sábado, 16 de maio de 2009

AEDO CIBERNÉTICO - MEU CARO AMIGO *

Augusto Boal (teatrólogo) estava exilado em Portugal em 1976 em plena ditadura no Brasil. Dizem que ele reclamava que Chico Buarque não respondia as suas cartas. Ai, a genialidade entrou em cena. O Francis Hime havia composto um chorinho e Chico resolveu colocar a letra em homenagearem ao amigo com essa belezura toda.



MEU CARO AMIGO

CHICO BUARQUE E FRANCIS HIME


Meu caro amigo me perdoe, por favor
Se eu não lhe faço uma visita
Mas como agora apareceu um portador
Mando notícias nessa fita

Aqui na terra tão jogando futebol
Tem muito samba, muito choro e rock'n'roll
Uns dias chove, noutros dias bate sol

Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta

Muita mutreta pra levar a situação
Que a gente vai levando de teimoso e de pirraça
E a gente vai tomando e também sem a cachaça
Ninguém segura esse rojão

Meu caro amigo eu não pretendo provocar
Nem atiçar suas saudades
Mas acontece que não posso me furtar
A lhe contar as novidades

Aqui na terra tão jogando futebol
Tem muito samba, muito choro e rock'n'roll
Uns dias chove, noutros dias bate sol

Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta

É pirueta pra cavar o ganha-pão
Que a gente vai cavando só de birra, só de sarro
E a gente vai fumando que, também, sem um cigarro
Ninguém segura esse rojão

Meu caro amigo eu quis até telefonar
Mas a tarifa não tem graça
Eu ando aflito pra fazer você ficar
A par de tudo que se passa

Aqui na terra tão jogando futebol
Tem muito samba, muito choro e rock'n'roll
Uns dias chove, noutros dias bate sol

Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta

Muita careta pra engolir a transação
E a gente tá engolindo cada sapo no caminho
E a gente vai se amando que, também, sem um carinho
Ninguém segura esse rojão

Meu caro amigo eu bem queria lhe escrever
Mas o correio andou arisco
Se me permitem, vou tentar lhe remeter
Notícias frescas nesse disco

Aqui na terra tão jogando futebol
Tem muito samba, muito choro e rock'n'roll
Uns dias chove, noutros dias bate sol

Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta

A Marieta manda um beijo para os seus
Um beijo na família, na Cecília e nas crianças
O Francis aproveita pra também mandar lembranças
A todo o pessoal
Adeus

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* Na antiguidade, como a escrita era pouco desenvolvida, o AEDO cantava as histórias que iam passando de geração para geração, através da música. Depois, veio o seu assemelhado na idade média que era o trovador. Hoje, juntado tudo isso com a tecnologia, criei o AEDO CIBERNÉTICO.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

PREGÃO

No séc. XVIII, nas vilas de Minas, quando morria um sujeito rico ou importante seu cortejo era comandado por um pregoeiro, geralmente alguém que possuía uma voz forte, grave e alta. Ia pelas ruas e distribuía aos berros, ordens, orientações, limitações e mandamentos para o povo. Esse, por sua vez, tinha que cantar alto ou fazer barulho em homenagem ao defunto. O cara ganhava audiência para o morto, literalmente no grito. Essa solenidade se chamava pregão.


Eu, em vez de arranjar um jeito de ganhar algum aos berros, não! Fico aqui tentando achar explicação e relacionar os fatos, procurando origens, escarafunchando a história atrás de esclarecimentos para tantas coisas que vivemos e nem damos conta dos significados. Felizes aqueles que ganham o seu, pouco ou muito e vão tocando a vida sem muitas preocupações filosóficas, gnosiológicas, e outras bobagens da existência.


Ficava curioso para saber o que falavam aqueles corretores que aparecem na televisão na hora que vão dar as cotações das ações das empresas. O que subiu, o que baixou, quantos pontos. Os caras ficam com um telefone gritando cada um mais alto que o outro, que deve ser para ninguém ouvir. Dizem que saem de lá todos os dias afônicos, atrás de gengibre para agüentar o outro dia. Em São Paulo, o comentário é de que a Bolsa passou a funcionar somente a partir de 11 h da manhã exatamente pra dar tempo deles recuperarem a garganta.


