Na fila da padaria dois senhores divagam sobre o assunto do dia: - Que saco ter que ir lá votar, né? Acho que o voto não deveria ser obrigatório. A gente poderia até escolher melhor. O outro, em tom alto como quem quer angariar adeptos para suas idéias: - Eu não acho, não. Você sabe que quem elege os prefeitos é o provo da periferia, né? (sic). Eles seriam os mais prejudicados. Os primeiros a deixar de votar nesse caso, seríamos nós, as pessoas mais esclarecidas (sic, sic, sic). Aí, a corrupção iria aumentar . O primeiro, meio na dúvida, meio esclarecido: - Acho que podemos votar no candidato do prefeito, afinal ele (o atual) fez um bom trabalho, né? - Eu não falo mal, não. Quer dizer... É, acho que foi bom... Mas ainda na sei, eu pessoalmente não tive benefício nenhum nesse tempo todo. Saí depressa antes que minha língua não se agüentasse dentro da boca. Eu iria dizer: Não sou contra nem a favor, muito antes pelo contrário.
A diferença entre a moral e a política está no fato de que, para a moral, o homem é um fim, enquanto que para a política é um meio. A moral, portanto, nunca pode ser política, e a política que for moral deixa de ser política.
Zé do ovo era um rapaz esquisito, acabrunhado, cabisbaixo, calado, sério. Quase dois metros de altura, uma magreleza de invejar as modelos atuais. Nunca ouvi sua voz, nem nunca sabia aonde ia. Passava todos os dias duas vezes na minha rua, seguindo a mesma trilha. Não andava no meio fio, só no canto esquerdo da rua. Ia e voltava sem um embrulho sequer na mão. Uma diversão para os meninos da rua era vê-lo passar e gritar ‘Zé do Ovo’, correndo em seguida para esconder, talvez pudesse ser violento. Nem isso dava para saber. Apesar de magro era muito grande, quase adulto. O chamávamos assim por causa de sua corcunda.
Começou a aparecer há tempos um caroço nas minhas costas. A princípio ardia um pouco e, dois médicos depois, fui acalmado, dizendo-me ele que era gordura localizada, tiloma, sei lá. O negócio de lá para cá só vem crescendo apesar de a queimação ter parado. Na última consulta, levei um baita susto. Ele afirmou que é para retirar sob o risco de se transformar em um tumor. Já vou providenciar rápido com medo de pagar língua. Já estou meio redondopara ser chamado de Zé do Ovo.
O feitiço virando contra o feiticeiro ou a vaidade doendo mais que o medo.
Laélio, como todo aspirante a cozinheiro ou cozinheiro já pronto e que se preza, gostava do elogio não só ao produto final, mas durante toda a fase da preparação. Algo como uma partida de futebol. Às vezes, o jogador gosta mais do aplauso da torcida por uma bela jogada do que por um gol. Fazia questão de ir explicando o passo-a-passodo prato a ser preparado sempre com os olhos fixos no interlocutor como se quisesse ao menos um aceno de aprovação ou concordância. Os elogios e a comida saiam sempre ao seu gosto e dos convidados. Davaquase sempre certo.
Convidou uma turma grande de amigos para comer uma moqueca na casa que era a república do Júlio, do Paulinho, do Wagner e do Marathon. Cozinhar para essa gente nem é tarefa tão difícil. Já fui morador de várias republicas e qualquer rango mais elaborado é motivo de verdadeira festa como se banquete fosse. Não desmereço aquia missão de nosso cozinheiro, cheio das melhores intenções. Como também sou da turma dos aventureiros gastronômicos, deixei o pessoal tomando umas coisas com e sem álcool e fiquei acompanhando a elaboração do tão esperado peixe ensopado ao molho de camarão. E fazendo elogios, claro. Fritou, refogou e praticamente cozinhou tudo no azeite de dendê, que, segundo ele servia para autenticar uma baianidade ao prato. Nisso, foram duas garrafas daquelas pequenas de azeite para incrementar o sabor junto com o leite de coco e os acompanhamentos todos dessa famosa receita.
