade humana vai aderindo com a oportunidade que lhe é oferecida no mercado da beleza. Os seus sapatos, sempre muito brilhantes, eram de bico mais fino e depois mais retangular, conforme a moda ia evoluindo para o caricato ou não, dependendo de cada onda que a televisão mostrava de padrões de beleza ou a verba que a família tinha disponível. Naquele dia tinha uma reunião importantíssima no escritório e estava atrasado. Tomou o banho habitual da manhã, seu café e saiu na correria tão corriqueira dos dias de hoje. O ônibus também não variava. Nos horários de pico, lotado. Então era comum um cheiro ou outro destoar daqueles corpos amanhecidos com aparência insuspeita. Segundas feiras, muito cheiro de álcool nos hálitos e no resto da semana os mais comuns. De perfumes a sovacos menos perfumados e hálitos não muito aproximáveis. Mas tinha um cheiro estranho naquele dia. Olhou, cismado se eram as solas dos sapatos e viu que não era com ele. Foi-se, preocupado com o horário. Chegou e a reunião já estava para começar. Não era somente ele o atrasado.



Uma pausa. A vantagem hoje na correria das cidades é que você marca um compromisso e se atrasar, provavelmente o seu interlocutor também vai, afinal o trânsito é bastante democrático em termos de fornecer o caos. Só mesmo quem possui helicóptero escapa dos engarrafamentos. Esse já está numa classe acima da média. Ou então se sair de casa ainda na madrugada. Esse já está numa classe abaixo da média.



Bom, então o Jurandir teve tempo de refrescar-se em frente ao ventilador da sala da secretária para espantar um pouco do suor que lhe incomodava as belezuras da indumentária. O cheiro continuava muito próximo a ele. E agora incomodava a todos que aguardavam na sala e olhavam-se entre desconfiados e constrangidos. Com a chegada do chefão, eis que entram todos para o local da reunião. O cheiro lá, impregnado nas narinas. Ninguém identificava a origem do catingueiro, então poderia ser com qualquer dos presentes, exalando de algum ponto não localizado. Aquela firma, como não era do ramo de alimentos nem de cosméticos ou ainda de produtos de higiene, concluiu a sua reunião estando todos com cara de cismados. E o Jurandir só viria a saber que era com ele de volta à sua sala, sozinho mas acompanhado do odor. Trancou a porta por uns instantes, tirou toda a roupa, cheirou-a e ao tirar os sapatos é que descobriu que havia pisado com a pontinha do sapato no cocô do cachorro de modo que não dava para ver levantando-se a sola. E o cocô se instalara ente a sola e a costura do pé esquerdo. O clima ia ficar ruim para o cachorro quando ele voltasse para casa, o que fez imediatamente de táxi e descalço, com os sapatos providencialmente embrulhados em um jornal velho.



P.S:

Este é um conto de quase ficção. Qualquer semelhança com fatos ou situações da realidade, eu mudei o nome do Jurandir.

sábado, 8 de maio de 2010

MÃE CORUJA

Vilma foi à feira livre com uma disposição alegre. Despertou num daqueles dias em que nem o cinza das nuvens muda a cor do humor da gente quando acordamos com alegria para o mundo. Na feira livre, há a oportunidade do contato com as coisas da terra, que têm um poder mágico, senão de aumentar, pelo menos de manter a disposição. Fora a chance de poder estampar no rosto a satisfação para todo mundo ver que a vida pode ser bem melhor do que pensar nas metáforas de abacaxis e pepinos ou dar uma banana para alguém. Comprou, comprou e acabou o pensamento numa boa ação. Afinal, dar bananas para alguém não quer necessariamente dizer que esse alguém não vá ficar feliz, sendo bananas de verdade, longe das alegorias do gesto bananoso de mandar alguém se ferrar. Era isso, enquanto comprava as outras verduras, legumes e frutas, pensou na sua filha. Gostava de bananas. Fazem muito bem para a saúde física e mental dos adolescentes em fase de crescimento. Possuem fósforo, sódio e potássio, sais minerais essenciais aos meninos e meninos se desenvolvendo e estudando. Comprou um pouco a mais do que costumava e como passava pela porta da escola da filha, resolveu entrar um pouquinho. Foi assim que a Vilma me contou.

– O que a gente não faz para alegrar os filhos, né? Era a hora do intervalo para recreio e podia muito bem fazer uma surpresa agradável para a Brisa, a menina que gostava tanto da fruta tropical. As caturras então, hum!!!



Distraída nas conversas pelo pátio da escola no meio das amigas, provavelmente falando de alguma professora ou de matéria fácil ou difícil, muito ao contrário do que pensam os adultos que acham que elas ficam fofocando sobre meninos bonitinhos da escola ou da rua. Não entendem nada do mundo sério e preocupado com os estudos. Esses adultos! Quanta maldade! De repente, alguém avista a sua mãe e a avisa. Ela sai logo correndo em sua direção, pensando ser notícia ruim. Como comparecer àquela hora, interromper “aquele assunto” se não fosse para trazer uma má notícia, quem sabe até buscá-la para ir lhe confortando pelo caminho para absorver melhor o impacto dos acontecimentos? Mas o sorriso da Vilma radiante desfez a suspeita. E mais ainda quando ela lhe entregou o embrulho. Uma penca de bananas, ali, no recreio, no meio de toda a turma. A menina foi ficando rosada e avermelhando à medida em que a vergonha se misturava com a raiva. Meu Deus, como pode ser insensata! Me trazer bananas na escola, na frente de todo mundo, ainda por cima me fazendo parecer uma criança?

_ Mãe eu vou fazer de conta que nem te conheço. Foi tudo o que conseguiu dizer, saindo em disparada para a sala de aula. E a Vilma nem teve tempo de falar que era um lanchinho para reforçar sua alimentação. Para a menina, o maior mico de toda a sua existência.

– Pode véi, uma mãe dessas!!! Foi o que ela me contou depois.

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Este texto ia fazer parte de um concurso promovido pela Rádio Bandnews: MÃE CORUJA (Mães sem noção, um mico inesquecível). Era para ser narrado ao vivo lá na rádio, mas preferi escrever para não cair no esquecimento da família.



E com ele homenageio a todas as mães no seu dia. Que seja ele feliz juntamente com todos os demais.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

AS PEDRAS NO CAMINHO

“No meio do caminho tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio do caminho...” (Drummond)





Quando está tudo às mil maravilhas, aquelas coisas ou fatos que não servem para nada, não ajudam em nada e também não atrapalham em nada, a tendência é nos comportamos diante delas na base do “deixa pra lá”. Só passamos a questionar se por acaso em algum momento vierem a nos incomodar. Ou se nos sentirmos prejudicados pela sua localização ou função ou objetivos. É fruto das individualidades extremadas da nossa conduta ou falta do hábito de pensamentos mais holísticos? Sei lá, só sei que tem uma coisa me incomodando mas eu não tenho o hábito de pensar apenas em mim.