Aquele berreiro todo não homenageia nenhum morto rico, mas gente ganhando um dinheirão. Vivo! E quanto mais alto o tom, mais o sujeito deve estar ganhando. É, porque nessa mesma história, quando chega a perder muito mesmo, com a mesma velocidade que encheu os bolsos, o que vemos é o cara se desesperar e se matar ou então morrer de um colapso fulminante. E seus velórios costumam ser tão silenciosos...

quarta-feira, 13 de maio de 2009

PARA GOSTAR DE LER *

Acabo de ler no blog do Sérgio Rodrigues, um excelente texto sobre incentivo à leitura na escola (http://colunistas.ig.com.br/sergiorodrigues/2009/05/12/o-desprazer-de-ler). Há que se louvar as tentativas tímidas e renitentes de muitas delas para o incentivo à leitura entre as crianças e adolescentes.


Eu constato que a dificuldade vem de longa data. Quando estava no ensino básico, tinha que ler pelo menos um livro por mês, para prestar exame ao final, valendo nota. Machado de Assis foi minha primeira vítima de literaturicínio, um homicídio de literatos, que acabo de criar. As crianças o incluíam até nas piadas de mau gosto. Lembro-me de uma que meu irmão mais velho contava (e olha que ele já gostava de leitura!). Era um método para pescar jacarés. O sujeito ia para a beira de um rio que tinha muitos jacarés. Levava em sua bolsa um livro qualquer de Machado de Assis. Sentava-se na beira, chamava um jacaré. Começava a ler para ele até que adormecesse, pois ia achar a história chata. Daí pegava o jacaré entorpecido, amarrava, colocava na bolsa e levava embora. Veja em que isca se tornou o monstro sagrado da literatura mundial.


E escola indica clássicos e famosos para crianças em formação. Talvez queira mais status para si (a escola) do que formar educandos. Como compreender esses autores aos nove, dez anos e gostar de ler? O problema pode ser o método, a forma, as indicações. Acho que foi na época errada, na medida errada o que me mandaram ler. Acabei tomando gosto através dos gibis, dos jornais que via meu pai lendo, dos livros sobre ervas e plantas que via minha mãe lendo. Fico hoje tentando me redimir com o Machado e todos os clássicos ao meu alcance, lendo. Agora, sem nota, sem medida. Puro prazer.


Assim a escola não vai, assim não vai haver espaço nas casas, nos quartos , para livros, ao lado de joysticks, dvd’s, mp 3,4,5,...

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* O TÍTULO SE REFERE A UMA COLEÇÃO DA EDITORA ÁTICA QUE VINHA MENSALMENTE COM CONTOS E CRÔNICAS DE AUTORES BRASILEIROS DESTINADAS À FAIXA INFANTO JUVENIL. ALGUMAS ESCOLAS A ADOTARAM COM RELATIVO SUCESSO

domingo, 10 de maio de 2009

ENTRANDO NA VARA

- Amor, tô indo lá na Vara! Gritou a mulher na porta.

- Opa, pera aí, que negócio indecente é esse?

- Calma, meu bem, é na Vara de família.

- Piorou, além de corno ainda tenho que passar por esse constrangimento? E com alguém da família? É algum irmão meu? Sobrinho? Ou é da sua família? Que é isso, onde estamos?

- Achei que você soubesse. Vara é a separação das especializações judiciais. Tem vara de família, vara criminal, vara civil, entendeu agora? Vou lá buscar um processo. Preciso fazer um laudo pericial.

Ah, bom, meu coração já tava aqui se despedindo. Não iria aguentar um sofrimento desses.

- Se você fosse se despedir de mim por esse motivo, teria que entrar na vara junto comigo. Mas na de família, pois é onde se fazem os divórcios, explicou ela, saindo e batendo a porta impaciente.


Há algumas denominações que nos deixam assim, intrigados, por combinarem a sua função nobre com situações cômicas. E podem se tornar trágicas se não vier uma explicação razoável para que a ignorância no assunto desapareça.


No Brasil colonial, lá no séc XVII, quando ainda nem existiam cidades, as vilas eram administradas por um regime de nomeações de pessoas de posses e títulos concedidos pela coroa portuguesa. Juízes, vereadores e homens da segurança portavam cada qual uma vara que, pelas suas características, distinguia o cargo e conferia autoridade e dignidade. O juiz (que não era do lugar, daí a expressão Juiz de fora) empunhava a sua, branca, com uma cruz sob a qual prestava juramento. O vereador levava outra, vermelha, com as figuras das armas do reino e a dos quadrilheiros (uma prévia do que viriam a ser os policiais), era verde, usada para separar briguentos de rua e efetuar prisões. 1


Não sei por que somente a justiça permaneceu com essa denominação. A polícia perdeu a vara, mas o cassetete continuou garantindo as bordoadas. Já os vereadores, mesmo sem as varas, continuam com o condão, multiplicando-se em número e benefícios, sob a égide da justiça e a proteção da polícia.