Como cozinha de república não combina com horários, foi ficando muito tarde e, como estava com minha filha ainda muito pequena me acompanhando, atendi seus apelos de sono e levei-a para dormir em casa, prometendo voltar, o que não ocorreu, pois caí no sono também.
Bendita criança, que me salvou de um calvário sanitário. No dia seguinte, a notícia que corria era de que a fila no banheiro da casa durou até o amanhecer. Todos disseram que ficou realmente delicioso, mas nem deu tempo do organismo separar os nutrientes do prato servido por causa do efeito laxativo do azeite.
No bairro Saudade, (que também é o nome do cemitério) entra-se beatificado pelo Santa Efigênia e para chegar passa-se ao lado do Paraíso (sem jardins) e do Pompéia (sem Vesúvio que destrua). Uma visita ao hospital da Baleia me causou uma admiração e um espanto. Toda a poesia pitoresca do trajeto leva a gente de encontro ao fim da cidade. Foi feito ali de propósito, para empatar com o fim da vida? Fique em paz, amigo, eu não te visito mais, mas te encontro em outra ocasião.
Costumo parar durante as minhas pedaladas diárias para conversar com o seu Zé Paixão. Setenta anos, chapéu de cangaço, amarrado no queixo, calça social e camisa de mangas compridas, sapato lustradíssimo. Pedala assim todos os dias. E já me disse que tem cinco bicicletas. Uma alegria daquelas que pegam e uma disposição maior que de menino. Quando o conheci, estava tirando do bolso um remédio para tomar e perguntei se estava se sentindo mal. Ele me mostrou para que o lembrasse o nome. Não sei se é esquecimento ou se não sabe ler.
- Gardenal, limeio preocupado.
- Moço, tenho que tomar esse remedinho pro resto da vida, o doutor falou. Eu caí de cabeça um dia e fiquei assim meio esquecido das coisas.
Ficamos amigos e volta e meia paramos para um rápido bate-papo, entre o descanso e novas pedaladas. Dia desses comentava de uma noite mal dormida por causa de pernilongos que me infernizaram o sono. Contei a ele que não podia usar esses venenos eficazes em aerossol, que minha mulher tem alergia respiratória e que esses refis de tomada são é vitamina para os bichos. Não espantam e os fazem zoar ainda mais.
-Pois, seu moço, lá em casa tá do mesmo jeito. Outro dia eu coloquei umas balas no revólver e dei uns dois tiros debaixo da cama. Os vizinhos perguntaram se eu tava ficando doido. Ora, pode até não ter matado mas deu um fumaceiro que não vi mais pernilongos.
Vindo morar na capital para completar os estudos àquela época considerados mais reforçados, como se dizia no interior, a gente ficava, em princípio meio perdido no meio de tantas pessoas aparentemente alheias às outras e a tantas situações que são carregadasde muita impessoalidade. Acabávamos criando turmas, comunidades e, claro, repúblicas. Elas, além de unirem os aparentemente iguais reduziam custos para os pais ou para nós mesmos, se tínhamostrabalho paralelo com os estudos. E ainda permitiam um aprendizado de compartilhamento, respeito e solidariedade como uma espécie de recompensa pelos sacrifícios de se morar longe da casa dos pais em tão tenra idade.
O ano era 1978 e o sujeito a quem acolhemos era um tal Zé Roberto, conterrâneo nosso e que precisava de um local transitório, até encontrar uma moradia definitiva. Havia chegado recentemente à cidade, ouvido falar de nossa república, não conhecia bem a cidade, etc. e tal. Cedemos uma vaga apesar das exíguas dimensões do apartamento. Era um rapaz de poucas e também pouco amáveis palavras, sempre quieto em seu canto. Saía cedo a pretexto de procurar trabalho, dizia que estudava, mas nunca o vi com um caderno sequer. Em mim, o que mais chamava a atenção era um livro que carregava sob os braços todos os dias que se chamava‘Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas’. A capa estava um tanto surrada, puído, creio que pelo contato do suor. Às vezes tinha a impressão que ele não tirava o livro dali nem mesmo para ler.