As instâncias de justiça em geral são três. A primeira é onde fazemos a queixa imediata do problema que está nos afetando, com a tal da petição. Daí em diante, as partes envolvidas, quem reclama e quem é reclamado, quase sempre recorrem, se a decisão não lhe é favorável e se não há possibilidade de um acordo. E recorrem para uma segunda instância. Novamente há uma decisão, mas a possibilidade de acordo está sempre presente. Não havendo, novamente pacto, uma das partes vai recorrer para a última instância que é o superior tribunal ou o supremo tribunal. Eu pergunto? Para que serve a segunda instância? Não estou perguntando a advogados nem a juízes, pois imagino a resposta que deles vou obter. Pergunto é aos potenciais reclamados e reclamantes qual a função dessa instância mediadora?



Tem muita corrupção nos meios da justiça, do legislativo e do executivo, estamos todos exaustos de tanto saber. Mas, cá pra nós, tem uns mecanismos que poderiam diminuí-la bastante. Um deles seria acabar com essa instância frágil do judiciário, a tal da segunda instância. Frágil tanto no sentido das sentenças que proferem (que podem voltar para primeira instância como podem seguir para a instância máxima), como frágil no sentido da maior suscetibilidade às tentações de corrupção e desvirtuamento da função de se fazer justiça. Vou dar um exemplo bem direto para facilitar o entendimento. Você propõe uma ação contra uma empresa de seguros por uma cobertura que ela se recusa a fazer. A seguradora tem atuação de âmbito nacional, a sua sede está num estado diferente do seu. Passou o julgamento da primeira instância, uma das partes não aceitou acordo nenhum. Para que recorrer-se a uma instância intermediária? Por favor, advogados e juízes, só respondam se não tiverem interesses imediatos de carreira ou ascensão profissional. Isso aqui é um reclame de um cidadão apenas. Nos casos em que a demanda é de âmbito estadual, ainda assim não se justifica, já que os tribunais superiores tem atuação de âmbito nacional. Não deve ser à toa que a instituição se chama Justiça Federal



Eu nem preciso recorrer a dados estatísticos de processos no Brasil, para dizer que todas as pendências que não chegam a um acordo vão parar nas instâncias superiores, afinal, os juízes do Supremo e do Superior Tribunal de Justiça vivem reclamando publicamente de excesso de processos em suas mesas, motivo que alegam quase sempre para a lentidão de suas decisões.



Eu bem que gostaria de saber de todo mundo que já reclamou na justiça ou foi acionado por outra parte, se ficaram satisfeitos com uma decisão de segunda instância, não procurando recurso superior. A você, leitor, que está aturando essa lamúria de um reclamante injuriado, meu muito obrigado por chegar até aqui e meus votos para que nunca precise de uma pendenga na justiça. Porque se ela chegar a passar pela segunda instância vai saber o motivo para que eu tomasse seu precioso tempo.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

COINCIDÊNCIAS

Peço licença à Tânia Alvariz, uma escritora amiga, do Recanto das Letras e vou começar esta crônica como ela sempre gosta de iniciar algumas das suas: “Cada coisa que acontece na vida da gente...“ Na última segunda feira, eu fui buscar a minha filha na saída da escola e, chegando um pouco mais cedo fiquei ali no portão coçando o... cabelo da cabeça enquanto pensava qualquer coisa amena para um dia de muita chuva. O carro havia ficado meio longe, estava caindo muitos raios, o portão da escola ainda fechado e só havia umas árvores, que segundo os meteorologistas, não é o lugar mais seguro para se esconder. Como o calor era intenso, resolvi encarar o toró, já que avistei uma pessoa que me pareceu familiar e na mesma situação. Eu o olhava de soslaio e ele também. Alguém tinha que tomar a iniciativa e eu tomei

- Você não é o Rodrigues?

- Sim, sou eu mesmo. E você é o Zé Cláudio, suponho.

Daí para frente, nós atualizamos vinte e cinco anos em quinze minutos de conversa. Era o cúmulo da coincidência esse encontro, pois fazia naquele dia, exatamente vinte e cinco anos que eu me despedia da empresa onde trabalhava e me mudava para outra. Ele, na época, era o que se chamava chefe do setor de pessoal, hoje mais conhecido como RH. Depois soube que ele também havia saído da empresa, formou-se advogado e botou banca na praça. O Rodrigues se destacava mais pela bisbilhotice do que propriamente pelo seu ofício. Ele agia como se fosse uma espécie de tutor da vida alheia sem ter sido nomeado. Me lembro que sempre ia à sala onde eu ficava para saber detalhes de minha vida com objetivos não muito transparentes. Eu era muito novo e tinha muito medo de perder o emprego, portanto respondia apenas com evasivas às suas abordagens invasivas. Desde o dia em que me perguntou se eu não achava que o meu salário era muito alto para a minha pouca experiência, eu disse que nesse caso, ele teria que perguntar ao meu chefe imediato, pois ele seria o responsável. Achei provocativo pelo fato de que mal dava para pagar minhas contas; eu fazia horas extras o quanto pudesse para aumentar a renda no fim do mês. Nem falei da minha competência para não “criar um clima”, apesar de ter me sentido ofendido gratuitamente.



No encontro vi que depois de tanto tempo ele não perdera a classe: Destacou a minha barriga crescida, meus cabelos brancos e quis saber do que eu vivia. Ainda bem que não deu tempo de responder. A rua onde fica o colégio é um pouco íngreme, havia um carro parado em fila dupla e uma mulher num carro que vinha logo atrás sentiu-se mal ao volante batendo na traseira desse outro. Então ele correu até lá para dizer a ela que estava totalmente errada e só deu conta do estrago que fez (já não bastava os dos dois veículos) quando ela saiu e ia caindo desfalecida, tendo que ser amparada por ele nos braços. Ligamos para o resgate e nesse meio tempo soou a campainha da escola. Ainda bem que a minha filha veio rápido. Depois de vinte e cinco anos, o que eu imaginei que poderia ter sido um grande encontro de homens amadurecidos, se revelou numa infeliz coincidência.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

PRIMOS

Recebi um e-mail da Gabriela minha sobrinha num endereço que mantemos para o grupo familiar trocar mimos virtuais. Lavações de roupa suja também, de vez em quando. Criamos o grupo para fazer como a gente faz aqui, por exemplo, na blogsfera. Aproximar as pessoas. A família é muito grande e dispersada. Então esse é um mecanismo que nos mantém atualizados das coisas importantes do cotidiano de cada um e diminui bastante as ligações telefônicas. Os grandes e festivos encontros continuam a acontecer lá na sede, em Itabira, na casa principal da família junto ao patriarca, ou na casa de uma irmã, que por sinal é a mãe da Gabriela. As minhas sobrinhas, quinze meninas ao todo, tomaram a dianteira em relação aos meninos que também não são poucos – onze - e resolveram fazer um encontro de primas, marcado já para o próximo mês. Não sabemos ainda se se trata de um clube de luluzinhas. Deve ser um congresso para oficializar o inevitável domínio feminino no clã? Elas mantêm um doce mistério sobra a pauta da reunião. Apenas pediram que fossem servidas de acordo com o cardápio que elaboraram e mais não se sabe. De qualquer maneira, o que eu acho mesmo é que a iniciativa, seja que finalidade tiver, uma vez que para briga eu tenho certeza que não será., dá, de certa forma uma continuidade ao desejo da matriarca que disse antes de nos deixar ser um dos seus maiores sonhos nunca ter esse laço familiar desfeito. Os meninos vão dar o troco, tenho certeza e estimulo. Claro que eles também vão querer manter acesa a chama. E depois, quem sabe não se realize um tremendo encontrão de todos? Eu vou estimular também, meus irmãos e irmãs vão fazer o mesmo, não há dúvida.