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1 – In: Donato, Hernani, História dos Usos e Costumes do Brasil – 500 anos de vida cotidiana. Ed Melhoramentos, São Paulo, 2005.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

CONSEGUINDO A MINHA VIDA DE VOLTA

“Vamos tentar viver fazendo o menos mal possível. Talvez seja a única sabedoria ao nosso alcance.” (José Saramago)


CARTA A ANTÔNIO MARIA SANTIAGO CABAL

Meu Caro Antônio Maria,

Eu acabo de ler o seu livro, seu relato autobiográfico, sua essência humana. Misturei sentimentos vários durante a leitura, o que pode ser natural num romance, num livro de poemas, numa biografia, enfim, num livro comum. A força das descrições, sem preocupação com estilo, com forma, simplesmente a catarse pessoal é que mais impressiona. Difícil missão. A gente tende a colocar como enfeite um pouco de vaidade pessoal nos escritos. Nenhum demérito. Apenas objetivos diferentes. O seu, na minha humilde opinião, foi cumprido com todas as letras; isso mesmo em cada letra juntada que formou palavra, que formou frase, que exprimiu sentença, que transmitiu sentido e afetou sentimentos.


Deu vontade às vezes de abandonar a leitura: raiva. Deu vontade de ter você por perto para ir te olhando com comiseração. Deu vontade, estando você por perto, de me emocionar junto, imaginando o quanto de angústia foi reviver toda uma vida passando-a para o leitor. O que pode ter sido para você uma espécie de tratamento de choque, uma lavagem na alma, uma expurgação de aflições, é para nós, leitores, humanos e falíveis, um lenitivo, um bálsamo e acima de tudo, reflexão. Muita reflexão acerca dos significados da existência humana. Desse inato instinto gregário que possuímos, dessa necessidade do outro para dar à nossa própria vida significação que valha a pena, de fato. No final, deu vontade mesmo foi de te abraçar e olhar nos seus olhos tão sinceros estampados na fotografia da contra capa.


Ah, como desejamos que a superação humana seja tão ricamente acabada! Tantos tombos, tantos motivos para desistir de tudo, para abandonar o barco e ir para as profundezas, não te esmoreceram jamais. Mais importante ainda é, a despeito de tudo que conspirou contra a sua ânsia de viver, tantas mazelas, tantas recaídas quase insuperáveis ( é assim que a gente sente lendo o livro), você tirou disso lições incomparáveis e as transmitiu (mesmo que não fosse essa a intenção). Inevitável não sermos embalados pelo calor de sua luta incessante, às vezes insana contra a morte e, paradoxalmente em direção a ela.

O que suscita o livro é uma vontade de que ele fosse lido por quantos e quantas for possível, tendo ou não problemas correlatos. Assim como faz a mídia grande com os supostos heróis e heroínas efêmeras ,mas vistosos e exemplares para muita gente no nosso meio, precisamos nós, cidadãos comuns, fazer com nossos pares, que são na verdade nossos verdadeiros espelhos, nossa razão de estar vivendo, lutando para justificar nossas vidas.


Eu já o conheço. Considero-o um quase irmão mais velho, quem sabe um pai? Afinal temos uma diferença de quase uma geração, 20 anos. Mas considero, sobretudo, um amigo, se assim me permitir. Recomendo que todos quantos possam ter acesso ao seu livro que leiam-no. Não com intuito de comprá-lo para aumentar suas vendas, você não precisa disso. Para aumentar ainda mais sua estima, baseada no reconhecimento de determinação, de garra, de um não-conformismo e de olhos e coração que buscam para sempre não ser apenas mais um nessa multidão planetária. Nos olhos, a gente vê absurdamente brilhantes, no coração a gente sente pulsar, mesmo estando de longe.

Um afetuoso e fraterno abraço.

José Cláudio

SOBRE O LIVRO:

“CONSEGUINDO A MINHA VIDA DE VOLTA”

De (ANTÔNIO MARIA SANTIAGO CABRAL)

quarta-feira, 6 de maio de 2009

A CANÇÃO DA VIDA

SOBRE A CANÇÃO DA VIDA

(de Mário Quintana)



(Eu, falando sozinho no ônibus)


Quintana, Quintana

Que da lápide ou túmulo me escuta

Tu és mesmo filho do elfo luminoso da selva de pedra

O ser que rege o décimo terceiro signo do zodíaco

O astro dos gênios e dos poetas.