A sua presença na verdade era um incômodo para todos, já que vivíamos em um ambiente bastante familiar, no sentido da relação de proximidade, divisão de tarefas, de despesas e de brincadeiras sem que ele participasse de nada disso a não ser com seu olhar desconfiado e suas feições de reprovação e censura a todos os gestos e falas da casa. Já queríamos dispensá-lo e tínhamos o grande trunfo das dívidas com a hospedagem. Ao ser cobrado sempre se desculpava que estava aguardando um chamado de emprego e iria acertar tudo tão logo começasse a trabalhar.
Nem precisou.Minha mãe foi nos visitar certo dia e conversávamos na sala quando ele entrou porta adentro sem sequer dizer um olá, bom dia ou acenar com a cabeça para cumprimentar qualquer de nós. Entrou para o quarto e só não se fechou porque não havia porta. Mas o que se transformou na gota d’água mesmo foi ter ignorado a presença de minha mãe. Isso era mais imperdoável que qualquer dívida de estadia. No outro dia estava no olho da rua com sua obra de “cultura axilar”, como meu irmão tratava a relação do rapaz com o tal livro. Perdi até a curiosidade de ler, por achar que fazia o efeito contrário nas pessoas.
Não ter um endereço eletrônico hoje está sendo considerado o mesmo que não possuir CPF. O CPF tem muita gente que só sabe que é preciso quando a receita federal lhe cancela por algum motivo. Já o e-mail, a maioria tem porque todo mundo tem de ter, é assim e pronto, mas nem sabe para que.
– O que??? você não tem e-mail?
-Até hoje, cê acredita?
-Ah, não é possível, você não deve ser desse mundo...
Há aqueles que passam o endereço de trabalho para suprir essa inaceitável falta com a desculpa:
- Manda nesse endereço aqui, que o computador lá de casa deu pau e não consigo abrir o meu. Como se fosse endereço físico.
A gente herda sem genética nenhuma na cultura, hábitos bons outros menos, uns essenciais, outros inúteis, mas da hora! O e-mail, entre suas indiscutíveis finalidades serve para se livrar de chatos.
- Me dá o seu telefone, que depois te ligo.
- Olha, vou te dar meu e-mail, que é mais fácil me localizar. Ando com o tempo apertadíssimo...
Muita coisa, amigos e até mesmo desconhecidos nos encaminham, através de listas quase sempre virulentas.
Fica abrindo todos os dias, quem tem tempo, para ver se chegou alguma correspondência que valha a pena.
Experimente não apagar nenhuma mensagem recebida durante seis meses e depois dê uma relida para verificar a utilidade.
Vamos ter que nos acostumar, mais dia, menos dia, com o calor eletronicamente humano.
Dia das mães, meu pai presenteou a minha com um fantástico relógio de prata, Citzen, moderníssimo e, apesar de pequeno, feminino - me disseram, pois é costume separar coisas de gênero. Ficou sob minha guarda e uso. Minha mãe dizia que os movimentos do relógio faziam-lhe subir a pressão. Desculpa educada para a recusa. Ela não gostava de se ornamentar muito com jóias. Um brinco, a inseparável aliança e nada mais. Meu zelo era proporcional à vontade de ter um relógio. Recomendações dela também não faltaram. Afinal, usando ou não, era presente e disse para que cuidasse como se fosse meu. Antes dissesse para cuidar como se fosse dela.