Sinto uma alegria desmedida com essa ação e me pus a lembrar: eu tenho muitos primos, mas a convivência com eles é quase nula. Na infância, havia uns primos que moravam numa fazenda e a gente passava férias lá. Brincávamos juntos, aprendíamos com eles umas coisas do campo, ensinávamos umas da cidade e só. Muitos foram agregados em nossa casa. Vinham para estudar, vinham para refrescar os pais que tinham dificuldades de lidar com adolescências rebeldes, mas ficou só nisso. Na cidade também havia muitos. Paradoxalmente, no entanto, tínhamos menos convívio com eles do que com os da roça. Nunca tivemos afinidades a ponto de tornar a relação de parentesco em amizades ou de dar continuidade àquelas cumplicidades que há entre muitos primos e primas que a gente vê por aí. Uma ou outra exceção ainda permanece, mas nada que se compare ao que vejo hoje em minha família. Quase trinta meninos e meninas cuidando para manter uma tradição, já que os ascendentes estão envelhecendo. Estão tendo uma bonita e harmônica compreensão do ciclo da vida. E o mais caro e fundamental: a manutenção da estrutura familiar. Eu torço muito para que seja levada até as últimas gerações.

domingo, 2 de maio de 2010

PODE SER SORTE

As coisas quando estão muito difíceis, fertilizam a imaginação e costumam facilitar o surgimento de manifestações intuitivas na gente. Às vezes, instintivas, aqueles gestos que atropelam a racionalidade e nos fazem apelar para o mais cômodo e rápido a fim de salvar a pele. Nesse último caso é o que popularmente conhecemos como desespero. Por exemplo, se você tiver um dinheirinho contado para pagar a conta de luz ou de água, nunca o arrisque num jogo de loteria naquela confiança exasperada de que vai dar certo. Pode até dar. Mas é uma chance de acertar em mais de onze milhões. Enquanto a chance de a concessionária lhe cortar o fornecimento é de cem por cento na falta do pagamento, entendeu?



A mulher estava desempregada, tinha até curso superior e alguma experiência, mas estava desempregada. Hoje em dia não bastam títulos, nem experiência. Em muitos casos, tem que ter uma indicação das boas, pouca idade e outras qualificações acessórias. Senão terá que contar com a sorte. Pois é de sorte que eu vou falar. Pelo menos da crença nela na hora em que todos os seus predicados deixam de funcionar a seu favor para as coisas darem certo na vida.



O marido já estava aposentado, é verdade, mas a renda era pouca. Pagavam aluguel e o proprietário pressionando o tempo todo para aumentar o valor da locação. As despesas gerais só aumentando, os cortes de gastos aumentando na mesma proporção e o dinheiro cada vez mais escasso. Tinham sim, um carrinho velho, quase quinze anos de uso, mas ele era uma espécie de ajudante de ganhos. Nenhum luxo, portanto, não podia ser sacrificado para fazer caixa. Levava a mulher para lá e para cá quando ela arranjava algum serviço avulso, daqueles de “pegar ou largar” ou ter que disputa-lo com muita gente. Nessas horas é que aquele ditado funciona: “ quem chega primeiro à fonte bebe água limpa”. O carro era o condutor para os caminhos da fonte. Mil cilindradas, mas ligeirinho.


 
Naquela noite havia um desses serviços para ser feito em casa, porém com o compromisso de entregá-lo no outro dia cedinho. Dinheiro certo, bom pagador o cara que encomendou. Ficara ali no computador até altas horas, o marido já dormindo com a tv ligada e subitamente ela chega ao quarto esbaforida, acordando-o com uma barulhada e deitando-se enfiada totalmente sobre o edredom. Disse que havia uma barata voadora lá na sala do computador. Daí a pouco, volta ela a acordar o marido.

– O bicho veio para o quarto, mata ele!

– Desligue a televisão, esses bichos noturnos vão para onde tem alguma luz.

Apagou mas não se contentou por mais do que quinze minutos. O marido já estava ficando impaciente. Resolveu levantar-se e despachar o bicho, senão ia ser a noite inteira com sono interrompido pelos faniquitos da mulher. Quando acendeu a luz era uma esperança. É isso mesmo, aquele inseto que dizem trazer a sorte quando estão se aproximando da gente. Ela foi lá no cantinho de trabalho da mulher, depois a acompanhou para o quarto. Agora pode ser tarde demais, o marido pegou a esperança e a defenestrou, literalmente. Tomara que a sorte não tenha ido junto.

sábado, 1 de maio de 2010

CONTO DE UMA MINA APENAS

“En la mina El Tarancón



se mataron onze obreros


Mira madre, como viengo



Se mataron cuatro picas


con sus hermosos rampleros


Mira madre, como viengo





Vengo bañao de sangre


De esos pobres compañeros


Mira madre, como viengo





Moreda y Caborana


De luto se vestio entero


Mira madre, como viengo





Mañana son los entierros


De esos pobres compañeros


Mira madre, como viengo” *



*O nome do grupo, Tarancón, era também o nome de uma mina de carvão na Astúrias, Espanha que desabou ocasionando a morte de onze trabalhadores (história contada na canção En la mina el tarancón).

Fonte: wikipedia (pesquisar por Grupo Tarancon)



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Ele havia chegado atrasado. Durante quase dezesseis anos participou de quase todos os encontros naquele recinto. Se faltou duas ou três vezes era por qualquer motivo de força maior. Nem só pelo fato de ter sido diretor, mas por achar importante fazer parte dos eventos onde uma coletividade se unia em voz e pensamento (além de votos, claro) para decidir seus rumos, fazer suas reivindicações, expandir os conhecimentos que podem caber em mentes tão fecundas mas tão pouco utilizadas, feito latifúndios improdutivos. Naquele dia, por incrível falta de coincidência, a reunião começara no horário certo. Talvez as coisas tenham entrado nos eixos depois que saiu. Afinal agora já são passados nove anos desde a última vez que compareceu. No imenso salão havia umas centenas de cadeiras enfileiradas e muita gente teve que assistir de pé, ou se quisesse e tivesse pernas com joelhos ainda maleáveis, poderia se sentar no chão. Fizera isso tantas vezes nos primeiros tempos, quando todos ainda eram mais jovens... Muitos até mesmo preferiam o contato do chão para dar lugar aos mais velhos ou mais cansados depois de um dia suado no batente da mina. Mas agora, aquele evento era exclusivamente para os aposentados e as pensionistas. Então, de pé, correu os olhos num ângulo giratório com o pescoço para observar a todos e rever as velhas caras com as quais havia convivido por mais de vinte ininterruptos anos, dia a dia ou noite a noite, dependendo do turno de trabalho em que estava escalado. A empresa sempre funcionou diuturnamente. Nisso, o pensamento começou a girar no ritmo em que a cabeça com os seus olhos pasmos iam vendo um a um dos seus antigos companheiros de trabalho. Muitas calvícies, muitas barrigas enormes, muitos óculos de grossas lentes e, na medida em que o olhar ia se deslocando do centro da multidão para as beiradas do enorme salão, o cenário ia ganhando um visual mais medonho, não chegava a ser estarrecedor, mas também não deixava de assustar.