Só mesmo um elfiano, nascido das luzes

Para rimar Renoir com poluir

E eu, esse grosso, rude e bronco literário

Filho da picareta das minas

Para procurar razão no dicionário.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

A SUICIDA

Tinha a minha mãe que largar seus afazeres na correria toda semana para socorrer a Aparecida. Era álcool que tomava, era comprimido, era o pulso que mal cortava. Vivia tentando um suicídio falido sem querer muito a morte de verdade. Despertava com os gritos finos de D. Maria, sua mãe. – Acode aqui, Maria (a outra, minha mãe), que a Aparecida tá morrendo. Ia lá, a retirava do banheiro, olhava bem a cara desfalecida e patética, lhe dava um copo de água com açúcar. Queria mesmo era um reconhecimento, uma atenção ou um casamento para se livrar daquela vida insípida e sem significado.


Uma família sem o menor gosto por nada. Nem de confusão gostavam. Eram alheios até na indiferença. Seu Clemente, o pai, era vigilante noturno do grupo escolar do bairro. Não fedia nem cheirava. Se falava, nem me lembro. Tão poucos dentes na boca silenciosa! O que realçava nele eram as botas de couro com os dedinhos dos pés para fora. Era assim que aliviava os calos. Curioso para crianças, mas, meu Deus, como pode um homem cuidar de uma família se trata assim dos calos? Os irmãos e irmãs passavam ao largo da Aparecida, linda (era a única bonita da casa). Ela nem se justificava depois de socorrida tantas vezes. Nenhuma queixa, nenhum choro arrependido. Idiossincrasias? Mau agouro? Inveja não poderia despertar. Não há quem inveje o suicídio. Nem mesmo os suicidas de verdade, que levam a termo o pacto.


Aparecida sumiu por uns tempos. As crianças da vizinhança imaginavam que havia finalmente, conseguido seu intento. Mas não. Revigorada, apareceu num carrão de um homem bem mais velho, seu amor. Casou-se, mudou e de tanta indiferença contagiosa, nem sei se viveu feliz para sempre.

terça-feira, 28 de abril de 2009

AEDO CIBERNÉTICO*- MARIA, MARIA

Maria, minha mãe, possuía todas essas marcas. Quando aprendi a arranhar uns acordes no violão, era a música que mais ela gostava de me ouvir tocando. E cantava com uma profundeza, que parecia engolir os suspiros que lhe provocavam a letra, a melodia enredada em sua sina de Maria forte. Maria filha, mãe, mulher com toda a graça, manha, gana, beleza, pureza, orgulho de Maria, orgulho de mulher. Tinha a sensação que Milton Nascimento havia conversado com muitas Marias como ela, antes de compor essa canção. Vai ver teve uma Maria assim em sua vida, como eu tive na minha.
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MÃE, ESCUTA DAÍ.

AMOR ETERNO.

Maria, Maria, é um dom, uma certa magia
Uma força que nos alerta
Uma mulher que merece viver e amar
Como outra qualquer do planeta
Maria, Maria, é o som, é a cor, é o suor
É a dose mais forte e lenta
De uma gente que ri quando deve chorar
E não vive, apenas aguenta
 
Mas é preciso ter força, é preciso ter raça
É preciso ter gana sempre
Quem traz no corpo a marca
Maria, Maria, mistura a dor e a alegria
Mas é preciso ter manha, é preciso ter graça
É preciso ter sonho sempre
Quem traz na pele essa marca
Possui a estranha mania de ter fé na vida.
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* Na antiguidade, como a escrita era pouco desenvolvida, o AEDO cantava as histórias que iam passando de geração para geração, através da música. Depois, veio o seu assemelhado na idade média que era o trovador. Hoje, juntado tudo isso com a tecnologia, criei o AEDO CIBERNÉTICO.
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domingo, 26 de abril de 2009

SOCORRO! HELP! TUTURIAL!

ANGLICISMO: S.m. 1 - Palavra ou locução inglesa introduzida noutra língua e empregada como se fora desta. 2 - idiotismo dessa língua. (Aurélio)

GALICISMO: S.m. Palavra, expressão ou construção afrancesada; francesismo (Aurélio)

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Madame é uma galicismo.Pegou. Self service é um anglicismo. Pegou. Milhares de frases, palavras, termos, expressões que não eram de nossa língua, pegaram. Engolimos e ruminamos numa antropofagia cultural saborosa. A mistura de cores nas nossas peles é uma integração entre os povos. Legal, ótimo!