No centro da cidade era comum trambiqueiros ficarem simulando apostas com bolinhas de papel sob tampinhas de garrafa. Ficavam dois ou três comparsas em volta do golpista. Ao aproximar-se uma vítima em potencial, a aposta simulada era de acordo com o que portava o incauto. Se nada à vista, era dinheiro. Se algum chamariz como alianças, cordões de ouro ou relógio, essa era a bola da vez. No meu caso foi relógio. Parei para ver na inocente curiosidade e com a ganância incontrolável de ter o meu próprio relógiosem gasto e devolver o precioso presente da minha mãe, mesmo que fosse somente para guardá-lo e ela poder garantir a boa pressão dos perseguidos 12x8 . Punham três tampinhas emborcadas sobre uma folha de jornal dobrado e sob uma delas estava a bolinha de papel. Embaralhavam e, quem adivinhasse de uma só tentativa, levava o prêmio da aposta. Simularam entre si duas vezes e o estranho, levou por duas vezes dinheiro e relógio. Me encorajei e apostei o meu contra o dele. Um lindo Orient, pulseira cromada e grande, relógio do gênero masculino. Um sonho de adolescente. Nem adianta tentar justificar a trapaça que julgo ter ele feito enquanto me abaixei para tirar o relógio do pulso e dar alguém para segurar. A minha certeza era absolutíssima. Desvirei a tampinha e nada. Bolinha nenhuma, relógio nenhum. Nem o da minha mãe, nem o dos meus sonhos.
O desespero tomou conta de mim a ponto de demorar cinco minutos entre decidir se chamava a polícia ou se ia embora. Aposta é aposta. Aprendi desde cedo que honrar os compromissos é garantia de retidão. Saí pensando em como dizer isso a minha mãe. Me ensinaram também não mentir. Omiti. Me calei até o dia em que ela deu falta do relógio. Disse que havia sido assaltado em um ônibus. Se ela acreditou nunca vou saber. Dei a ela, pouco antes de seu falecimento um novo, de natal, que coincidia com seu aniversário. Tentativa de me redimir. Não aliviou a consciência. Nem ela usou.
Meu espanto é do mesmo tamanho do sonho. Parece que foi ontem. O tempo vai passando sem pedir desculpa nem licença e sem esperar por ninguém. As pessoas é que sempre esperam ou adiam ou atrasam a vida. A minha primeira filha já vai se casar. Ao nascer tinha só oito meses de preparo e um quilo e duzentos e cinqüenta gramas de gente, mas toneladas vontade para viver a sua sina. Passou infância rápida, viveu tumultos nem tanto. Doenças, só as de costume em criança ou de algum descuido dos pais. Cresceu pra lá e prá cá, muda de casa, de escola, de cidade; de pequena com o pai, o restante com a mãe. Nem viu a adolescência ser arrastada depressa junto com o resquício de infância, rumo à responsabilidade que veio porque a vida precisou. Soube conservar, porém, a juventude na alma, na face e deixou só a mente crescer e o coração se encher de amor de casamento.
Vai filha, e semeie esse broto de família que agora é seu. Dê-lhe ar puro, atenção e carinho sem parar, que ele vai ganhando sustância até espocar, até não caber de tanta alegria. Faça da sua mente a casa do mundo e do coração a base para uma moradia suave, terna e inexpugnável, na companhia da felicidade.
Gilse amava Zezinho, que amava Elaine. Doidinhas as duas. A primeira de amor; já a segunda de tanto levar socos do pai que odiava Zezinho, que namorava as duas. Escondia a Gilse da Elaine e escondia a Elaine do pai. A primeira via todo dia; já a segunda só na furtiva ou pelas cartas escorrendo amor pela tinta. E quem escrevia era o Paulo, o poeta que inventava o amor de papel para o amigo. Gilse deixou o amor de lado e casou com outro rapaz. Elaine perdeu a guerra com o pai e largou o amor de Zezinho, que perdeu o jeito de amar, casou com outra moça e foi para Carajás.
A coluna social é o espelho que revela a alma translúcida da sociedade – a alta. Olha-se de frente e se enxerga do outro lado sem ter nada que preencha o meio com algum tutano. Mas as cabeças em si são lindas. Os cabelos esticados ou assentados, a face irrepreensível e imexível para não estragar a pintura e as fotos saírem bonitas. O sorriso parece que ganha um fixador para ficar permanente como ficam os cabelos para sempre ou mais com esses recursos. Os assuntos - ou babados, melhor dizendo, são de dar náusea em qualquer um que costuma gastar seu precioso tempo com pensamentos e reflexões que desçam um degrau abaixo da superfície lisa e rasteira daquela visão do mundo vasto como um curral de animais de belas raças criadas em confinamento.