Um Iuri, que havia sido seu supervisor nos primeiros tempos, apoiado em uma espécie de andador de criança, com uma parte da perna direita amputada; dois colegas que não o reconheceram, lhe perguntando o nome e alegando que a idade estava pesando nas suas memórias. Nos seus cinqüenta e poucos, no máximo sessenta anos, aquilo parecia ser mais um sinal de um Alzheimer se instalando. Aqueles dois homens que passaram vinte, até quase trinta anos apertando botões de liga e desliga e vigia. Liga, vigia, desliga. Desliga, liga, vigia. Vigia,... E não se aprendeu outra coisa senão pensar em ligar, desligar e vigiar máquinas peneirando, lavando e selecionando pedras de minério por tamanho e teor de pureza. Bem à frente, nas primeiras filas de cadeiras o Zé Demais e o Toni interrompendo a fala do orador a todo momento, perguntando exatamente o que estava sendo falado. Era talvez efeito da surdez adquirida por anos e anos a fio submetidos a dezenas ou mais que uma centena de decibéis de barulho das máquinas. A proteção para os ouvidos com os abafadores de ruído é coisa recente, comemorada pelas empresas como um grande avanço nos seus cuidados com a sua “mão de obra”. Apenas o cumprimento de uma lei que levou anos para “pegar”. Agora já nem são mais tratados como mão de obra: são todos colaboradores ou parceiros. Claro que os donos, esses imaterializados e inominados acionistas, provavelmente estarão na Avenida Atlântica, na Avenida Paulista, na Quinta Avenida e outros endereços onde haja pregões e os peões no chão ou no buraco da mina. Colaboradores e parceiros.



Do outro lado, o Prado saiu em sua direção para um efusivo cumprimento, como quem parecia sentir saudade por longa ausência. Um forte aperto de mãos teve que ser substituído por um abraço que transmitia mais calor, afinal sua mão agora possuía apenas três dedos, os outros haviam sido arrancados numa manobra perigosa de uma guilhotina de cortar chapas há alguns anos. As pessoas não gostam de se cumprimentar apertando a mão esquerda. O assombro maior foi constatar a presença de tantas jovens viúvas: as “pensionistas”, agora tratadas dessa forma pelo instituo da previdência. Tantos antigos colegas que se foram nesse meio tempo e aquela vontade constrangida de perguntar pelos maridos. Tarde demais.



Voltemos ao olhar: Lembrava um hospital de campanha num filme em que a guerra estava ocorrendo lá fora e ali se reuniam os seus feridos, mutilados, enlouquecidos, atormentados por uma depressão que vem não de crises provocados por questionamentos existenciais e sim pela opressão pura e simples. Opressão que garantia a sobrevivência diária em forma de alimentos, escola para os filhos e algum conforto, mas era uma obrigação cumprida quase a ferro e fogo pelas políticas de resultados que a alta direção e os acionistas ditavam lá nos canais de comunicação internos, nas reuniões setoriais e no dia a dia com os chefes, capatazes responsáveis por emitir os boletins de perdas e ganhos de quantas toneladas/homens/hora podiam ser contabilizados nos polpudos lucros e nas bolsas de valores do mundo inteiro. Este outro cenário, absolutamente alheiro à atividade mineraria, de temperaturas amenas, mais ou menos a 22 graus controlados pelo controle remoto do ar condicionado numa sala qualquer de uma corretora de valores ou nos escritórios dos donos, é que alimenta as redações da imprensa com propagandas positivas de responsabilidade social. Tem sido assim a todo momento.

Aquele não era um cenário de um pós-guerra, tampouco um visual de terra arrasada após um cessar fogo. Era apenas uma assembléia de ex-trabalhadores de uma grande empresa de mineração. É que dizem por aí que o mercado interno e as exportações fazem a riqueza da nação. De uma pequena nação de uns poucos homens muito endinheirados.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

EMBROMAÇÃO

A língua portuguesa é um tanto difícil, isso é um ponto pacífico. A dificuldade, no entanto, não chega a ser uma unanimidade, pois há quem a domine absolutamente. Graças a esses poucos seres ungidos de clarividência vernacular, vamos caminhando trôpegos, mas em frente na nossa comunicação escrita e oral. Seja falando ou escrevendo os deslizes são inevitáveis. Volta e meia maculamos impiedosamente a língua pátria. A comunicação vem sendo estabelecida ao longo do tempo e apesar de tudo, embora de vez em quando uma ou outra vírgula fora de lugar ou ausente possa provocar estragos irreparáveis ou perda de oportunidades.
Você poderá dizer agora, por exemplo:
- Não quero saber disso!
Ou então:
- Não, quero saber disso! Faz toda diferença. Há quem se incomode e há quem não se incomode com tantas regras, desde que a comunicação cumpra seu papel essencial de transmitir e receber uma mensagem codificada nas letras ou nas palavras. Há as formalidades onde ela é exigida em seu uso correto e outras situações em que os interlocutores podem se colocar à vontade na expressão, como ocorre corriqueiramente no dia-a-dia da maioria. O mau costume para uns pode se tornar um incômodo e para outros virar motivo de gozação. Eu me enquadro nesse “outros”, primeiro por ser um gozador nato e segundo porque eu também não sou nenhum Professor Pasquale.

O gerúndio é um desses casos que estou pensando seriamente se não deveria fazer constar no rol de queixas do procon por suas ofensas aos ouvidos mais sensíveis. Algo que não seja pedante em termos de reclamação quanto à correção, mas pelo menos uma inclusão que possa ser encaixada entre poluição sonora e insalubridade. Depois de estar sendo indevidamente violentado, foi ganhando uma feiúra insuportável.

Eu sei que você não vai estar chegando ao final da leitura desse texto pois já desde o início vai estar achando-o muito chato. Até o corretor gramatical do word, que não é lá grande coisa nem confiável sublinha quase tudo que estou escrevendo. Deve estar “se achando!” Pois, se você andou vindo até aqui, vá se preparando. Daqui pra frente eu vou estar falando num tom que poderá ir lhe irritando.

Celular, telefone fixo, internet, tv a cabo são exemplos de embromação que vou estar lhes passando.Dá para se ir tendo uma vaga idéia de quem andou inventando a fala que nunca chega ao fim. Parece que está sempre caminhando enquanto fala. Acredito ser o pessoal dos call centers e telemarketings. Porque eles estão sempre caminhando na nossa frente a fim de estarem sumindo de nossas queixas e ficarem evitando de estarem resolvendo os nossos problemas enquanto estamos reclamando de alguma coisa não atendida ou serviço não executado, ou cobrado sem ter sido executado. As atendentes não estão nem ligando se quem está do outro lado da linha é uma pessoa ou não. Vão mandando a gente estar aguardando enquanto vão estar consultando o departamento responsável. E com uma musiquinha insuportável que vai estar tocando, vão nos enrolando.

terça-feira, 27 de abril de 2010

LANÇAMENTO DO LIVRO A VIDA DO BEBÊ-SEGUNDA PARTE-DE 40 PARA FRENTE

Foi no dia 20 de abril aqui em BH, no Café e Livraria Status
Obrigado a todos!!!!
Alegria total!
(OBS: Vai dar uma impressão de que há fotos repetidas, mas é por que havia 2 pessoas fotografando lado a lado e muitas fotos ficaram parecidas.)