Eu possuo um blog (esse pegou, muita gente já sabe o que é). Estava indo muito bem e assim, de uma hora para outra, aparecem feeds, bookmarks, rss, twiiter, widgets, gadgets,como se fossem arroz com feijão.


Agora, a velocidade do tempo acelerou tanto que nem engolindo inteiro, sem mastigar estamos conseguindo. Acho que a nossa capacidade de utilizar o potencial da tecnologia e da internet é muito pequena por causa das coisas que não pegam. Não dá tempo. E se a gente não correr atrás, daqui a pouco vem mais uma enxurrada de recursos e novidades e ainda estaremos no download.


Estamos aprendendo português!! Veja a reforma ortográfica!!

Como é baixa a nossa performance!

quinta-feira, 23 de abril de 2009

ESCOTEIROS

Ouvi agora no rádio que hoje é o dia mundial do Escotismo. Tem dia para tudo, em vez de ter tudo todos os dias. Mas sem neuras nem delongas, vou matar saudades de um tempo.


Quando era criança havia grupos de escoteiros por todos os lados. Eu gostava porque gostava de aventurar pelos matos como também gostava de ler o Pato Donald, cujos sobrinhos eram escoteiros mirins e estavam “sempre alertas”, ajudando velhinhos a atravessar ruas, a carregar sacolas, a salvar bichinhos em apuros, fazer nós difíceis, nadar, pescar e uma infinidade de coisas que ajudavam a formar sujeitos de bom caráter. Nada de moralismo nem puritanismo, apenas uma saudosa lembrança.


Lembro também que foi uma das primeiras manifestações pela inclusão das mulheres no chamado mundo masculino. Já havia os grupos femininos de escoteiros muito antes dos movimentos feministas. Eram as bandeirantes. Não tinham reivindicações específicas das mulheres, mas tinham os mesmos princípios dos grupos masculinos. Só que a sociedade ainda era muito separada em mundos de gênero, então escoteiros para um lado, bandeirantes para outro. Se encontrassem, rolava no máximo um piquenique bem comportado. E lembro principalmente porque foi o meu pai quem ajudou a fundar o primeiro grupo de escoteiros em minha cidade (apesar dele nunca ter nos levado (os três filhos homens) para sermos, nem que fosse Lobinhos, os escoteiros mirins. Tinham um uniforme esquisito, parecendo guarda florestal de calça curta, mas eram de uma disciplina e solidariedade sem par.


E lembrando das coisas aproveito sempre para pensar. Por que será que a modernidade tem que inexoravelmente acabar com boas tradições? Tudo bem, se em seu lugar ficasse algo ainda mais positivo para o desenvolvimento humano! Mas não tem sido assim ao longo da história. Até que de vez em quando a gente vê um velhinho sendo conduzido por um jovem. Para um caixa eletrônico ou para um asilo. Talvez o mundo esteja produzindo muito mais coisas de que precisamos para viver. E assim não sobra tempo para perdermos com outras humanidades impalpáveis.

terça-feira, 21 de abril de 2009

SOBRE HERÓIS E MÁRTIRES

Não sei quando começou essa história. Imagino que tenha sido com a descoberta do fogo. Um atrito sem querer, uma fricção qualquer gerou faísca, se alastrou e pronto. Estava descoberto o fogo. E com ele, minha nossa... quanta coisa mudou no mundo! Quem teve a felicidade deve ter sido considerado um Deus. Um cara dotado de poderes acima da natureza e da capacidade humana. Certamente passou a ser reverenciado, respeitado, temido.


A fala não foi inventada, apenas se organizou e ajeitou a comunicação entre os homens e, com ela, as histórias passaram a ser passadas de geração em geração até um outro homem-Deus ter inventado a escrita. E as histórias então, começaram a ficar registradas. Daí em diante, haja heróis e mártires!