Augusto Bule era colega de trabalho e companheiro de diretoria do sindicato do qual fiz parte. Bastante exagerado em gestos e falas, dava sempre a impressão de querer ganhar no grito todasas conversas e situações. Tratava a quase tudo como se fosse disputa. Uma espécie de transferência do pendor sindical para a vida particular. Quando bebia então, a impressão é que a razão crescia-lhe em proporção geométrica, acima de qualquer argumento. Muito generoso e um grande menino. Acima de tudo, muito solidário e sempre de peito aberto à frente de qualquer injustiça que julgava por seus critérios de bondade. Brigava antes de ouvir e depois, se convencido da impulsividade dizia sempre: Ah, bom...
Havíamos saído de uma rodada de bar e mesmo já tendo petiscado bastante e bebericado idem, resolveu desafiar-se a preparar um delicioso frango em sua casa convidando a todos nós. Recusamos pelo adiantado da hora, cada qual com seus compromissos e descrentes de que pudesse sair algo degustável com ele naquele estado.
Comprou, na verdade um peru congelado, desses que já vêm temperados e com um apito que avisa quando já está apto a ser comido.
O assunto caiu no esquecimento até o próximo dia de encontro de bar em fim de tarde. Perguntado o que havia preparado naquela noite, após muito custo, que não se sabe se por amnésia ou embaraço pela trapalhada, acabou confessando. Havia colocado o bicho numa panela de pressão sem sequer retirar a embalagem e ficou lá aguardando o apito final que o redimiria da sua fome. Até sentir um desagradável cheiro de plástico queimado e deparar com o peru todo enrugado e com o apito afogado depois de abrir a panela.
Tem momentos que dá uma saudade danada dos tempos menos tecnológicos.Estou tão assustado com a rapidez das novidades que às vezes pareço um resistente, mas não é o caso. É a mais pura observação acompanhada de um sentimento de inutilidade e impotência profissional. Já não estou mais com muita disposição para estudar circuitos integrados, chips e outros apetrechos que tornaram multifuncionais, miniaturizados e absolutamente descartáveis os aparelhos e mecanismos que antes dávamos um jeitinho diante de um defeito e a coisa funcionava por muito tempo ainda. No carro, já emendei cabo de acelerador com linha de anzol, troquei cabo de vela por um ramo delgado e verde do mato, sem precisar chamar socorro ou seguradora para rebocar. Andar hoje com uma caixa de ferramentas no carro é carregar peso morto. Não resolve nada, a não ser trocar um pneu.
Se na lei da física a toda ação corresponde uma reação, na lei da sobrevivência, a toda falta de recurso material corresponde uma criatividade para obtenção de solução: e assim nasceu a gambiarra. Numa das repúblicas em que morei, tínhamos um aparelho de som com rádio am, fm e toca discos. O dial do rádio era movido a roldanas e cordas que iam e vinham levando o ponteiro nas estações que a gente queria escutar. Deu-se uma arrebentada na corda e a falta de recursos para o conserto, tudo junto com a urgência do reparo. Era o único eletrodoméstico para alegrar, dançar e informar na casa, junto com uma televisão em preto e branco doada por meu pai depois que ele adquiriu uma a cores. Meu irmão não se apertou. Fez um buraco sobre a roldana e emendou ali uma tampa de garrafa plástica e passamos a sintonizar direto dali. Não dava para ver aonde ia o ponteiro, mas era só aguardar o momento em que o locutor dizia o nome da emissora e pronto.O aparelho nos serviu ainda por um bom tempo.
Dia desses estava comprando uma máquina e lavar e me espantei com a diferença gritante de preços entre uma marca e outra. Ocorre que as duas marcas estão entre as consideradas de qualidade, os modelos eram semelhantes e a capacidade, a mesma. A vendedora me acudiu da indignação:
- É por que uma tem o painel com os botões de comando para cada função, que podem ser trocados (olha a gambiarra!); a outra tem um circuito integrado. Se der defeito em uma função, tem que trocar a placa inteira. Caríssima.