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Caso alguém que tenha aparecido nas fotos não autorize a sua divulgação, é só me enviar um e-mail (kkadao@gmail.com) e eu a removo imediatamente

AMANTRIMÔNIO *

PROJETO DE LEI QUER RESPONSABILIZAR AMANTE POR EVENTUAL PENSÃO ALIMENTÍCIA.

Com o objetivo de estabelecer justiça em caso de separação por infidelidade, o deputado pretende responsabilizar o amante pelo pagamento de uma possível pensão alimentícia. Paes de Lira afirma que sua preocupação é para com a parte mais prejudicada, o traído, que muitas vezes acaba sendo injustiçada.
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Fonte:
http://delas.ig.com.br/comportamento/projeto+de+lei+quer+responsabilizar+amante/n1237545065603.html
12/02/10
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A CRÔNICA

Eis aí uma daquelas situações em que por uma decisão de foro íntimo, você pode ir parar no fórum público.

A pessoa é agraciada com um presente, no caso, uma outra pessoa, que se torna então, sua amante. Agraciada, sim! Não acredito que alguém saia por aí com o propósito deliberado de arranjar amante. Acontece. Ou estou por fora? Amante sendo quem ama, poderá ser qualquer dos dois. Isso é o que vão alegar os advogados de defesa de ambos os lados na hora em que a queixa da pensão for parar na mesa do juiz.

Eu vou iniciar uma campanha para coleta de assinaturas – será que consigo um milhão? – para que se coloque no código civil a união legal dos amantes com o nome de “amantrimônio”. E depois vou, com o tempo, ver se consigo que no Aurélio ou no Houaiss passe a constar a palavra como o casamento escondido, porém com todos os direitos legais em caso de desmanchar-se a união dos amantes. É uma baita evolução nas relações sociais esse projeto do deputado, uma vez que a traição já é fato consumado. E aqueles casos em que o cara é tão assíduo de sua amante que a própria mulher é que passa a ser a eventual? Você poderá dizer: a oficial será sempre a oficial. E eu vou lhe dizer, era apenas no papel, pois com a nova lei a dúvida vai ser evocada na hora das barras dos tribunais.

Por exemplo, dois casos que conheci: No primeiro, Ivonaldo casou-se e amancebou-se. Constituiu numerosas famílias dos dois lados. Quatro filhos com uma e três com a outra. Chegava do trabalho todos os dias, ia direto ao supermercado, fazia as compras e levava para casa oficial. Tomava um banho e lá vai Ivonaldo de novo ao supermercado às compras para abastecer a despensa da outra. No segundo caso, Araken casou-se e amasiou da irmã da própria esposa. Também sustentava as duas casas. Chegaram mesmo a morar todos na mesma residência - contenção de gastos com a aceitação de ambas, segundo suas próprias palavras.

Como evoluímos, não? A tipificação do adultério no código civil brasileiro é de crime contra a monogamia obrigatória. Essa nova proposta de lei é um passo para a oficialização da poligamia. Não é um julgamento que faço, é apenas um acompanhamento da evolução das relações sociais. Então, se o amante ou a amante é passível de ser penalizado com as responsabilidades da manutenção da casa ou da(o) teúda(o), que se estabeleça também no código civil , o direito legal de ser amante. E aí também não se poderá limitá-lo em número. Serão quantos a pessoa suportar ou quantos tiver capacidade monetária de arcar com eventuais pensões que vierem a ser reclamadas em caso de dissolução do amantrimônio.

Eu fico aqui pensando como é que vão ser resolvidos os casos do Ivonaldo e do Araken.

domingo, 25 de abril de 2010

BRILHANTE!

Eu estava notando meus braços bastante brilhantes, com um pozinho parecendo estrelas. Então pensei: Meu Deus, a sorte está me perseguindo! Estou me tornando do nada uma pessoa brilhante. Vim do pó e o meu resolveu brilhar na minha pessoa, em pele. Pode ser a glória. Mas, de quê? Essas coisas a gente costuma não perceber. É a tal da felicidade que pode estar batendo à porta e passar despercebida. Isso foi por dois dias seguidos.

Eu, como gosto muito de cozinhar, fico sentado ao computador e vou e volto sempre à cozinha, preparo alguma coisa e enquanto cozinha ou assa ou frita, venho, escrevo, leio, navego. Invento fomes, invento pratos ora degustáveis, ora insossos e intragáveis. Nesse meio tempo, a escrita costuma sair meio esquisita também. Escrevi até um versinho certa vez de tão cansado de insucessos literário-gastronômicos. É assim:



POEMINHA TOSTADO


Cozinhando e pensando

Vou lembrando de escrever

Deixo a panela. Lavo as mãos

Sento. Esqueço

A comida vai queimando

E vou perdendo a batalha

Do fogão e da palavra.

Fui alertado pela minha mulher que ouviu minha exclamação de feliz agraciado com o brilhantismo. “Não, isso, é o bordado do pano de prato que eu coloquei para você na cozinha. Ele é enfeitado de purpurina.” Então, meus caros e estimados leitores, se esta crônica não lhes descer bem, pelo menos lhes digo que a comida de hoje ficou brilhante!

sábado, 24 de abril de 2010

UNIVERSOS PARTICULARES

Em 2008 criei um blog e no ano seguinte entrei para o Recanto das Letras. Depois disso, fui confirmando pouco a pouco uma impressão que já me era familiar: a de que vamos criando universos paralelos e muito particulares pelo caminho.

Publiquei um livro e um amigo de longas datas foi uma das primeiras pessoas que o adquiriram. Ocorre que ele não leu. Me confessou que vai ler assim que tiver tempo. Sei que não vai. Se o fizer vai ser apenas para me agradar. Não é menos meu amigo por esse motivo. O hábito da leitura não faz parte de seu mundo e acho que não vai fazer mais. Dificilmente uma pessoa que não criou um costume desse tipo o faça por prazer a certa altura da vida. Ele já está próximo dos sessenta anos e não vai ser o meu reles livrinho que vai lhe mudar os hábitos. No Recanto e no blog a gente tem um público que faz parte de um desses universos dos quais estou falando. O da escrita e da leitura. Pelo menos boa parte das pessoas com quem convivo ou é leitor/a voraz ou escritor/a, ou faz por prazer. O fato é que é um universo. Como há vários em torno de cada um de nós.

Trabalhei uns 20 anos numa empresa e convivi com vários universos particulares. Tinha aqueles que apesar da profissão e de seus afazeres fora do emprego, só viam na vida futebol; outros, só mulheres; outros, só trabalho; outros chegavam a ser mais abrangentes em busca de um universo maior diante de alguma inquietação mental, e assim por diante. Desse modo, eu vejo as pessoas procurando o seu lugar no mundo, batendo cabeça aqui e acolá ou então já se identificando de imediato com algo de que gostam e se sentindo muito bem, se adaptando, se ajeitando e não dando muita pelota para o resto. Não quero dizer com isso, que seja falta de sociabilidade. É apenas um “cada macaco no seu galho” em termos de escolhas, quando elas são possíveis. Neste caso, construímos o nosso próprio universo por gosto pessoal, por afinidades ou então somos engolidos ilusoriamente por algum universo que nos cabe e nos aceita.