O fogo, a fala e a escrita, juntamente com a roda, estabeleceram o poder. Quem dominava qualquer dessas coisas começou a acumular poder. Mandar e desmandar; fazer e acontecer. A morte, desde então deixou de ser coisa natural ou questão natural de sobrevivência e passou a fazer parte da manutenção do poder. Se do lado dos poderosos ela é executada a mando, para não perder a pose, a coroa, ou o cargo, há do lado do mais fraco quem não se conforme com essa correlação desigual e invista (muitas vezes sozinho) contra os abusos e desigualdades. Uns chegam mesmo a se tornarem heróis. Mesmo que temporariamente, ganhando uma ou outra batalha. Outros são martirizados, estropiados até o osso, para que sirvam de exemplo ao restante dos dominados. Eis o quanto é frágil o ser humano. Desprotegido, desorientado e apático enquanto coletividade, sempre está a necessitar de alguém que em seu nome ou por sua causa, oferece a cara a tapa, ou o pescoço à corda ou o lombo à chibata ou todo o corpo à cadeira elétrica, ou outro mecanismo de execução e eliminação de ousados. Tudo, penso eu, por causa do poder. Nem precisa falar do dinheiro, ou precisa?

domingo, 19 de abril de 2009

DIA MUNDIAL DO EU SOZINHO

Meu sobrinho Leandro anda indignado. Sozinho? Talvez não. Não se conforma com os rumos que a vida vem tomando. Não agüenta tanto egoísmo humano, não suporta a apatia. Está indignado e se sentindo impotente. Quer porque quer ver a vida de outro jeito, a partir da expectativa que deposita e sua capacidade de pensar e das pessoas. Mas as pessoas não acompanham a sua indignação junto com ele. Há muitas indignações soltas por ai. Sozinhas. Ele é um jovem que inspira. Poucos querem mudar alguma coisa além da condição material.


Ultimamente tenho visto muitas indignações esquisitas, meio exóticas para caber na indiganação dele e ai me agarrei na dele também, porque me lembrei disso. Outro dia mandaram apagar as luzes por uma hora para dar um grito contra o desperdício de energia na terra. Tudo bem. O outro disse que apagou as luzes do quarto e ficou no orkut às escuras. Só com a luz da tela do computador. E contribuiu mais: gritou lá do quarto para a mãe e as irmãs desligarem a televisão da sala e apagarem a luz.


Teve uma pedalada de peladões em São Paulo contra a violência no trânsito. A nudez? Ah, segundo os organizadores era para dais mais visibilidade às pessoas que manifestavam. Ah, bom! Ninguém prestou atenção na violência no trânsito. Havia corpos lindos e feios. Concentraram toda a mídia nesse fato. Aliás, se não tivessem fechado o trânsito para os carros ia dar muito acidente.


Depois falaram de uma guerra de travesseiros em praça pública. Essa tinha o objetivo de mostrar a socialização das pessoas. Precisavam mostrar que vivam em comunidade. E comunidade que se preza tem que estar irmanada em guerras de travesseiros. Essas são as mais visíveis manifestações de indignação que têm ganhado espaço no noticiário. Uma lástima!

Tenho notado que a maior parte dos problemas sociais, econômicos, políticos, psicológicos são problemas coletivos, As soluções, os caminhos, a ações que nos recomendam são individuais.


Aquela história, - eu resolvendo o meu, já ta bom demais!


Atualmente estamos tendo que esperar o Dia Mundial de alguma coisa. Quem pode vai às ruas, quem não pode, faz pela internet a sua mobilização. Quem não quer, aplaude ou critica.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

ODE OU ÓDIO À SENSATEZ?

A lei anti tabagismo (ai, meu Deus, me ajudem! É com hífen?) em São Paulo está dando “panos para manga” Brasil afora. Os donos dos bares e restaurantes querem defender seu lucro vindo dos fumantes e invocam o sagrado direito de ir e vir das pessoas. Os não fumantes alegam o inevitável câncer passivo. Aquele que vem imposto pelo seu colega da mesa ao lado. Os fumantes, acuados, mas uns dragões, apelam para um cantinho separado, com exaustor e tudo para fazerem valer a paz e a fumacinha.

Argumentos semelhantes foram usados também na lei seca. O sujeito pode exigir que tenha uma estrada só para bêbados? Ele pode, baseado no seu direito de ir e vir, querer pistas exclusivas, com bares na beira dessas estradas e se arrebentarem todos? Desde que estejam sozinhos e não matem ninguém!. O argumento do bebedor vale mais que a vida alheia. O lucro reclamado pelo comerciante, não leva em conta as estatísticas tristes das mortes por bebedeiras no trânsito.

Agora, só para complicar, eu posso pedir uma lei para proibir as pessoas de falarem alto em locais fechados? Também tem muita gente que não gosta de gritaria, se irrita. E faz mal à saúde. Tem pessoas que falam acima de 80 decibéis, insuportáveis ao ouvido humano sem deixar sequelas.