Para emagrecer, dormir um pouco mais parece ser o melhor conselho, de acordo com vários estudos que associam falta de sono à obesidade. “Dormir mais pode ser um bom conselho para estabilizar o peso ou emagrecer e assim, lutar contra o sobrepeso ou a obesidade...
(fonte: jornal hoje em dia, 05/04/08, pg. 12)
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Fico pensando qual seria o produto que queria vender quem patrocinou um estudo desses. De comer não pode ser nada. Nem água, que tem lá suas caloriazinhas. Remédio para sono também é improvável. A maioria deles contém glicose. Só se for fabricante de colchão. Daqueles que descansam a boca da mastigação e engolimento Aí, a pessoa começa a ter sonhos esfomeantes, às vezes delírios e pesadelos, onde é tragada para rechear enormes tortas de chocolate, ou cedendo seu pernil para um assado num espeto primitivo com uma chama embaixo.Fica se remexendo o tempo todo na cama, sua frio, vira de um lado a outro do travesseiro, de bruços e barriga para cima, acorda assustado e reza aquela prece do pastor que promete fazer emegrecer cinco quilos num só amém. Assim volta a dormir e tudo recomeça. Ou pode ser também de algum pesquisador pão duro que quer disseminar sua mania de economia. Quanto mais se dorme na sua teoria, menos tempo se terá para gastar com comida. Assim emagrece de fome. Mesmo que o gasto venha dobrado depois com remédios para inanição ou anorexia.
Até pouco tempo era comum, numa atitude para desmerecer alguém por dificuldade de entendimento de palavras, expressões ou compreensão de algum fato, chamar as pessoas de Mobral. O Brasil, numa época em que estava à espera de um milagre econômico criou o Movimento Brasileiro de Alfabetização para fazer as pessoas funcionarem melhor. O país estava de vento em popa na economia sob um governo militar. As coisas iam funcionando bem mas as pessoas não. A taxa de analfabetismo era de quase metade da população. O Mobral destinava-se a fazer com que todos pudessem ler e escrever, fazer contas e assinar o nome. Principalmente assinar o nome e fazer contas de mais, menos, dividir e multiplicar, como acabou acontecendo. Gente que não tivera a oportunidade de freqüentar a escola no tempo certo tinha a chance de freqüentar grátis, as aulas que eram ministradas em salões de igrejas, clubes recreativos e outros espaços cedidos na marra para esse fim. O ufanismo que tomou conta do país não era espontâneo. Foi estimulado para dar credibilidade a um governo que não havia sido escolhido pela população e mesmo com a força das armas queria alguma legitimidade. Se desse certo poderia se perpetuar no poder. Conseguiu, a trancos e barrancos sobreviver por mais de vinte anos.
Uma de minhas irmãs chegou a ser professora do Mobral. Tinha apenas dezesseis anos e já era professora de gente de trinta, quarenta e mais anos. Havia no programa uma proposta embutida de controle de natalidade para pobres e iletrados. A população ignorante estava crescendo muito e isso não era aceitável. O mal da desigualdade tinha que ser cortado pela raiz. Distribuíam para as freqüentadoras um leite em pó contendo um remedinho que emperrava a fertilidade das mulheres. Minha irmã tinha o hábito de tomar do leite no salão da igreja onde dava aulas e isso lhe custou anos mais tarde um tratamento de mais de cinco anos para conseguir engravidar.
O orgulho de ser brasileiro era vendido em slogans, propaganda maciça, música e muita bordoada para os descontentes. Os maiores ídolos desse ufanismo chamavam-se Dom e Ravel, uma dupla que cantava os valores e possibilidades do povo brasileiro. Alguns defensores dizem que eles eram assim mesmo e que suas músicas foram usadas pela ditadura. Outros, que eles estavam a serviço do sistema. Mas ficou a obra e a gente aprendia e cantavana escola, na rua e ouvia no rádio e TV, todos os dias. Para o Mobral, compuseram uma canção comovente (clique no link abaixo para ouvir) que empurrou centenas de milhares de pessoas para as salas de aula na esperança de serem agraciadas pelo milagre econômico depois de aprenderem que dois e dois são quatro e fazerem as garatujas de seus nomes.