As pessoas que costumamos chamar de “gente boa” talvez sejam aquelas cujo carisma que emanam as faça transitar com uma habilidade singular em todos os universos, fazendo deles o seu próprio. E vão mais além, são capazes de aglutinar pessoas de universos diferentes. Estas são deveras especiais de boas. Assim como são especiais de ruins “aquelas outras” com uma enorme habilidade para criarem desavenças, cisões e encrencas. Tem horas que eu até desconfio que ser gente boa seja melhor do que ser famoso em muitos e muitos casos de gente que é e de gente que quer ser famosa! Porque é dureza agüentar quando o universo cisma de querer caber dentro do umbigo de uma só pessoa!

quinta-feira, 22 de abril de 2010

FELICIDADE É UMA CONSTRUÇÃO QUE NÃO PODE TER FIM

A respeito da felicidade, eu não descobri ainda como defini-la em termos de uma vida plenamente feliz. Na minha definição essa plenitude não existe, para o bem da nossa mobilidade em sua busca. É como se quiséssemos alcançar um fim quando estamos voando para o infinito do universo. Estando felizes, haverá uma sensação de saciedade com o vôo, mas o espaço aéreo continuará a oferecer outros lugares muito bons de se ver e outros inatingíveis. Haverá também turbulências durante o vôo. Quedas também poderão acontecer. Mas enquanto estivermos voando, a sensação de alegria que não se explica fica fazendo-nos companhia. Em alguns momentos, os obstáculos e as quedas são para tomarmos partido: queremos mesmo felicidade? Então é hora de resolvermos enfrentar os problemas ou desistirmos de vez. Nessas horas contamos com as nossas forças próprias e com as que se juntam a nós indispensavelmente através do rol de amigos e de familiares, gente que quer o nosso bem, que caminha conosco e ajuda a preparar nossas asas. Então, eu acredito que essa definição provisória é o máximo a que consigo chegar para explicar a alegria que sinto com a vida quando se realiza algum sonho, se materializa algum desejo interior, quando se está ladeado pelas pessoas que gostam da gente e de quem a gente quer bem. E aquelas que não estando de corpo presente, estão de alma e coração fazendo parte de uma corrente imaginária de bem querer. Quando a família está ao lado de onde nunca deve sair, quando a fome e a sede se tornam apenas um detalhe sem importância vital. A gente se sente alimentado por toda substância protéica e vitaminada em que se transforma aquela alegria. É quando se pensa assim: Deus, o Senhor tem toda razão de fazer de nós seres que precisam buscar continuamente as coisas que nos fazem bem em vez de sentarmos à beira de caminho ora pedindo, ora lamentando os infortúnios. Porque você mostra que a tal da felicidade sempre pode estar em algum lugar ou alguma coisa depois que fizermos a nossa parte para que cheguemos ao final de uma reta, de alguma curva do caminho, depois de subir alguma montanha íngreme. Se um dia eu declarar que sou completamente feliz por tudo que a vida proporciona e oferece, é porque a minha vida terá chegado ao fim também. O infinito está sempre à disposição.

terça-feira, 20 de abril de 2010

ANIVERSÁRIO

Hoje é um dia para mim considerado como um nascimento. Passei esses anos todos achando a data que comemora o dia em que nasci como mais um aumento dos anos vividos do que um renascimento. Construí outras formas de comemorar aniversários. Como exemplo, qualquer fato bastante significativo que tenha havido em minha vida. E também os que planejo para o que virá por aí. Teria um monte de datas para lembrar. O meu primeiro emprego, as minhas filhas, casamentos, a primeira casa própria, que já não mais possuo, mas foi meu espaço mais íntimo que consegui ter adquirido depois de muito sonho e muitíssimo trabalho... Enfim, datas que acabaram se tornando mais significativas do que o dia do meu aniversário propriamente. Em todos esses momentos eu encontrei mais importância para o meu crescimento pessoal do que aquele momento da foto e do bolo. Se bem que em todos os outros que falei também houve festa. A questão é do significado que cada um dá para ritos por que passamos na vida. Os presentes que eu ganho são o próprio significado do evento. Naquilo que eu penso ser uma vida que proponho para mim como virtuosa e bem-aventurada. Renasço em cada olhada para dentro quando vejo que estou vencendo o vício da bebida. Em cada vez que as minhas filhas alcançam um patamar de conquistas pessoais, seja na escola ou no trabalho. Em cada reunião de família, sempre prazerosa, saudável e aconchegante. Em cada vez que meus exames de saúde revelam um “apto” para fazer o que eu quiser sem abuso e também sem restrições. Em cada ligação ou encontro de uma amizade que não ouvia ou via há muito tempo. Ou ainda em cada nova e sincera amizade que faço. É tanta coisa que eu poderia citar e que nem interessa para quase ninguém, mas eu continuo achando que tenho muitos aniversários comemorados desse meu jeito e acho que ainda vou comemorar muitos mais, se Deus quiser. Por hoje eu vou ficar aqui, pois há uma comemoração muito especial. É o dia do lançamento do meu primeiro livro. Vou estar daqui a pouco reunido com meus familiares, amigos antigos e amigos novos. Pouca gente, mas gente de muito valor e significado para mim. Mesmo os que não poderão ir e que me felicitaram estarão presentes no pensamento e na minha alegria de saber que os tenho guardados no coração e eles a mim. Vou lá acender uma velinha e soprar com um gostinho de dois de setembro.


sábado, 17 de abril de 2010

O PAPAGAIO DE MULETA, A MULA DE CADEIRA DE RODAS, O PUXA SACO E O DISCO DE VINIL

Geraldinho do Engenho é um grande poeta, um ótimo cronista e um dos melhores contadores de causos que eu conheço. Ele escreve diariamente no Recanto das Letras, para quem ainda não sabe. (Para acessar a sua página, clique: http://recantodasletras.uol.com.br/contos/2178196.) Ele conta umas histórias acontecidas lá pelas bandas de Bom Despacho, e sua enorme região metropolitana, cidade do centro-oeste dessa gloriosa Minas Gerais, onde há muitas fazendas e gente da melhor qualidade. Eu como creio muito na natureza, na sabedoria que o homem vai adquirindo no contato com ela, sem fazer destruição, mas aprendendo, tenho cá também os meus casinhos, que não chegam aos pés do Geraldinho em termos de narrativa de qualidade, mas não deixam de ser igualmente verídicos. Depois que eu li o último dele (O PAPAGAIO DE MULETA E O PUXA SACO) falando sobre um papagaio que andava de muletas e de um moço que queria agradar o patrão arranjando uma cadeira de rodas como castigo para uma mula atrevida, resolvi contar uma história que eu guardo desde a época dos antigos discos de vinil. Pois vamos a ela.