O nosso pacto de sociedade prevê, nas entrelinhas do “espírito de porco das leis”, o vale tudo, o manda quem pode e o obedece quem tem juízo.

E já que é assim, proponho uma lei que obrigue as pessoas em todos os recintos fechados, a terem discernimento.

P.S. A metade desse texto tive que escrever num papel do maço de cigarros que acabou. Lá fora, no quintal, para não fumar dentro de casa. Não é lei aqui (ainda)!

quarta-feira, 15 de abril de 2009

AEDO CIBERNÉTICO*- ACALANTO

Meu regime de trabalho era de revezamento em turnos noturnos, diurnos e vespertinos. Enfim, quando nasceu a Maíra, eu tinha dentro das 24 horas do dia, horário para trabalhar à vontade. Costumava chegar de manhã para dormir, e ela, lépida, fagueira e ligeira, chegava ao meu quarto para brincar. Aí, tinha que fazê-la dormir comigo, caso quisesse descansar para uma nova jornada mais tarde ou no outro dia. Fui descobrindo umas musiquinhas que lhe acalmavam momentaneamente o fogo. Meu relativo sucesso era com ACALANTO. Nos primeiros minutos, ficava como uma tocha, os olhinhos acesos prestando uma atenção danada, feito coruja. Depois ia se acalmando até adormecer em meus braços, ou a gente junto deitados no meio das almofadas no chão da sala, cada um dormindo um soninho bom.

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PARA MAÍRA, COM AMOR,

DESDE CRIANCINHA.

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* Na antiguidade, como a escrita era pouco desenvolvida, o AEDO cantava as histórias que iam passando de geração para geração, através da música. Depois, veio o seu assemelhado na idade média que era o trovador. Hoje, juntado tudo isso com a tecnologia, criei o AEDO CIBERNÉTICO.

terça-feira, 14 de abril de 2009

ELIS REGINA

ATENÇÃO, Maria Rita:

Já que nossos ídolos ainda são os mesmos e as aparências não enganam, por que você não regrava COMO NOSSOS PAIS, do mesmo jeitinho da sua mãe? Dá esse presente prá nós, dá?

segunda-feira, 13 de abril de 2009

TRÔPEGO

Troquei de cachaça

Larguei a de cana

E enfiei a cara na de letras.

Bêbado fico do mesmo jeito

Com o fígado sorrindo

E a cabeça desopilada.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

AEDO CIBERNÉTICO - BOLERO DE RAVEL

É DE ARREPIAR ATÉ PEDRA.

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Ravel compôs o seu bolero em 1928, com ele deu a volta ao mundo atuando como regente em concertos nos USA, Londres e em toda a Europa. Suas apresentações sempre lhe premiavam com uma acolhida triunfal.

Como tudo começou?

Em 1927 a dançarina Ida Rubinstein estava preparando um novo espetáculo e pediu a Ravel que orquestrasse algumas páginas do compositor Albeniz. Na verdade ela fizera este mesmo pedido a um outro músico e Ravel decidiu, então, compor uma obra nova e escolheu o bolero, atraído, pelo que tudo indica, pelo seu ritmo repetitivo e sua simplicidade melódica.

O “Bolero” é uma sutil mistura de folclore e de grande e genial inspiração.


Toda a peça consiste em dezoito compassos ao longo de uma folclórica melodia espanhola em rítmico de bolero, ininterruptamente repetida. É somente a instrumentação que numa contínua repetição se torna cada vez mais vigorosa, mais concentrada, aumentando também o volume correspondente.

Dentro desta simples orientação, a obra leva a cabo um incrível, persistente e crescente “suspense” que próximo ao final diligencia descarregar por intermédio de uma repentina, e de forma idêntica, rápida mudança de tonalidade, antes do real clímax ser atingido pelo vivo final.

É na verdade, um teste de habilidade para o regente que com a orquestra tem de manter uma poderosa e uniforme linha sem interrupção em toda a extensão da obra.

Ravel foi bastante ousado.

Tanto é que na primeira apresentação os próprios freqüentadores da Ópera também ficaram surpreendidos. Eram dezessete minutos de um longo e progressivo crescendo, a ponto de alguém da platéia exclamar; “é um louco!”. Segundo Ravel esta era a prova de que, pelo menos esta pessoa, havia compreendido sua obra.

Era noite de 22 de novembro de 1928 e este mesmo público, no entanto, assistira ao nascimento de uma das páginas mais célebres da literatura orquestral do século XX, uma obra que a princípio, nem mesmo Ravel acreditara.