Continuo minha implicância com as palavras. Defendo até a última linha escrita ou o som gerado pela língua falada, mas umas expressões que a gente usa são de confundir qualquer aprendizado. Deve ser por esse motivo que as crianças quando aprendizes da fala perguntam tanto por que, ali pelos seus três, quatro anos de idade. Estão descobrindo o mundo, mas pensam. Logo, não concordam com muita coisa. Por que?
O sujeito xinga outro de filho de uma mãe, essa tão sagrada instituição que forma o conjunto de todas as mães e isso quer dizer filho de uma égua. Se dissesse logo de cara o filho de uma égua, já seria motivo para imediata reação, revide, pancada, equivalênia lingüística, do tipo:- É a sua! Mas não, ganhou o pejorativo sinônimo, não se sabe a razão. Talvez seja a intenção direta de ofender com metáfora. Mesmo sabendo que quando queremos realçar uma falta de educação, já vamos de cara perguntando, não tem mãe não, ô sujeito?Por isso que dá briga, costuma-se chegar às vias de fato, às vezes. Mãe não se xinga nem com poema. Falar mal de mãe para os homens equivale a um tapa na cara. Para as mulheres é o mesmo que dizer coisas semelhantes a: a beleza feminina sai com água e sabão. Agora o pai, que não goza de tanta reputação assim nas escalas de importância, ganha status, quando algum boa vida, privilegiado, mauricinho ou patricinha são chamados de filhinhos do papai.
O mesmo ocorre com outros significadosdaquilo que falamos exatamente o contrário do que significa. Um caso, o pois não. Quando dizemos a alguém que nos aborda ou atendemos a alguma solicitação, dependendo do nosso grau de boas maneiras, costumamos dizer pois não. Que na verdade, quer dizer sim. Já esbravejar ou maldizer ou ainda recusar uma proposta indecorosa, enxovalhar algum comportamento duvidoso, dizemos, pois sim, significando ora pois, isso não! Olhe só o que ocorre com o simpático, veja bem a cara do simpático. Não no sentido da amabilidade, ternura, agradabilidade. Mas é quando se é chamado assim com o intuito de tentar definir um meio termo entre o bonito e o feio. Diz no popular que simpático é o feio gente boa. Tem outros casos ainda, o inato, nasceu com a gente mas é inato. Pode? Por que?
As muitas Minas de Guimarães Rosa e nossas podem ser constatadas por quem quiser viver como se estivesse em vários países, sem sair do próprio Estado. Essa Minas é grande demais da conta! E diversa também. Só entre o norte e o sul, tomando Belo Horizonte como referência, basta botar reparo nos lugares, situações e costumes para se sentir em casa e estrangeiro ao mesmo tempo num raio de algumas léguas para riba ou para baixo. Duas viagens para um trabalho de seleção para qualificação de jovens, que os criadores da marginalização convencionaram chamar pelo eufemismo de jovens em risco social. Primeiro, Araçuaí, 700 quilômetros de BH, em direção ao norte, no Vale do Jequitinhonha. Pela janela do ônibus na espiada da paisagem a partir de Curvelo ou Diamantina, começa-se a notar a transformação no colorido da paisagem. A gente sai do verde para o cinza seco, com poucas folhas e muitos gravetos, gado magro. E, se observar sob as pontes onde sempre há uma placa que é sobre tal ou qual rio ou córrego, só se vê, na maioria dos casos, a trilha arenosa por onde um dia passou água. O sotaque é uma mistura sonora de baiano com mineiro, tanto quanto as comidas com farinha e pimenta de acompanhamento natural e necessário como sal e açúcar para nós. Belo Horizonte por ser uma cidade relativamente nova para os séculos todos de Minas, não conseguiu criar uma identidade cultural que influenciasse o interior mais distante. As referências para os moradores das localidades mais próximos de outras divisas como RJ, SP e BA, são as capitais e costumes desses estados. Capitais inclusive tão antigas como o estado de Minas. São Paulo, Rio e Salvador têm idade para serem avós de BH. Depois, não muito tempo, outra viagem, dessa vez para Poços de Caldas, 450 quilômetros para baixo, pertinho de São Paulo. Aqui, ô meu, cê pode olhar para debaixo das pontes pela janela do ônibus, que tem água mesmo, muita plantação verdinha de café pelo caminho e um gado gordo que minha boca ficava cheinha de água pensando naqueles cupins, naquelas picanhas... O gosto pela pizza na noite revela um peso paulistano nos costumes e na barriga. A fala tem aqueles erres engripados que chamamos de caipira. À noite, em um restaurante passava um jogo de futebol (paulista, diga-se) na televisão e resolvi descontrair e também provocar meus colegas atleticanos, fazendo um rápida enquete entre os presentes da cidade em tom alto: Aqui a maioria torce pelo Cruzeiro ou Atlético? Uma jovem aluna entre os outros que nos acompanhavam, defendeu-se: - Que isso, mano, aqui é tudo Corinthians, Palmeiras, São Paulo... - Mas e os times mineiros? - Moço, aqui para nós, passou de Belo Horizonte para cima já é tudo baiano. - Uai?