Certa vez lá em Jacaraípe, no Espírito Santo, o rio que deságua na praia trazia muito lixo e trouxe um disco, desses antigos LPs só pela metade. Ele veio descendo na água e agarrou num barranco, de forma que a água ia batendo por baixo lhe fazendo rodar. Então, no dia do acontecido houve uma chuva e caiu um graveto bem ao lado como se fosse um braço de agulha de uma vitrola e ficou riscando o disco. A beira do rio ficava cheia de gente com suas varinhas de pescar e proseando enquanto aguardava uma beliscada de algum peixe distraído ou faminto por uma minhoca. Eu ia sempre lá jogar a minha varinha nem que fosse só para lavar as iscas, pois de pesca não sou lá muito bom. Então, quando se fez aquele silêncio misericordioso que os pescadores se impõem nos seus rituais, havia um som estranho. Repetitivo, chiado e muito estranho. Eu fui caminhando em direção àquele ruído, até que avistei o pedaço de disco rodando com o graveto lhe riscando os sulcos. Você não acredita que dava para a gente ouvir um trechinho da música? Ficava só repetindo assim: "...você não dorme mais no meu colchão, você não dorme mais no meu colchão, você não dorme mais no meu colchão...” Só não deu para ler o nome do autor. Acho que a água havia apagado aquele miolo do disco aonde vinham escritos os nomes das músicas. Depois de um tempo, para não perder a credibilidade, voltei lá na cidade, fiz um relatório, colhi as assinaturas das testemunhas presentes no dia do acontecido e entreguei ao prefeito para que ficasse registrado. Só não sei se ainda está guardado nos arquivos do município.

terça-feira, 13 de abril de 2010

PALAVRÃO

Palavrão é uma falta de recurso muito utilizada. Às vezes, de grande utilidade, em outras, absolutamente desnecessário, ofensivo e inconveniente. Quando lhe acontece um acidente de qualquer natureza é comum se dizer (depois de xingar, claro) que estava no lugar errado, na hora errada. Com o palavrão chulo e ofensivo pode-se dizer também que foi dito na hora errada, no lugar errado e muitas vezes para a pessoa errada. Mas pode também ser uma lavagem na alma, individual ou coletiva. O velho xingamento nos estádios, por exemplo, é uma terapia no meio da catarse coletiva. Até as músicas das torcidas para provocar o adversário são repletas de palavrões. Não sei se pela vontade de aumentar o grau de irritação ao adversário ou pobreza lingüística dos compositores. O fato é que a torcida canta com um vigor fenomenal. Nos filmes do cinema tem palavrões demais. Houve uma época que o cinema brasileiro não gozava de muito prestígio junto à população tanto pela falta de recursos técnicos como pelos diálogos, cheios de palavras chulas. Claro que havia muita desculpa esfarrapada no meio dos argumentos vinda de quem sempre preferiu as produções de Hollywood. Mas isso é assunto para outra sociologia, aquela da aculturação. É, porque os filmes americanos têm mais palavrões do que os nossos. Os tradutores que fazem as legendas é que dão uma amenizada. Pode observar que “fuck you”, é sempre traduzido por dane-se. E “son of bitch “ é sempre o “adorável” filho da mãe.

Eu não quero entrar na discussão árida e descabida da função do palavrão no nosso cotidiano, mesmo sabendo que ele está presente na fala da esmagadora maioria da população. Ele é sinônimo de tudo, raiva pouca, muita raiva, ira, provocação, revide e até nos sustos, alívios e alegrias. Parece automático. É muito comum você ouvir pessoas emendarem um” putaquepariu” com um “pelamordedeus” na mesma frase ou na mesma expressão. A sensação que se tem é de que a pessoa está expurgando males que não consegue resolver de outras formas. O palavrão, então, funciona como uma espécie de válvula de alívio do sistema límbico em permanente estado de acúmulo de tensões.

Eu não o defendo indiscriminadamente, embora ache que um xingamento funciona, em determinados momentos como um freio aos instintos humanos mais próximos do assassinato. Chico Buarque usou em sua música Fado Tropical o verso do poema do Ruy Guerra ”...mesmo quando minhas mãos estão ocupadas em torturar, esganar, trucidar, meu coração fecha os olhos e, sinceramente, chora...” Eu sacaneio um pouco o verso e digo : mesmo quando a minha vontade é de esganar, trucidar, esmigalhar, meus olhos se abrem arregalados e eu, sinceramente, xingo.
Então, meu amigo, minha amiga, se uma pessoa, assim, do nada lhe oferecer flores, pode ser um impulso dos mais admiráveis. Agora, se também do nada, numa conversinha à toa, lhe mandar tomar “naquele lugar”, pode não ser uma ofensa gratuita. Ela pode ser portadora de coprolalia. (palavrão da medicina moderna)

-Psiu: atenção, mulheres: e se um homem chamá-la de calipígia, você vai sentir-se xingada por um palavrão ou lisonjeada?



domingo, 11 de abril de 2010

FABULETA *

Um dia o diabo resolveu dar umas voltas sobre a terra e aterrissou no Brasil. Aterrissou é mentira, posto que veio lá de baixo: então irrompeu no Brasil. Circulou geral e como não podia deixar de ser, andou visitando parlamentos, palácios de governos e outras plagas que abrigam umas pragas eleitas pelo voto. Fez muitos amigos, entabulou muitas conversas, deu conselhos e, principalmente, fez muitos tratados. Disse aos seus pares que poderia lhes oferecer o paraíso se seguissem os seus ensinamentos. O paraíso, a seu modo, claro! Com os seus métodos e também com os seus riscos. Garantia inclusive, que a taxa de risco seria muito baixa, a fim de conseguir bastantes adeptos. Disse também que havia o paraíso prometido, “o outro”, mas esse, quem o desejasse, que fosse se queixar com um bispo, afinal era demorado alcançá-lo e não havia garantias reias. Garantias do tipo as que ele mostrou ao levantar seu saiote, mostrando a cueca e as meias recheadas de dinheiro. Um pacto foi assinado de imediato por muita gente com olhos brilhando e lambendo beiços. Uns já suspeitos, outros insuspeitos até então. No ato da assinatura, no entanto o diabo avisou: - a condição para ser membro desse doce paraíso é que meu nome nunca apareça. Sabem como é, ando meio desgastado perante a opinião pública e isso não é bom para mim e pode não ser para vocês numa eventual reeleição. Então, em todas as suas campanhas, dirão nos comícios e também depois de eleitos, em todos os meios de comunicação possíveis:

A VOZ DO POVO É A VOZ DE DEUS.



* Fabuleta é uma pequena fábula sobre as peripécias do capeta.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

EXERCÍCIO DE DESCONSTRUÇÃO

Acho que estou começando a entender a correria de todo mundo. Não tem um porquê. Tem um começo a partir de um momento que ninguém sabe explicar e deságua num momento que ninguém quer explicar.

Todos correm para ganhar dinheiro, certo? Não é tudo o que é preciso e que importa? Ganha-se dinheiro trabalhando muito, certo? (Estou falando das pessoas normais, certo?) Sobra muito pouco tempo, certo? Muitos pais e mães estão quase a ponto de terceirizar completamente a educação dos filhos, certo?

Drogas, violência e psicopatias sempre foram companhia humana, certo?Tem aumentado o número de jovens envolvidos em casos de violência, certo? Os pais não têm nada a ver com isso, certo? Afinal eles pagam boas escolas, dão conforto, roupas de marca, objetos de uso pessoal de última geração e o que mais os meninos e meninas solicitarem, certo? Os que não têm recursos provindos de trabalho ou berço de ouro recebem uma ajuda governamental, desde que provem que estão freqüentando uma escola, certo? Mesmo que isso não seja um indicador de futuro garantido em termos de inserção no mercado de trabalho e nas melhores universidades, certo? Essa é a maneira mais correta de se viver, segundo está espalhado por quase toda a coletividade, certo? Quando as coisas começam a não dar muito certo, tem-se então em quem e em que colocar a culpa, certo? Afinal, não se está pagando? E não somos todos, em última instância, tratados como consumidores de tudo?