(fonte: administradores.com.br/artigos)

terça-feira, 7 de abril de 2009

PRÁ FRENTE É QUE SE ANDA

Atenção escritores diletantes. Se vocês ainda não se tornaram consagrados pela crítica ou não foram fisgados por alguma oportunidade mercadológica, cuidado com sua missão! Arranje um trabalho “produtivo” paralelo, porque a discriminação atinge também a nós, desconhecidos e, portanto, desocupados. A nossa atividade não costuma ser considerada trabalho para a maioria das pessoas. Se você tenta sobreviver só das suas produções literárias, cuidado: de onde menos esperar é que não vai haver condescendência em nenhuma hipótese. Já ouviu aquela:
– Você não tem algo mais útil a fazer do que só ficar ai escrevendo, não?
Ou, já encontrou com alguém que não via há muito tempo e a pessoa:
- E então, como tem levado a vida?
- Escrevendo.
- Ah, é mesmo? E trabalha em que?
Agora, caso dê uma reviravolta e sua obra caia nas graças de algum caçador de talentos para se empanturrar de dinheiro, os tapetes lhe serão estendidos e os mesmos que lhe desabonam, vão lhe fazer abanos para você descansar entre uma escrita e outra. Com penas de pavão. Pode apostar.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

ENTRE PÃO DURO E PERDULÁRIO

Como você gasta? Alias, gasta?

Pois é essa a diferença

entre perdulário e pão duro

É um, otário, imaturo,

O outro, desconfia, só vê futuro.

O perdulário gasta desbragado, libertino

O pão duro é complicado, não gasta,

Para ele é desatino

Entre os dois tem o terceiro

Não abusa nem recusa

O que é preciso usa

Sem remorso, sem salseiro

Põe na balança o valor do dinheiro

Junta com a necessidade

Pensa sem gastar

Gasta sem vaidade

Esse aí não lambuza

nem é receoso

Sabe de que jeito

Quando e como usa

É parcimonioso

quarta-feira, 1 de abril de 2009

1º de ABRIL - DE FRENTE PRO CRIME

O ônibus seguia naquela desembestada fúria que é habitual e os passageiros naquela indiferença habitual também. Ninguém mais liga a não ser em seu olhar perdido na falta de horizonte; a não ser os ouvidos no seu mp3, mp4, esses sonzinhos de espantar tédio que carregamos por aí em vez de um papo com alguém que encurte a viagem; a não ser também se houver uma batida. Aí lembram do motorista. Pois foi passando exatamente em frente ao corpo de bombeiros que alguém avistou um corpo civil estendido no chão. Mais de uma voz ao mesmo tempo gritou: - Olha lá, tem um homem morto ali! O outro coro, nervoso, já vociferava com o habitual mau humor: - Essas brincadeiras de 1º de abril não pegam mais, não! Mas era de verdade. O corpo estava lá, para a habitual observação indiferente de quem passava. Tem uma ação coletiva e disputada, que não é de mentira. A de chamar o resgate. 192, 193 e está cumprida a nossa cidadania de pedra. Todos querem ser o primeiro. Mas o corpo continua lá, frio, no 1º de abril e nos outros dias da verdade dura. Com pressa, foi cada um pro seu lado.

Tá lá o corpo
Estendido no chão
Em vez de rosto uma foto
De um gol
Em vez de reza
Uma praga de alguém
E um silêncio
Servindo de amém...

O bar mais perto
Depressa lotou
Malandro junto
Com trabalhador
Um homem subiu
Na mesa do bar
E fez discurso
Prá vereador...

Veio o camelô
Vender!
Anel, cordão
Perfume barato
Baiana
Prá fazer
Pastel
E um bom churrasco
De gato
Quatro horas da manhã
Baixou o santo
Na porta bandeira
E a moçada resolveu
Parar, e então...

Tá lá o corpo
Estendido no chão
Em vez de rosto uma foto
De um gol
Em vez de reza
Uma praga de alguém
E um silêncio
Servindo de amém...

Sem pressa foi cada um
Pro seu lado
Pensando numa mulher
Ou no time
Olhei o corpo no chão
E fechei
Minha janela
De frente pro crime...

Veio o camelô
Vender!
Anel, cordão
Perfume barato
Baiana
Prá fazer
Pastel
E um bom churrasco
De gato
Quatro horas da manhã
Baixou o santo
Na porta bandeira
E a moçada resolveu
Parar, e então...

Tá lá o corpo
Estendido no chão...

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