O que escrevo é para ser eu mesmo E para ser lido pelos outros. É uma despretensiosa música composta. O retoque costuma parecer as maquiagens que têm o efeito oposto da intenção. Mas a gente faz e evita o espelho. Tem que ser mais próximo da fala desmedida ou comedida, conforme o falante e não o ouvinte. Tem hora que a palavra fica querendo contrariar a gente. Nunca sai como queremos. É preciso paciência, trocas, cortes, recortes, apagãos, respiração e retorno calmo para ela sair bonita, harmônica que nem nota boa. Faço um trato com as palavras. Peço a elas que pulem do dicionário e eu, em troca, lhes ofereço companhia para não ficarem sozinhas nesse mundo cão. Às vezes sou atendido, outras não. Por isso, paro efico procurando entendê-las e elas esperando impassíveis, querendo lugar em algum espaço em branco que lhes valha a pena. Ficam bonitas quando encontram harmonia, entre si e comigo, pois celebrou-se o encontro.
Tive que ir à farmácia para conferir. Ouvi pelo rádio a propaganda do óleo Atalaia para escurecer cabelos e fui para matar saudades. Nem imaginava que ainda existisse. Meu pai, na época, quarentão, pintava todos os dias os cabelos com esse artigo, que tinha um cheiro forte, feito produto após barba, misturado com perfume barato. Ficavam pretinhos e eu não entendia o porquê. Achava tão bonitos seus cabelos brancos! Parecia que era mais pai. Ainda mais que meu avô não os tinha e também eu o via poucas vezes. Sempre que chegava em casa após o trabalho, tomava o banho e ia para a enorme cozinha da casa que tinha só meias paredes na divisa com a área do tanque de lavar e o quintal. Ali colocava um desses espelhinhos pequenos e se barbeava. Depois tingia os cabelos e o bigode. A gente miúda ficava observando sem entender de vaidade adulta, pensando que era algum conserto na cara.
Na minha infância não era comum questionamentos de coisas exclusivas de adultos Não havia a democracia familiar ou o excesso de permissividade dos tempos atuais em que as crianças são as primeiras a opinar. Contrários ou a favor, nos era reservado apenas o sentido. No caso o da observação. E de preferência silenciosa. Na verdade os hábitos ligados à vaidade expressa ou manifesta eram mais afeitos às mulheres, ficando os homens mais restritos a uma boa higiene, cabelos, dentes e sapatos bem escovados. Para se conquistar um par, por exemplo, a boa lábia falava mais alto que a aparência.
Nem sei se essa é uma justificativa para manter firmes os meus cabelos que vão hoje branqueando vigorosamente a cada dia. Acho um processo natural e assim também ajo. Ou então para não ter que ouvir de minha filha mais nova com um pendor para a crítica desde muito pequena. A doce e ferina sinceridade das crianças... A Clara, nas suas primeiras palavras aprendidas me avaliou certa vez, quando me viu em uma camisa com estampas bem floridas. – Pai, você está redículo.