Então, se nada disso está certo, ponto para a tese que defende que uns nascem com uma índole má outros com uma índole boa. Se, por acaso, não houver durante o período de sua formação um sinal que indique de que lado essa pessoa estará no maniqueísmo humano e for previamente tratada, ela será tão boa que vai servir de modelo para a redenção do mundo ou então tão má que vai ser alvo de toda a ira expurgante que nos acomete quando alguém provoca perversidades que nos atingem diretamente ou de alguma outra forma que cause repulsa.

E está muito chata esta minha abordagem, certo? É assim mesmo a construção cotidiana da nossa intolerância: A repetição de equívocos em busca de respostas. Certo?

terça-feira, 6 de abril de 2010

PEDOFILIA *

A igreja católica, com atraso de séculos criou recentemente um canal (apenas na Alemanha) para que as pessoas possam denunciar casos de pedofilia praticada por seus membros. Desde a época inquisitorial, há casos onde os componentes do clero acusados de denúncia de abusos sexuais não receberam o rigor da pena pela igreja conforme seria esperado. Está tudo registrado nos autos do tribunal da inquisição, cujo maior acervo se encontra no Arquivo Nacional na Torre do Tombo, em Portugal.

O próprio Papa já havia se reunido com o clero Irlandês no inicio desse ano para tratar do assunto considerado muito recorrente naquele país. É sabido que a pedofilia é um caso muito antigo, remonta à antiguidade, antes mesmo de Cristo. Em algumas culturas, há casos de emancipação de meninos apenas depois que os mesmos são sodomizados por um adulto membro da comunidade. Faz parte dos ritos de passagem deles1. No nosso meio ocidental, pelo menos, a pedofilia é tipificada no código penal como crime hediondo, entretanto, ocorre entre famílias pobres ou ricas, entre políticos influentes, entre juízes, entre grandes e pequenos empresários, entre trabalhadores e desocupados, e gente comum, entre muitos religiosos de muitas igrejas e não só a católica. Então estou apenas fazendo constatações e revelando alguns dados que pertencem ao domínio da história.

Pode parecer um paradoxo, um fenômeno que beire a escatologia, mas no sentido da depuração de chagas sociais, acredito que estamos é melhorando. As novas tecnologias da informação permitindo o acesso muito rápido a quase tudo o que se faz e se produz no mundo com uma admirável e espantosa rapidez, faz com que o susto seja amenizado quando observamos que a sociedade se mobiliza para colocar um fim nos casos de verdadeiras anomalias graves. No entanto, é essa mesma tecnologia que permite que os agentes da pedofilia se multipliquem em tempo e espaço, utilizando-se do principal meio de sedução de suas potenciais vítimas, no caso, a internet.

O melhor meio para se combater uma anomalia social, creio, é tornando-a de domínio do público através, tanto de denúncias que incitam ao debate e a mobilização social quanto, claro, com a punição rigorosa dos acusados e/ou o seu isolamento com tratamento quando os casos forem de comprovada sociopatia grave ligada a perversões.


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1 – Rituais de pederastia compulsória na Melanésia. – HERDT, Gilbert, Ritualized Homossexuality in Melanésia. Berkeley, University of Califórnia Press, 1984.
* Fontes:
- História da Criança no Brasil, Mary Del Priore (org), Coleção Caminhos da História, Ed. Contexto (CEDHAL), 2ª ed. São Paulo, 1992.
- site
www.todoscontraapedofilia.com.br/.../index.php?...cria...denuncia...pedofilia...
- BBC Brasil -
www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2010/03/100329

domingo, 4 de abril de 2010

HUMOR HERÉTICO

No calvário de Jesus foi assim:

Quarta: Trevas;

Quinta: Endoenças;

Sexta : Paixão;

Sábado: aleluia;

Domingo: Ressurreição.

No moderno capitalismo cristão: todos os dias:
Ovo,ovo,ovo,ovo,ovo.





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Autor desconhecido

sexta-feira, 2 de abril de 2010

ALDROVANDO CANTAGALO E A PORTEIRA FECHADA

Aldrovando Cantagalo é um personagem de um conto de Monteiro Lobato, O Colocador de Pronomes. Nasceu e morreu devido a erros de gramática. O homem que veio a ser pai do Aldrovando cometeu um erro fatal num bilhetinho de amor a uma filha de um coronel e este lhe empurrou a outra filha encalhada e não a moça para quem o bilhete era dirigido, uma belezura de menina! No final de sua vida, ele acometido por uma doentia ligação com a correção gramatical e uma insuficiência renal crônica, sofreu um ataque diante daquela que seria a sua obra prima, um tratado gramatical que explicava o mundo pelas regras da língua quando, pasmem, os cinco volumes saíram da gráfica. Sentença para nascer e para morrer por causa de dois pronomes mal colocados. Os enganos se transformando em verdade ou em sentença condenatória fazem da vida um suplício. Que podem causar apenas transtornos ou chegar ao extremo da fatalidade.

Pois a história que vou lhes contar me faz pensar que esses escritores geniais usam e abusam da imaginação criativa vinda diretamente da suas cabeças ou então associada a algum fato presenciado ou ouvido. Transformam-na em uma peça literária do mais puro prazer de ler, sem nenhum engano. É o caso aqui, do Monteiro Lobato.

Ouvi um repórter citar uma frase na rádio lembrando de sua terra natal e me remeteu à minha infância quando ia passear na roça. E me lembrei também do Maurício de Souza, o gênio dos quadrinhos infantis, com seu Chico Bento e as goiabas do Nhô Lau.

O Senhor Zé Alírio tinha um pomar não muito grande num canto do pasto, este sim, enorme, descampado que possuía muitas jabuticabeiras. Daquelas graúdas, negras da cor dos olhos e de encher os olhos de todas as cores de qualquer criança. E até adultos também. Bravo e de pouca conversa, achava que não precisava nem de porteira para o gado não fugir. Ele mesmo cuidava da vigília diária e mantinha apenas uma porteirinha de três ripas para entrada e saída dos caminhões de leite e sua camionete quando precisava ir à cidade. Quando estava na época da safra ele, que diziam também fabricar vinhos de jabuticaba, não dava e nem vendia para terceiros. Então, colocou a tabuleta com o aviso na entrada, que gerou a correria que fez atrás de mim mais a meninada que foi lá roubar umas frutas.
“Mês tano aberta ou fechada se entrá panha.”
Eu fui lá, metido a sabido e coloquei uma vírgula com um pedaço de carvão depois da palavra “entrá”. E falei para a turma que assim estava liberada a nossa entrada para apanhar umas jabuticabas por ordem do próprio dono. Ainda bem que ele resolveu antes ir buscar o cavalo. Foi nesse meio tempo que a gente se escafedeu e se livrou de uma surra.

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Esta é uma criação a partir da frase “Mês tano aberta ou fechada se entrá panha” (Mesmo estando aberta ou fechada a porteira, se entrar, apanha) que eu ouvi no programa matinal na rádio Bandnews proferida por um jornalista que afirmou tê-la visto escrita em uma porteira de fazenda em Ouro Fino - MG, sua cidade Natal.
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